Grande Sertão Veredas vira filme

Grande Sertão Veredas, artigo de Monique Gomes para a revista da Academia Ubajarense de Letras e Artes

Por Monique Gomes Sabe quando você lê um livro tão bom que, depois de passar um marca-texto nas frases mais importantes, percebe que está pintando praticamente a folha toda de amarelo? Ou, no livro digital, fica selecionando quase o texto completo, de tão bom que ele é? O filme brasileiro Grande Sertão (2024), disponível no catálogo da GloboPlay, causa essa mesma sensação, embora a gente saiba que é inútil passar um marca-texto na tela da TV. Tudo porque a obra é uma adaptação de Guimarães Rosa. A história traz a complexidade da narrativa de 1956, transpondo a violência do sertão para a realidade de uma favela urbana. Essa releitura, ao mesmo tempo moderna e fiel ao espírito de Guimarães Rosa, torna o clássico acessível a novos públicos. Riobaldo (Caio Blat) é um professor de escola pública que está no meio de um conflito violento entre facções e a polícia. A guerra não é apenas física, mas também filosófica, pessoal e emocional, uma vez que ele se apaixona perdidamente por quem ele acredita que é um homem. O relacionamento entre Riobaldo e Diadorim (Luisa Arraes) é marcado por sentimentos contraditórios e uma lealdade inquebrantável que revela as complexidades das relações humanas, a busca pela identidade e a dificuldade de aceitar as próprias emoções. Diadorim, que se disfarça de homem para poder participar da guerra, representa o desafio da luta pela autenticidade em um mundo de imposições. O filme explora a tensão e o conflito psicológico entre os dois, trazendo questões existenciais que permeiam a obra de Rosa. Além disso, o filme também apresenta personagens como Joca Ramiro (Rodrigo Lombardi), líder de uma facção, e Zé Bebelo (Luís Miranda), que refletem diferentes aspectos da luta pelo poder. Hermogénes (Eduardo Sterblitch), por outro lado, personifica as forças malignas da história, oferecendo uma representação simbólica das trevas que rondam a vida no sertão e na periferia. É uma experiência cinematográfica única, que não só homenageia a obra de Guimarães Rosa, mas também a recontextualiza, fazendo-a falar sobre questões ainda muito presentes na sociedade brasileira. Se você busca um filme que desafie suas concepções sobre amor, lealdade e identidade, assista a Grande Sertão na GloboPlay.

Academia organiza nova eleição

Acadêmicos se reúnem para organizar a nova eleição da Academia Ubajarense de Letras e Artes

Por Monique Gomes Membros da Academia Ubajarense de Letras e Artes se reuniram na tarde de domingo, 24 de Novembro de 2024, para a tradicional reunião mensal. O encontro foi oportuno para discutir as seguintes pautas: A eleição acontecerá no dia 16 de Dezembro de 2024, sendo que a apuração dos votos acontecerá no mesmo dia. Será considerado eleito o candidato que obtiver o maior número de votos do total dos sufrágios válidos e, em caso de empate, será eleito o mais idoso. De acordo com o edital de convocação, a posse dos acadêmicos eleitos acontecerá dentro de três meses, a contar da comunicação oficial da eleição em data acertada pela Academia – podendo ou não ser prorrogado por mais 30 dias. A nova diretoria tomará posse no dia 15 de Fevereiro de 2025. Ao final da reunião, todos os participantes foram pegos de surpresa com a declaração do empresário Joaquim Aristides que, tendo conhecimento que o grupo anseia por um espaço próprio, fez a doação de um terreno 10×30 para a construção da sede da Academia Ubajarense de Letras e Artes. Com os olhos lacrimejando de emoção e, ao mesmo tempo, com um ar brincalhão que lhe é peculiar, Joaquim decretou as condições ali mesmo: Cláusula primeira: Ele continua com o direito de levar uma cachacinha para as reuniões; Cláusula segunda: a construção da sede deve acontecer dentro de 2 anos, com prorrogação de mais dois, totalizando quatro anos. Cláusula terceira: No caso de a Academia ser extinta, o imóvel será doado para outra organização congênere. Diante da boa notícia, os membros da Academia ficaram extasiados, comemorando a nova conquista.

É muita saudade!

