A importância da história local

A importância da história local

Por Teresinha Araújo Moura, trecho da monografia apresentada à Coordenação do Curso de Licenciatura em História do Instituto de Teologia Aplicada – INTA. De acordo com Vieira, (1992, p. 122), a Serra de Ibiapaba, situada em meio a uma região de clima ao semi-árido nordestino e a noroeste do estado do Ceará, impressionam aos visitantes devido a sua beleza entre ambientes e lugares tão naturais. O tabuleiro da Ibiapaba ou conhecida mais popularmente como a Serra Grande é formada, geograficamente e politicamente, atualmente, se estende de um eixo montanhoso com início a 40 km do litoral e se avança 110 km em território cearense compreendendo as cidades de Carnaubal, Croatá, Guaraciaba do Norte, Ibiapina, São Benedito, Tianguá, Ubajara e Viçosa do Ceará. Foi nesse meio natural deslumbrante considerada como um paraíso arrodeada de caatingas que veio a se formar um dos resguardos missionários da Companhia de Jesus no Brasil, que era além das missões do Paraná-Uruguai. Segundo a carta anual de 1696, firmada pelo padre Miguel Antunes, havia na região Norte, mais precisamente no Estado do Maranhão cerca de 11.000 almas que eram gerenciadas pelos jesuítas; na capitania de Pernambuco existia cerca de 6.700 índios, sendo que 4.000 estavam presentes nas aldeias da Serra Grande. (SERAFIM, 1945, p. 321). De acordo com Studart (1960, p. 53), esses dados numéricos auxiliam de certa forma a entender o empenho com que os missionários portugueses que foram designados para o Maranhão assimilaram a região, domínio não explorado ainda dos portugueses, no início do século XVII, mas que já havia despertado o interesse dos franceses para a formação da França Equinocial. Por esse motivo que os investimentos catequéticos contassem com o apoio de várias autoridades colonialistas para anexar por terra caminhos e comunicação entre o Estado do Maranhão e Grão-Pará ao Estado do Brasil. Em torno de toda a metade do século XVII, a capitania do Ceará e, notavelmente as Serras da Ibiapaba, representavam, em documentos produzidos, a uma fronteira que deveria ser incorporada sem exceção ao império português. Assim, alega-se o uso da figuração Serras de Ibiapaba para se atribuir a essa região a noroeste da capitania do Ceará fosse compreendida como uma região colonial, espaço social de interação histórica, com participação de diferentes agentes coloniais. Se a região possui uma localização espacial, este espaço já não se distingue tanto por suas características naturais, e sim por ser um espaço socialmente construído, da mesma forma que, se ela possui uma localização meramente temporal, este tempo não se distingue por sua localização meramente cronológica, e sim por um determinado tempo histórico, o tempo da relação colonial. Deste modo, a delimitação espaço-temporal de uma região existe enquanto materialização de limites dados a partir das relações que se estabelecem entre os agentes, isto é, a partir das relações sociais·. (MATTOS, 1990, p.24). Assim, a região colonial era produto da influência de uma política colonialista com objetivo agregar a região das Serras de Ibiapaba, em um pensamento de ampliação territorial como uma conquista do Império português. Logo, essa região colonial era mais um que simples meio produtivo, mas sim um conjunto de elementos essenciais tendo como causa de sua integração essas referências. As diversas configurações de organização dos grupos indígenas, compostas pelas políticas indigenistas por meio da aldeia, um ambiente que se constituía restritamente cristão, representou, uma das precauções da Coroa como meio de conservação de suas possessões, até a mais remota região que fosse. Na época existiam inconstantes que moldavam duas variáveis históricas; a aldeia e a vila e que refletiam as práticas estabelecidas aos índios e que também participaram, estruturando métodos que possibilitassem, de alguma forma, afirmasse-se uma atmosfera de exercícios de sua identidade, ainda que houvesse a circunstância de dominação. O sistema de ação catequética da Companhia de Jesus era desvirtuado com as iniciativas da Coroa, ou seja, a atuação missionária dos missionários constituía-se como uma parte dos princípios a de dominação. Por volta do século XVII, ocorreram três empreendimentos sem sucessos de aldeamento com os índios nas Serras de Ibiapaba. Primeiramente, com os padres Francisco Pinto e Luiz Figueira nos anos de 1607-1608, que, foram mandados devidos a ordens da Companhia de Jesus no Brasil, tendo como representantes Fernão Cardim e do governador geral do Brasil, Diogo Botelho, formularam a campanha missionária em sentido ao Meio-Norte colonial. O missionário explorado na lida catequética com os índios do Rio Grande, o padre Pinto, é capturado na memória jesuítica como precursor e criador das missões no Maranhão e que estabeleceu um padrão mantido pelos jesuítas nas investidas missionárias ao sertão colonial. O desfecho dessa campanha missionário culminou na morte violenta do padre Francisco Pinto em 1608 que foi morto a pauladas pelos índios Tarairiú. (STUDART, 1903, p 47). Segundo os estudos de Monteiro (1994, p. 129), as investidas jesuítas não pararam. No período de 1656 a 1662 houve a segunda tentativa, em os missionários estiveram entre os índios através do comando do padre Antônio Vieira que o responsável e visitador das missões maranhenses. Quando enfim o resguardo cristão foi estruturado nas Serras da Ibiapaba por meio do Antônio Vieira, a campanha denominou-se de São Francisco Xavier, provável homenagem a um dos idealizadores da Companhia. Atenta-se que esse momento foi propicio a muitas disputas na região do Estado do Maranhão, entre os jesuítas e os colonos e representantes do poder local que mantinham concentrada a mão-de-obra indígena. Assim, é possível se dizer que o fracasso dessa investida estava relacionado a todo um conjunto de conflitos que firmaram a presença jesuítica. A investida final dos inacianos de fixação de um reduto propagador cristão junto aos nativos deu-se em 1691, com o do padre Manuel Pedroso e seu companheiro, padre Ascenso Gago. No dia 15 de agosto de 1700, devido a uma consequência de uma reunião entre grupos indígenas e representantes importantes, foi instituída a Aldeia de Nossa Senhora da Assunção nas Serras da Ibiapaba, que ficou sob o comando dos missionários jesuítas até 1759, quando foram expulsos de todo o mando dos portugueses. Com comando laico

