Três anos de imortalidade: legado, memória e gratidão

Ronildo, Marcelo e convidadas da cerimônia de posse 2026

Por Marcelo Miranda

Hoje, trago em minha fala não apenas minha gratidão por esta honra, mas também a memória de duas figuras que marcaram indelevelmente a história de nossa cidade e que, de formas muito pessoais, inspiram minha trajetória nesta Academia: Monsenhor Francisco Tarcísio de Melo e meu bisavô, o jornalista e escritor Manoel Ferreira de Miranda, patrono da minha cadeira.

Monsenhor Tarcísio: Uma Presença que Moldou Minha Vida

Nascido em Ibiapina em 22 de dezembro de 1926 e ordenado sacerdote em 8 de dezembro de 1951, Monsenhor Francisco Tarcísio de Melo assumiu a Paróquia de São José de Ubajara em 1º de maio de 1960, onde permaneceu como vigário por cinquenta e quatro anos, até seu falecimento em 11 de abril de 2015.

Mas para mim, Monsenhor Tarcísio não é apenas uma figura histórica. É uma presença que moldou minha própria vida.

Foi ele quem me preparou e celebrou minha Primeira Comunhão. Lembro-me até hoje da cerimônia, da voz serena do Padre, das palavras que ele nos dirigiu com aquele carinho de quem via em cada criança não apenas um fiel, mas um futuro construtor de Ubajara.

Estudei no Colégio Nossa Senhora de Fátima, o “colégio das irmãs”, instituição que ele ajudou a criar e fortalecer, trazendo as Filhas de São Vicente de Paulo para educar nossas gerações. Aquelas paredes, aqueles corredores, aquelas salas de aula foram o palco onde aprendi não apenas a ler e escrever, mas a ser cidadão, a valorizar minha terra, a respeitar meus semelhantes.

Monsenhor Fco Tarcísio Melo

A Revolução Educacional que Me Tocou

A atuação de Monsenhor Tarcísio em Ubajara transcendeu em muito o púlpito. Ele foi, acima de tudo, um visionário da educação que transformou radicalmente o destino de gerações de ubajarenses — incluindo a minha.

Em 1966, fundou a Escola Normal do Sagrado Coração, instituição que formou as primeiras professoras primárias da própria cidade. Antes disso, era comum que jovens de Ubajara precisassem migrar para Fortaleza em busca de formação acadêmica — uma realidade que excluía aqueles que não podiam arcar financeiramente com a mudança. 

Como registrou a pesquisadora Francisca Tatianni Carneiro Cruz em sua dissertação de mestrado pela Universidade Federal do Ceará, a fundação da Escola Normal foi “de grande relevância para a educação primária ubajarense, já que propiciou a formação dos futuros professores” e “representou mudança significativa para os jovens menos abastados financeiramente que não podiam sair da cidade para prosseguir os estudos”. 

Mas sua obra educacional não se limitou à Escola Normal. Monsenhor Tarcísio foi igualmente fundamental na criação do Colégio Nossa Senhora de Fátima, o mesmo colégio onde estudei, instituição que durante décadas ofereceu educação de qualidade às crianças e jovens ubajarenses.

O Articulator Comunitário

Monsenhor Tarcísio foi um articulador incansável junto aos poderes públicos para a implantação de instituições de ensino em Ubajara. Foi fundamental na doação de terreno para a construção da Escola Estadual Governador Waldemar Alcântara, instituição que hoje carrega o nome de um dos governadores mais importantes do Ceará. 

Incentivou a construção de diversas capelas em Ubajara e comunidades rurais, fortalecendo a presença da Igreja Católica não apenas como espaço de fé, mas como centro de convivência e organização comunitária. 

A “Biblioteca Humana” de Ubajara

Quem conviveu com Monsenhor Tarcísio o descrevia como uma verdadeira “biblioteca humana”, repleta de mitos, contos, histórias e narrativas sobre Ubajara. Ele não apenas transformou a cidade fisicamente com escolas e capelas, mas também preservou e transmitiu a memória coletiva de nosso povo.