Saudade, artigo de Edmundo Macedo publicado na revista da Academia Ubajarense de Letras e Artes

Por Edmundo Macedo Festa das moças: noite de festa. No salão do prédio da Prefeitura, os aplausos acompanhados de foguetes empinados pelo fogueteiro, Manoel Felix, eram ouvidos, também, pelas estrelas do céu serrano. A orquestra faz a abertura do baile em grande estilo, tocando a Valsa dos Namorados, Murmúrios pelo salão para os dançarinos apoiados uns aos outros num comovido e íntimo galanteio. Pausa para chamar o garçom e pedir vinho, uísque, refrigerante e tira-gosto. Quem quisesse uma cachacinha, ia até a um mini bar atrás da orquestra e solicitava bem manhoso: “Bota uma talagada da amarelinha do cajueiro! Te pago amanhã!” Reinício da festa: um bolero com música romântica: “Que queres tu de mim?” Com este som e letra que parecia vir de outra galáxia, os cochichos nos ouvidos nos ouvidos das moças era o primeiro tempero do amor. O bolero continuava e os dançarinos criavam mil passo em uma cortesia invejável. Ali estavam jovens e rapazes dignos e sonhadores, entre eles: Domício Pereira, José Ubaldo, Rossini Cunha, José Furtado, Versiani Holanda, Hudson Vasconcelos, João Ribeiro Lima, Oscar, Nabuco, Manoel Miranda Filho, Manduca, Antônio Miranda, José Grijalva, Tico (Pavuna), Alcides, Zequinha, Zé Gilberto, José Augusto, Bolívar, Vitaliano, Afonso, Ivan, Modesto, Eurípedes, Raimundo Ferreira Costa, Gonzaga Cunha, Almir Salmito, Lincoln Vasconcelos, José Cunha, Humberto, Zé Gilberto, José Augusto, Djalma Lima, Quincas, Berilo Jordão, Vilani, Oneide, Iná Miranda, Isonete, Sulamita, Zeli, Francion, Expedita, Valderez, Ceci, Morenita, Maria Alair, Branca, Sensatinha, Margarida Holanda, Raimundinha Ferreira, Socorro Portela, Noemi, Elita Clemente, Vanda, Alice, Graziela, Lucivalda, Leda, Isa, Maria Anita, Glica, Laís, Zeli, Adelita Vasconcelos, Elizabeth, Maria de Lourdes Cunha, Íris, Maria Antonieta, Orquideia, Didi Gomes, Maria Helena, Erivalda, Éster, Fransquinha… e tantas outras criaturas que fizeram de Ubajara a mais emotiva cidade do planalto da Ibiapaba.

Ubajara, símbolo da Ibiapaba

Ibiapaba: poema de Henrique Moreira para a revista da Academia Ubajarense de Letras e Artes

Por Henrique Moreira Ubajara, símbolo da Ibiapaba Gleba abençoada de beleza rara Fora outrora da intrépida nação Tabajara Urbe de remotas épocas Onde os índios faziam ocas. Torrão de selvagens belicosos Íncolas de atos majestosos Pois cuidavam bem da natureza E com fascínio exaltavam sua beleza. À flor d’alma com magnanimidade Ao berço de nossa nacionalidade És um solene botão dadivado Pelo sublime canto agraciado. À Pátria indígena onde as paixões Verte-se tão épica nos corações Dos seus primeiros filhos insignes Os fortes e briosos aborígenes. Egrégios morubixabas Senhores das tabas Temidos por sua denodez plana Dominavam a serra ibiapabana. Jurupariguaçu, o feroz diabo grande Chefe, cujo brio expande Mel Redondo, o indômito Irapuã Todos só temiam a Tupã. Os autóctones por suas tradições São perenes inspirações Há de frisar-se entre as tais As pinturas corporais. Os guerreiros com seus acangatares Feitos das plumas e pomares Eram reverenciados por varão Pois os adornos simbolizavam sua nação. A pocema que era grito de guerra Que pelos abruptos talhados da Serra Ecoava além dos vales e montanhas Resplandecia às lutas heroicas de sanhas. Foi na bela Gruta mil vezes já decantada Por sua esplêndida beleza abençoada Que vivera o indígena – Ubajara Filho da bélica nação Tabajara. Libérrimo ele vogava com galhardia Á flor d’água e à luz do dia Pelos rios de águas cristalinas e puras Onde a vida da natureza fulgura. Fora este cacique que amava sua terra Que dera origem à urbe da Serra Berço de paz e beleza rara Salve, oh belíssima cidade de Ubajara.