Pássaros e Plantas: Reflexões sobre Relacionamentos

Pássaros e Plantas, artigo de Marcelo Miranda para a revista da Academia Ubajarense de Letras e Artes

Por Marcelo Miranda Os relacionamentos, assim como as interações entre pássaros e plantas, exigem um equilíbrio delicado entre liberdade, escolhas e cuidados. Esses elementos, quando bem administrados, criam um ambiente onde tanto as pessoas quanto as relações podem florescer. A Liberdade dos Pássaros Os pássaros representam a liberdade, com sua capacidade de voar e explorar o mundo. Eles são livres para buscar novos horizontes, mas sempre retornam aos lugares onde encontram segurança e conforto. Cuido do ambiente para que os pássaros, livres, tenham o desejo de voltar. Assim, vejo os relacionamentos como um espaço onde a liberdade deve ser valorizada. Em um relacionamento saudável, cada pessoa deve se sentir livre para ser quem é, sabendo que há um lugar seguro ao qual sempre pode retornar. A liberdade, nesse contexto, não é o oposto do compromisso, mas sim a confiança mútua que permite que ambos os parceiros cresçam e se desenvolvam. Tal como os pássaros que escolhem voltar a um lugar onde se sentem bem, as pessoas em um relacionamento retornam à conexão quando sabem que ela é nutrida pelo respeito e pela confiança. As Escolhas que Nutrem As plantas, com suas raízes profundas, representam as escolhas que fazemos diariamente. Cada decisão de nutrir e cuidar delas resulta em crescimento e florescimento. Regar as plantas, cada uma com sua necessidade diferente de quantidade de água, me lembra que tenho que regar o relacionamento diariamente. Assim como cada planta exige um cuidado único, cada relacionamento também precisa de uma atenção particular. É importante reconhecer que não existe uma fórmula única para todos os relacionamentos; cada um tem suas próprias necessidades e desafios. As escolhas que fazemos para apoiar, entender e cuidar do outro são os nutrientes que mantêm uma relação saudável e forte. O Cuidado Contínuo O cuidado é o que mantém a vida presente, tanto nas plantas quanto nos relacionamentos. Um jardim bem cuidado prospera e se torna um lugar de beleza e refúgio. Da mesma forma, um relacionamento bem cuidado floresce, trazendo alegria e realização para ambos os parceiros. Regar as plantas me lembra que, da mesma forma, precisamos regar nossos relacionamentos com atenção e dedicação. Cada gesto de carinho, cada conversa sincera e cada momento de apoio é uma gota d’água que ajuda a manter a conexão viva e forte. Pássaros e plantas nos ensinam muito sobre o equilíbrio necessário em um relacionamento. A liberdade de ser, as escolhas conscientes e o cuidado contínuo são essenciais para criar um vínculo forte e duradouro. Quando cuidamos do ambiente de nosso relacionamento, assim como cuidamos de um jardim, criamos um espaço onde o amor pode crescer e prosperar, e onde sempre haverá o desejo de voltar, como os pássaros que encontram segurança em um lugar familiar. Tento fazer disso um exercício diário!