Era uma figura de respeito e admiração transversal, que dialogava com autoridades municipais, educadores, religiosos e o povo simples da roça com a mesma humildade e sabedoria. 

O Legado que Permanece em Mim

Faleceu em 11 de abril de 2015 em Fortaleza e foi sepultado no cemitério São José de Ubajara, conforme seu desejo. Mas seu legado permanece vivo — em mim, em cada aluno que passou pelo Colégio das Irmãs, em cada professor formado pela Escola Normal, em cada ubajarense que teve sua vida tocada por ele:

  • Uma escola municipal leva seu nome: EEIEF Monsenhor Francisco Tarcísio Melo
  • Há um feriado municipal em sua homenagem em Ubajara
  • Foi um dos primeiros defensores e idealizadores da criação desta Academia Ubajarense de Letras e Artes
  • Sua memória inspira educadores, escritores e artistas que, como ele, acreditam no poder transformador da cultura e da educação

Manoel Ferreira de Miranda (EMMES): O Jornalista das Letras

Do outro lado desta história, está meu bisavô, Manoel Ferreira de Miranda, conhecido pelo pseudônimo literário EMMES. Nascido em Granja-CE em 2 de agosto de 1886, mudou-se para Ubajara ainda jovem e aqui desenvolveu sua carreira jornalística e literária.

Foi fundador de jornais como “A Ibiapaba” (em parceria com Craveiro Filho), “Gazeta da Serra” (1924-1929) e colaborou com o jornal “O Serrano” em 1909. Em 1929, mudou-se para Fortaleza, onde fundou o vespertino “À Tarde”, atuando como redator.

Sua obra literária inclui poesias, sonetos, contos e crônicas, com obras publicadas como “Milagre do Coração” e “Cousas que Acontecem”. Faleceu no Rio de Janeiro em 22 de julho de 1955.

“Diário de um Velho”: A Crônica que Une Gerações

Em meu livro FRAGMENTOS, há uma crônica intitulada “Diário de um Velho”, na qual meu “Pai Vô”, como chamamos na família, conta a história dele. Esta crônica é mais do que um registro literário: é um elo entre gerações, um testemunho de que as letras em Ubajara têm raízes profundas e que a memória de nossos antepassados deve ser cultivada como fonte de inspiração para as novas gerações de escritores e artistas.

Três Anos de Imortalidade: Um Compromisso Pessoal

Ao completar três anos dessa Academia, renovo meu compromisso de honrar não apenas o patrono da minha cadeira, mas todos os que, como Monsenhor Tarcísio — que me deu a Primeira Comunhão e me educou no Colégio das Irmãs — e Manoel Ferreira de Miranda — meu bisavô, cuja voz ecoa em minhas crônicas —, dedicaram suas vidas à educação, à cultura e às letras de Ubajara.

Que a poesia, as letras e as artes continuem a florescer em nossa cidade, trazendo mais beleza e criatividade para Ubajara.

Muito obrigado.

Fontes Pesquisa:

  • Site oficial da Academia Ubajarense de Letras e Artes (ubajarense.com.br)
  • Dissertação de mestrado: “Memórias e Narrativas da Escola Normal do Sagrado Coração em Ubajara – CE” (UFC, 2017) 
  • Blog da Monique – cobertura das posses da AULA
  • Documentos históricos sobre Monsenhor Tarcísio de Melo 