Versos dedicados a Maria Lira

Homenagem a Maria Lira para a revista da Academia Ubajarense de Letras e Artes

Por Ilma Oliveira Queria falar tão somente da graça que tive no tempo Em que convivi com uma amiga com tanto entendimento Explicava para mim o que era ser, em fim, um verdadeiro cristão Tudo tinha, então, sentido, porque eu a escutava com mente e coração. Não ensinava só com palavras, mas com exemplo também Dizia sempre que a vida era vida quando se fazia o bem Por isso ficava contente sempre que ia falar Suas palavras eram suaves e prazerosa de escutar. Abençoada a hora que conheci minha amiga Maria De fundamental importância foi a sua companhia Falar da minha amiga, estou sempre à vontade Nosso convívio sempre positivo pela grande qualidade. Na diferença da idade e conhecimentos adquiridos Era cheia de saberes todos por ela já vividos Complementavam-se os saberes pala diferença de idade Ela tinha a experiência, eu tinha a boa vontade. Com toda serenidade de uma vida bem-vivida Ela soube ser capaz de aceitar a sua lida Habilidade bastante pra lidar qual fosse a situação E sabia conduzir todas com uma sábia solução. Ela sempre me dizia: tudo na vida é passagem Para resolver seja o que for tenha sempre serenidade O melhor da nossa vida será sempre a tranquilidade A vida é tão rápida e parece uma miragem. Também deixou para todos o legado da alegria Característica de quem sempre está no coração de Maria Dedicada a igreja de corpo, alma e mente Era no servir a Deus que a fazia contente. Dizia-me com convicção: nosso dever é amar A Deus do céu de coração, sem Ele não podemos estar Em toda e qualquer idade Dele, só dele é a bondade Que o amor Dele nunca falta, é só fazer caridade. Quando quiser ser bom cristão, ame ao Senhor Jesus Na hora do seu tormento, que Ele sempre conduz Seguir a Ele é obrigação de todo e qualquer cristão Basta entender que sem Ele não haverá salvação. A salvação é difícil pra quem não acredita no amor Ele sabia o quanto seria da Nossa Mãe tanta dor Também do filho eterno que por nós morreu na cruz Há de vir do coração fé, amor, compaixão e luz. Grande conhecedora da verdadeira palavra de Deus Por isso viveu em harmonia e simplicidade com os seus Foi uma vida vivida dedicada a igreja e aos irmãos Queria servir ao Pai por servir e nunca dizer um não. Assim deixou para todos nós a riqueza de seu amor e fé Entendendo que o Senhor Deus não foi, não será, Ele é. Amar a Deus é o que importa tendo humildade de mente O que o faz ficar feliz o Pai é ver o filho contente. Resta a nós seguir em frente com zelo e esperança E procurar crescer na humildade como se fosse criança Que não sabe o que é maldade desse mundo de cruéis Absolvidos em bens da terra não sabem a Deus ser fieis. A plantação que fizermos da palavra do senhor Será de grande sabedoria regar com cuidado e amor O que iremos colher no futuro é o resultado da semente Daqueles que sabem guardar os bons conselhos na mente. Descanse em paz, minha amiga, que nós ainda aqui vivemos Nesse pedaço de chão apenas com a oração é que a Deus chegaremos Pedindo sempre ao Senhor para nos livrar da dor e a salvação buscar Obediente na oração e também na eucaristia para salvação ganhar.

História da Família Eufrásio

História da família de Raimundo Eufrásio para a revista da Academia Ubajarense de Letras e Artes

Raimundo Eufrásio Oliveira é cearense, nascido aos vinte e oito dias do mês de Setembro do ano de 1916. Seus genitores residentes na Serra do Rosário, em Sobral, sofreram as dores da seca que assolava constantemente as populações regionais. Mais ou menos por volta do ano 1888, os mesmos transferiram-se para a Serra da Ibiapaba, precisamente hoje no município de Ubajara, á época território pertencente a Jurisdição do Município de São Benedito. Era o início da tradição, bem como a história da família Eufrásio de Oliveira, em Ubajara. A cidade de Ubajara, sempre amada por Raimundo Eufrásio, não foi seu leito de morte, embora fosse indicado por ele como o lugar ideal para findar os seus dias: sua terra natal. Julgava inconcebível qualquer argumento contrário a essa questão de sua preferência. Ele nasceu e viveu até os dez anos de idade no sítio de propriedade dos pais que muito cedo partiram para o céu deixando-o órfão prematuramente. “Sob as sombras acolhedoras dos viçosos cafezais que envolviam a casa grande do Carpina, jardim edênico do Pitanga, eu vim ao mundo num dia alegre de setembro”[1]. “No belíssimo cenários verde-esperança dos fartos canaviais farfalhantes da encantadora região da Valentina, eu adorei a natureza majestosa; ali era a nascente do famoso Olho D’Água, de águas cristalinas e tépidas, tão puras, tão convidativas tão perenes como as bênçãos dos céus; as secas o afastaram por muitos anos seguidos, e logo que o meu pai adquiriu aquelas terras, ele retornou como um prodígio de Deus para beneficiar o solo onde eu nasci” [2] Foi ouvindo as dolentes cantigas das águas da velha cachoeira do rio Pitanga, que Raimundo Eufrásio sentiu as primeiras emoções que energizam a alma do jovem no contato inicial com as maravilhas da terra. “No deleite dos cantos maviosos das graúnas no alto azul das palmeiras seculares, eu aprendi as primorosas lições da psicologia dos pássaros que cantam, que amam, alegram, galvanizam, que lutam, sofrem, morrem, mais não choram, não suplicam, nem gemem; nisto os fortes, os santos e os mártires são semelhantes às aves canoras do céu” [3] “E nas tardes quentes de verão, dominadas pelo instinto milenar da despedida, as estridentes cigarras cantadeiras choravam a saudades do sol quando morria; e a natureza encobria a serra no negro cobertor da noite; eu aprendi, assistindo aquele drama, a esperar a felicidade do dia de amanhã e a chorar a saudade do dia que passou; nas madrugadas risonhas de verão, eu era despertado, feliz e embevecido, com a alvorada melodiosa dos bandos dos xexéus, sabiás, graúnas, campinas, canários e jesus-meu-deus, numa sinfonia enternecedora que só a natureza mestra sabe craniar; aí, eu compreendi que até os infelizes podem ser felizes por alguns momentos” [4] “Dos píncaros da colina, a gente avista a cidade; aquela cidade festiva das missas de domingo e das novenas de São José, e a sedutora menina fidalga ávida de amor e estuante de progresso: A PRINCESA DA SERRA, a jóia dourada da Ibiapaba; Nessa cidade eu aprendi na Escola da incomparável mestra Maroca Perdigão Pereira, a cantar o Hino Nacional, a rezar as orações da Primeira Comunhão, a declamar poesias do genial Castro Alves e do Padre Antonio Tomaz, e amar com orgulho a minha pátria; na minha cidade eu aprendi a ler – a glória do menino de engenho; foi a partir dessa época que comecei a me afastar das tarefas comuns de tratar dos bois e coletar os feixes de bagaço de cana para transportar às costas para o pátio da fábrica, etc; dir-se-ia que eu descobriria um mundo novo, mais convidativo, mais progressista e mais humano; eu sabia ler o QUARTO LIVRO de Felisberto de Carvalho, o que para muitos companheiros já representava um diploma de letras” [5] Raimundo Eufrásio viu e venerou os filhos heróicos da cidade, que lutaram pela independência do município e conquistaram a autonomia política de Ubajara. “conheci o líder do povo Grijalva Costa, jornalista Manuel Miranda, o chefe político Francisco Cavalcante de Paula, o intelectual José de Oliveira Vasconcelos, o comerciante Moisés Bispo de Lima, o abastado Pergentino Costa, o industrial Elpídio Luiz Pereira o poeta Antonio Pereira, o rico comerciante Francisco Bahé de Macêdo, o prefeito Luiz Lopes, o tabelião e professor Antônio Celso de Jordão, tenente Ângelo Fernandes de Sousa, Raimundo Oliveira de Vasconcelos, Francisco Pinto, Flávio Lima, poeta Hemetério Pereira, Lauremiro de Vasconcelos, Francisco Alfredo Cavalcante, José Luiz Pereira, o delegado Maneco, considerado o mais rico proprietário do Município, e muitos outros que engrandeceram o torrão onde nasci”.[6] Dentre tanto narrado por Raimundo Eufrásio consta pelo mesmo que leu com frenesi os primeiros números da “GAZETA DA SERRA” e de “UBAJARA”, dois semanários que acompanhavam o progresso intelectual da cordilheira, sempre orgulhosa de Clóvis – o pontífice da Jurisprudência no Brasil, e de Farias Brito, considerado até então o mais renomado filósofo brasileiro de todos os tempos, admirou os encantos, belezas e excentricidades da maravilha natural do Norte: a Gruta de Ubajara. “a milenar e portentosa GRUTA DE UBAJARA, com as suas estalactites que marcam o relógio da civilização todos os segundos de cada século, e as estalagmites que formam, pacientemente, as pilastras para a história das pesquisas científicas que ainda não chegaram até nós; e na visita que fiz à Gruta eu assisti um dos mais belos espetáculos que os meus olhos já presenciaram: a indescritível aurora que nos maravilha, quando saídos das trevas da caverna avistamos o raiar do sol esplendoroso e mil vezes mais lindo que nos recepciona lá fora; a Gruta é, na verdade, a maravilha do Norte do Brasil” [7] Segundo Raimundo Eufrásio a fertilidade do solo, a prodigalidade do clima, a excelência da água, a exuberância das frutas, a magnificência dos panoramas das alturas e a riqueza vegetal, a constância das chuvas, a salubridade do verão serrano, a potencialidade agroindustrial espelhada na cultura secular da cana de açúcar e do café, a perenidade das plantações verdejantes, tudo isso conjugado à hospitalidade do coração generoso do povo da sua terra, representa