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Francisco Mendes da Rocha, filho de Raimundo Mendes da Rocha e Maria Iria da Conceição, nasceu em 25/05/1925 no Sítio Amazonas, em Ubajara. Ainda criança, foi se criar no Sítio Murici — também conhecido popularmente como "Top" —, onde viveu boa parte de sua infância ao lado da família. Desde muito novo dedicou-se ao trabalho rural, ajudando o pai até os 24 anos de idade e contribuindo também para a criação dos irmãos.Naquele sítio, Francisco foi companheiro do pai nas obrigações da casa e da lavoura. Assumiu, desde menino, responsabilidades próprias de um adulto — um garoto de zona rural que já carregava nos ombros o cuidado com os irmãos mais novos. Esse compromisso precoce chamava a atenção de todos ao seu redor e revelava, ainda na infância, o homem dedicado que ele seria: o mesmo zelo que dedicou aos irmãos, mais tarde dedicaria também à formação e à educação dos próprios filhos. Casou-se com Alfríza Tomaz de Oliveira, com quem constituiu uma família de 11 filhos: José Tomás da Rocha, Raimundo Tomaz da Rocha, Cosme Jucelino Tomaz da Rocha, Damião Jucelio Tomás da Rocha, Margarida Tomaz da Rocha, Mairla Mendes Tomaz, Manuel Mendes Tomaz, Ricardo Tomaz da Rocha, Marleide Tomas da Rocha, Humberto Tomaz da Rocha e Alexandre Tomaz da Rocha. Após o casamento, foi morar no Sítio Boa Vista, propriedade que era sua, onde constituiu e criou sua família. Foi um homem dedicado à criação dos filhos e ao trabalho árduo na agricultura, transmitindo a eles o mesmo empenho que marcou sua própria trajetória. Tornou-se precursor de inovações no cultivo da cana-de-açúcar, preservando e aprimorando a variedade conhecida como cana-roxa, muito apreciada pelos agricultores da época, pois a cana tradicional não apresentava o mesmo rendimento e teor de açúcar que a roxa. Tinha também grande habilidade no trato com os animais: amansava bois para puxar o engenho e transportar a cana, mantendo sempre viva a atividade canavieira de sua propriedade. Em sua casa de engenho eram produzidos diversos derivados da cana-de-açúcar — rapadura, batida e cachaça. Produzia ainda o famoso tijolo de mamão, comercializado por muito tempo nas feiras locais, e experimentou também o tijolo de jaca, aproveitando a fartura da fruta na serra. A propriedade contava ainda com uma casa de farinha, equipada com os instrumentos necessários à produção da época. Fazia de tudo um pouco na agricultura. Foi um dos primeiros da região a plantar tomate, além de se destacar no cultivo de mamão e outras frutas. Na pecuária, criava vacas leiteiras, garantindo o sustento da família e contribuindo para o abastecimento da comunidade. Francisco Mendes da Rocha — o Chico Mendes — representou todo aquele povo trabalhador e agricultor ubajarense que, geração após geração, encontrou nesta terra fértil seu sustento e sua alegria. Sua história foi a de todo trabalhador que enfrentava a lavoura cedo, inovava quando faltava o caminho pronto e se dedicava, acima de tudo, a dar aos filhos a chance de oportunidades. Tinha como meta de vida a dedicação à cultura da cana-de-açúcar, à qual se manteve fiel até o fim de seus dias, numa época em que a atividade canavieira, aos poucos, foi se afastando da região, dando lugar à migração para outras culturas. Ao inaugurarmos este Engenho, homenageamos não só sua memória, mas essa abnegação e esse amor pela cana-de-açúcar — e, com eles, todo o povo de Ubajara que, com o mesmo suor e a mesma fé, lutaram para criar seus filhos e manter viva a força desta cultura canavieira. Depois de uma vida inteira dedicada à terra, ao trabalho e à família, Francisco Mendes da Rocha partiu para a morada do Pai em 01/04/2002, deixando atrás de si um legado de esforço, inovação e amor que permanece vivo em cada filho, em cada neto e em toda esta serra que ele tanto cultivou. Autores: Mairla Mendes e Alexandre Tomaz Organização da Biografia: Rosemberg Tomás

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