Muralha de Aço

Poema de Clara Leda para a revista da Academia Ubajarense de Letras e Artes

Por Clara Leda Ibiapaba, Serra Grande, majestosa Lendo e conhecendo tua história Em idos dias e outroras Sinto um orgulho danado de ti. És uma muralha forte, Suporte em aço Sem início e sem fim A sustentar o horizonte. És um mar de terras férteis Que deslizam por tuas encostas, Espraiam-se aos teus pés, Manjedoura da fartura. Encravada na tua rocha Em cenário de garoa, Desabrochou, feito flor Minha Ubajara querida. Do alvorecer ao anoitecer A natureza toda canta. Canta no assobio do vento Na boca d’água dos rios Na chuva de prata do luar. Canta a cigarra, canta o sabiá, Canta o povo, louvores, Benditos de sua fé E crê: as bonanças da nossa terra São chuvas de bênçãos divinas. A euforia, em mim, transborda E um orgulho de teu tamanho Toma conta de mim. Celebro! meu grito é eco, Ressoa, revela: Sou ubajarense! Sou Ibiapabana! Por ti faço versos, Cidade amada, terra querida Meu orgulho, minha paixão.

À Pressão, os feijões

Feijões, conto de Melissa Vasconcelos para a revista da Academia Ubajarense de Letras e Artes

Por Melissa Vasconcelos Minha filha, Não estou a entender nada do que tu me dizes. Onde estou, sou cinza. Mas para me dizer maior, Me chamo de prata. O cheiro é de indústria. Meu pescoço aumentou em largura e diminuiu em comprimento. Meu olho está arqueado como o olho de um monstro. E nossas colunas agora são infinitamente tortas. Se puder fugir desse já, fuja. Vocês da frente estão condenados a estarem atrás. Laudo de besta é ganhar coice e ser marcado por um trem de ferro. É por isso que tenho ficado esfolado: não sou eu quem sou besta, besta é quem me esfola. E eu perco a vida sendo esfolada, quem aparentemente ganha também é quem me esfola. Mal sabe o que esfola que morrerá por igual esfolado. Estou cansada de desejos que me criam ofertas ou demandas. A primeira esfera acabou no vai e vem dos produtos. No mesmo circo, comercializamos a nossa carne como um objeto. O desejo não satisfaz a vontade da vida, apesar de oferecer espectros ao novo. Feitas as procuras até então, acho que muito se houve do eu; pouco se houve de nós. Esgotou pois a água que procurava os rios dos envelopes. Joaquina completava dezenove anos naquela tarde de alvorada. Ao retornar do Mercado dos Pinhões, trazia alguns apertos na cabeça – vinham de frases intermináveis que colidiram nos acordes e nos versos. Além da marca de ferro, vista a queimar os cascos do cavalo, havia um cheiro tão impregnado de feijão cru, a ponto de causar náuseas para a socorrida de um quarto de copo no calendário. Desde muito pequena, lá nos seus oito anos, pungia a reclamar das dores articuladas entre as duas pernas sustentadoras de entulhos. Como a dupla se colocava abaixo do quadril, acreditava em sua função de ser escala fezes. Mas isso não cabe, de todo modo, no caroço do feijão cru; o atormentador de narinas e desacatos aos bons modos. Quantos feijões bons eram maus em conduta? É certo – não transpareciam ou apareciam semelhantes aos alunos universitários que via de poucas ou muitas regras – fica ao dispor de quem se entonar – eram ensinados a disciplinar os egos estourados nos seus palanques invisíveis; qualquer um deles seria rente para mostrar vielas de sobrevivência. Por isso, quase toda a vida parece ser andada por linhos que perderam suas linhas. Os bons aprendizes se matavam nessa caça ao grande. Foi ali que a menina perguntou se o monstro dos fitos não seria, em verdade, um grande. Pois a fim de ficar com feijões duros e crus, Joaquina notava ser mais ardida a convivência para as conveniências de cheirosos – e todos eles fediam para Thoreau – do que o fedor dos petrificados da esquina. A putrefa e a pedra são irmãs. Ambas são filhas das margens, as tangentes criadas pelo medo dos mesquinhos e seus respectivos palanques. A panela de pressão, destinada a gestar todos os feijões podres, achava-os tão singulares que foram eles o prato principal do jantar das seis. Josué comia os caroços, mastigava os caroços, sempre forçado a não cuspi-los por conhecer a dor da fome; porém, reclamava desenfreadamente de todos os grãos degustados. __ Estás reclamando de que, Josué? __ Dos feijões podres que você me serve. __ Por que reclamas de um podre de casca se sua alma é vizinha dos ascos reconhecidos pelo seu paladar? O bom dos feijões era que nenhum dos seus caroços necessitava de oferta ou demanda. Por serem podres, nunca seriam produtos. Exceto para Joaquina – ao se reconhecer uma filha podre, consumia todas as mercadorias podres prestes a se enrolarem nos lixões. A fila dos concursos, eternamente mais larga do que vasta, carregava uma sacola de vazios. Os feijões daquela época, por isso, estavam em irmandade de sabores à podridão. Joaquina sentia o sangue quente do caldo feito percorrer suas veias. O feijão podre e o humano eram irmãos de sangue – puros e carnais. Uma das distinções mais sublimes foi o fato da tentativa infame que o bicho de uma cabeça, dois olhos, duas orelhas, uma boca e um cérebro desenvolvido persistiu ao craquelar a imortalidade. Depois disso, Joaquina concluía que até o feijão descartado era menos podre do que um humano não velado – desse modo, porque sendo velados, já estariam puros; isto é, mortos. A elevada triturava os feijões para lembrar-se dos feijoeiros. Eram nessas raízes de onde saiam os pães e a semente da fruta que se consumia após o almoço, repartida em nove pedaços. Os feijões estragados e as goiabas maduras brigavam com frequência de presentes entre os pratos de arroz mal cozidos. Joaquina pensava sobre perdas. Achava ganhar o pensamento e um único caroço bom para morder. Tanto o caroço quanto a memória foram embora – não queriam ser lembrados, nem recordados naquele milésimo. Pilhas corriqueiramente haviam nas cabeças da elevada mais baixa da rua Dragão do Mar. Ao pisar na calçada, para Josué, era módico que acontecesse o mesmo registro. Ser queimado pelo sol, marcado por um amontoado de sacolas e sobreviver de suprimentos que nutrem os organismos como carcaças ou depósitos que deveriam se alimentar. E do outro lado do trânsito, para Joaquina, que estava muito embaixo enquanto para cima, tudo era um pouco mais pilhado: primeiro um olho aberto, depois um neurônio enterrado. Rodavam os dias como se estivessem em cima de um transporte de cascalhos apressados. Ela bem pressentia que só jovens tinham pressa de tartarugas.

Homenagem a meu avô Ditimar

Ditimar Vasconcelos, crônica de Melissa para a revista da Academia Ubajarense de Letras e Artes

Por Melissa Vasconcelos Para a maioria das pessoas, este nobre cidadão era alcunhado de Seu Ditimar, conhecido também como “Bonequinho”, em virtude de sua beleza – como meu pai, seu genro, costuma muito me dizer, rindo. Ditimar de Oliveira Vasconcelos nasceu em 29 de outubro de 1932. Filho de Raimundo de Oliveira Vasconcelos e Augusta Lima Vasconcelos, estudou no Seminário, em Tianguá; trabalhou como soldado na Base Aérea de Fortaleza, e durante muitos anos, foi caminhoneiro, além de ter sido maçom na Maçonaria de Ubajara. Porém, para mim – e para os meus inúmeros primos – ele era o vovô Ditimar. Todos os dias, acordava cedo, sempre o primeiro da casa a se levantar, para depois caminhar até o bondinho. Saía, simpático, pelas ruas. E eu, que tive uma convivência muito estreita com os meus avós, desde pequena, ia junto com o meu avô, de mãos dadas, fazer a feira na barraca da Dona Diva, ao mercado de carne do Seu Lista, comprar castanhas-do-pará nas barracas do antigo mercado de Ubajara, que hoje, converte-se em um calçadão de eventos. Até os meus dez anos, foi assim: a minha vida repleta da vida do meu avô. Nos meus cinco anos de idade, tempo em que fui aluna do infantil 5 do Instituto Nossa Senhora de Fátima, guardo uma memória cravada em meu peito – meu avô foi me buscar na escola, no final do dia, às 17h. Usava uma boina, sapatilhas, uma bermuda e uma blusa social clara; como de costume, usava óculos, e mostrava seus bons e autênticos cabelos brancos. Ele se pôs no centro da porta de entrada da minha sala, baixando a cabeça por baixo da boina, quando minha professora interrompeu a aula e disse: “Melissa, quem é aquele ali que veio te buscar?” Eu, criança, vendo aquele senhor abaixando a cabeça para não ser visto, demorei a reconhecer, e tanto meu avô quanto a professora riram. Foi ali, ao ouvir o som da risada do meu avô, e já tendo o reconhecido ao observar suas pernas, que eu o percebi, com muita alegria e a pureza de amor que somente uma criança é capaz de sentir: “É o vovô!”. E corri para abraçá-lo. Aquele tinha sido um dos finais de tarde e dia de aula mais especiais, se não o mais especial, para mim, pela simples presença do meu avô, que me buscava em sua F-1000 amarela. E como eu poderia esquecer da F-1000 amarela? Quase todos os dias – senão, todos os dias – meu avô, quando eu não estava em sua casa visitando ou passando o final de semana, ia nos visitar na casa dos meus pais, e o barulho do motor do seu carro era inconfundível, assim como o som da buzina. Eu reconhecia de longe, mesmo antes do carro estacionar na frente da casa. Ali, aprendi a distinguir os sons, os motores e reconhecer o carro de cada pessoa, o que me faz, até hoje, saber sobre cada visita que chega, antes que toquem a campainha. Sempre quem ajeitava minha bicicleta era meu avô: comprou uma bomba para encher, semanalmente, os pneus de minha bicicleta. Comprou, também, uma capinha acolchoada para que a cela não me deixasse assada. Por fim, para que a homenagem não se converta em um livro de romance, meus avós – em cada episódio que estava presente meu avô, também estava junto minha avó – me levavam à missa todos os domingos, às 7h, e ainda que não fossem à Igreja todos os dias, em todos os dias, assistiam ao terço e à missa, aos finais das tardes, às 18h. Nessas tardes, eu deitava entre os meus avós: meu avô sempre do lado esquerdo da cama, minha avó, do direito, e eu, no meio, entre os dois, que faziam, cada um, carinho ora em minhas pernas, ora em minha cabeça, enquanto nós três estávamos em reza. Nunca houve uma vez que eu não andasse na rua com meu avô que não fosse de mãos dadas, e com ele falavam, e a ele perguntavam – “é sua netinha, Ditimar?” “Sim, é minha netinha, a Melissa.” Cresci conhecida, entre a maioria, como a neta do Seu Ditimar e da Dona Fransquinha, desde criança, com muito amor, carinho e orgulho. Grande cidadão Ubajarense, faleceu em 08 de dezembro de 2018, na Santa Casa de Sobral, mas jamais será esquecido no coração de seus parentes e amigos. Antes que meu avô entrasse na UTI, tive a oportunidade de ser abençoada por ele, pela última vez – “Deus te abençoe” foram suas últimas palavras que ouvi em vida. Meu amor e respeito por meu avô são o resultado do amor que recebi do famoso Seu Ditimar durante todo o meu crescimento, e em mim, sempre haverá, não só fisicamente, mas internamente, a tatuagem do seu legado. Como forma de eternizar a memória de meu avô, intitulou-se, em 2019, a Rua Ditimar de Oliveira Vasconcelos, em Ubajara, que, conhecido pela sua generosidade, bom humor e enorme coração, deixou uma marca indubitável como cidadão Ubajarense. Tive a honra de crescer e passar minha infância com ele, ouvindo os sermões: “quem fica de ‘coca’, papoca!” ou “eu só vou sair dessa mesa quando tu raspar esse prato, eu duvido que tu coma tudo”. Gostaria muito de que ele ainda estivesse vivo e lúcido, que tivesse participado e visto o lançamento do meu primeiro livro na Câmara Municipal. Que visse minha transição de crescimento completa, que tivesse me acompanhado nos meus primeiros amores e experiências, o que eu tenho certeza que ele seria vigilante e protetivo, que me orientaria – eu, provavelmente, seria chata como uma adolescente, mas sua orientação para me proteger pesaria mais que minha chatice. Porém, agradeço pelo tempo em que consegui conviver com ele, e espero que ele esteja observando o que acontece, de onde quer que esteja. O legado que escolho carregar do meu avô é este: o amor, a honestidade, o coração grandemente generoso e a bondade. Sinto-me feliz e orgulhosa

Galos Insones | Capítulo 1

Galos Insones, livro do acadêmico ubajarense Walter Parente

25 de janeiro de 1984. Um velho ventilador de teto espalha mais barulho que vento naquela quente enfermaria de mulheres. Uma menina de nove anos dorme. O sono intranquilo. Vira-se de vez em quando, deixando a mãe preocupada com a possibilidade de que venha sair o cateter, que está preso em um dos braços, por onde lhe são infundidos soro e medicamentos. Guardiã e atenta, sentada em uma cadeira improvisada, a mãe contempla enternecida a filha. Diligente, desvia os olhos apenas para examinar o frasco de soro; está atenta ao volume e a cada gota que cai. Seguidamente lhe põe a mão na testa. “Graças a Deus, a febre não voltou”, pensa. Estava ali apenas como acompanhante, mas, quando chegou, recebeu também atendimento de emergência; trazia arranhões e hematomas no rosto, nos braços e no pescoço, havia um corte no lábio superior, o olho direito estava circundado por uma grande mancha roxa, na orelha esquerda sobressaíam três pontos cirúrgicos, postos ali para cingir um corte que dividira o lóbulo ao meio. Para a lesão maior e mais profunda, não recebera tratamento: uma ferida na alma, cuja dor se tornara intermitente e perturbadora, como era a estridulação dos grilos nas noites invernosas da fazenda. Ela ergue a cabeça, atraída por umas palavras vindas de uma TV suspensa num suporte de ferro preso à parede: “… só assim, teremos liberdade plena!” Era um político exaltado que, de cima de um palanque, discursava para uma multidão. Políticos e artistas de televisão o sucediam. Eram muitos os discursos, mas todos se encerravam com as mesmas palavras de ordem: “Diretas Já!” De quando em quando, a plateia era focada, podendo-se ler em muitas das faixas exibidas: “Parabéns, São Paulo, pelo seu aniversário!” A multidão ovacionava cada discurso. Ela sentiu inveja daquelas mulheres que apareciam em meio à imensa plateia. Mostravam-se atentas e felizes. Se estavam ali sorridentes e preocupadas com o rumo do país, por certo, os problemas de cada uma eram de pequena monta, a ponto de serem postos em segundo plano. Todas elas podiam usufruir dos maiores bens: a paz e a liberdade. Podiam ir atrás de seus sonhos. Ela, não! Sonhar, não podia! Como também não podia livrar-se de seu pesadelo, do jugo de seu impiedoso marido, que lhes infligia, a ela e à filha, suplícios e privações havia tempo. Sentia-se culpada pelo sofrimento da filha. Muito se lamentava por ter aceitado se casar com um homem que não tardou a se mostrar inescrupuloso e sádico. Nos primeiros meses do casamento, a lubricidade desmedida inibia a perversidade, mas, com o passar do tempo, a gravidez foi-se acentuando e os desejos libidinosos foram se arrefecendo, sobrando ao marido apenas o espírito selvagem e mesquinho. O sofrimento veio lhe bater à porta, com mala e cuia. A princípio, os suplícios eram amenos e espaçados; ele se contentava em ofendê-la apenas verbalmente; alguns empurrões, só de vez em quando, mas a coisa foi-se amiudando e tomando outro rumo. As bebedeiras se tornaram frequentes, e as agressões físicas também. O marido não trabalhava. Vivia a dizer que não carecia de trabalhar, que não era jumento para carregar fardos, o bom mesmo era viver do suor dos que tiveram o azar de nascer pobres. Vivia da renda advinda de duas propriedades. Ultimamente cultivava o hábito diário de rumar, após o almoço, para o Bar Pedra Branca, de Lenimberg Benevides, onde se dedicava ao carteado. Dali só saía à boca da noite, indo invariavelmente para o Refúgio do Amor de Mundinha Pedrosa. Quando, por uma razão muito forte, fugia desta rotina, Mundinha Pedrosa e suas colaboradoras não conseguiam disfarçar o descontentamento; em cada semblante estava estampada a tristeza e o desalento. A desconfiança, isto é, a insegurança, recaía na possibilidade de o fazendeiro ter-se bandeado para o Cabaré da Lolita. “Praga ruim! Cascavel invejosa!”, exasperava-se Mundinha Pedrosa. No entardecer seguinte, quando o eminente cliente aparecia cheio de ânsia, desejando recuperar o que deixara de fazer na noite anterior, a alegria no estabelecimento recrudescia. As colaboradoras trabalhavam com satisfação; algumas até se esqueciam dos infortúnios que as levaram até ali. Assim, a clientela lhe agradecia pelas raras ausências. Este bem-querer ao cliente tinha uma razão: ele era um benemérito da casa, um provedor. A maior parte da renda que recebia, ele destinava àquele empreendimento, que lhe dava como retorno a imensurável devoção de Maria Ternura, que, apesar do nome, não negava sua predileção pelo amor selvagem. “Carícia é pra virgem! Umas bofetadas no corpo sempre me aquecem a alma”, defendia ela. Este gosto dissoluto atraía o fazendeiro. Para ele, Maria Ternura, decisivamente, era diferente de todas as mulheres que conhecera, sobretudo de sua esposa. “Ela é uma mulher de verdade. Trepa porque gosta!” O marido regressava para casa quase sempre nas duas primeiras horas da madrugada. E lá estava a esposa para lhe esquentar a comida e ouvir insultos requentados: “Aonde eu fui amarrar meu cavalo, quando casei contigo? Tu não sabe satisfazer um macho, eu não troco a Maria Ternura por ti! Tu é uma puta sem-vergonha!”… Diante do silêncio da esposa, invariavelmente ele partia para cima dela como uma fera indomável. Puxava-lhe os cabelos e cobria-a de tapas. Muitas vezes, surrava-a com o cinto que trazia à cintura. A filha, atraída pelo barulho, sempre vinha correndo ao socorro da mãe, mas nada podia fazer; quase sempre terminava caída no cimento duro e frio da cozinha. Às vezes, o sangue lhe brotava do pequeno e afilado nariz. Com o passar do tempo, temendo pela integridade da filha, ela optou por se evadir, já não esperava pelo momento da flagelação. Ao terminar de esquentar o jantar, cuidava logo de pular a janela que dava para o quintal, que, por prevenção, resolvera deixar apenas encostada. Nas primeiras vezes, ele vinha em seu encalço, mas ela logo pulava a cerca do quintal que dava para a rua lateral. Ele, indisposto a tamanho esforço, como um cachorro que deixa de correr atrás de uma presa que se mostra mais veloz, desistia