São José 314

São José ônibus artigo de Melissa Vasconcelos para a revista da Academia Ubajarense de Letras e Artes

Por Melissa Vasconcelos Meu corpo escreve em Ubajara; minha cabeça se sente em Guaratinguetá, cidade onde meu pai se formou na escola de especialistas da aeronáutica; cidade que marca a publicação de meu primeiro livro, guiado e acolhido por uma editora de Guaratinguetá. Os tempos e as pessoas são cruzamentos que se encontram na linha de previsão, não fugindo daquilo que Deus prepara para cada um. E façamos de conta que escrevo esse texto em traslado, no ônibus São José 314, que guiava os alunos da escola de especialista do Rio a São Paulo. Nesse caso, ligo-me de Ubajara aonde meu texto me levar. Na ciência, há uma área de estudo para cada coisa que alcança a mente humana: para os pensamentos, a psicologia. Para as leis, o direito. Para as palavras, o português. E assim, vários ramos foram criados para cada setor que o humano é capaz de alcançar. Bom, estamos aqui, leitor e escritora, em dias distintos: Eu, no dia 15 de janeiro, na escrita de um novo texto para a revista virtual que até você, leitor, chega… sabe-se lá em qual dia, mês ou ano! Aqui, vemos mais uma criação humana, mais um estudo embasado pela ciência, a tecnologia. Neste dia em que escrevo este texto que chega ao seu alcance, a previsão de tempo para os dias e meses seguintes é de chuva. E adivinha o próximo verso da prosa? A meteorologia, a ciência da atmosfera terrestre, da dinâmica, do estado físico e químico, as interações estudadas em cada partícula para desenhar a preparação ao tempo, faça chuva ou sol. Eu, sem propriedade, posso falar da meteorologia com ignorância, e de meu pai com a certeza de sua sabedoria. Escrever me dá a vantagem de criar máquinas do tempo, eternizar dias que não foram meus e criar ventos imaginários. Era o ano de 1989, quando um mucambense retirava-se de seu torrão e se enveredou, aos dezenove anos de idade, aos solos paulistas. Ali, fez morada em Guaratinguetá por exatos dois anos, dando início ao seu futuro profissional; e, na minha total imparcialidade de filha, acredito ter sido meu pai um dos mais competentes e inteligentes de sua área. Porém, nem o mais inteligente do mundo possui o domínio de todas as áreas ou de seus respectivos conhecimentos. Por que? Porque existem mundos que não conhecemos, acontecimentos que fogem dos fatos, tudo aquilo que escapa da ciência; toda a ciência é ficção humana no pós contrato social, e até o próprio contrato social é posterior a alguma invenção humana. Nossas mentes sempre foram imagéticas – aqui mora a civilização humana em sua completude. Mas… sempre existe o mais, o além, o que não podemos entender. Não conhecemos todas as palavras, não sabemos de todas as leis, não temos domínio sobre as pragas, epidemias e doenças que ainda surgirão, e há fenômenos que o ser humano não se torna capaz de explicar, por não ser o detentor da criação. Somos a partícula da natureza, na falha tentativa de domar um território que, na verdade, não é nosso; uma vida, um inteiro desconhecido cego ao cérebro humano, que refugia e conforte seu coração em Deus para compreender aquilo que somente Ele é dotado das próximas páginas e dos capítulos seguintes, os direitos autorais de tudo que escapa do nosso entendimento está nas mãos do Altíssimo. Por isso, ao prendermos nossos corações às invenções autorais, perdemos a caneta, o papel e as páginas anteriores já escritas. Do cético ao crente, nenhum livro se mantém vivo sem a proteção das origens, sem o curvar-se ao Pai, nenhum castelo interior prossegue seu alicerce sem o pavimento da construção. No livro “Castelo Interior”, Santa Teresa de Jesus nos diz que, como almas resgatadas pelo Sangue de Cristo, devemos reconhecer a própria miséria e ter dó de nós mesmos, e que as almas sem oração são como um corpo paralítico, que, embora tenha pés e mãos, não pode comandá-los. Um corpo que não se comanda, não se conhece. Uma cabeça que pensa sem o coração se perde, e um coração que sente sem o controle da cabeça, morre. Não é possível se conhecer sem deitar-se de onde se veio, sem seguir os passos Daquele que nos trouxe a vida. Acreditar nas próprias ideologias, enganar-se sobre a onipotência humana, criar um mundo onde há o eucentrismo derrubará qualquer um, independentemente de qualquer filosofia de vida, no começo ou no fim, mas não o destruirá. E trago uma boa notícia: as derrubadas são provisórias como as séries de fundamental e os cursos de faculdade pelos quais passamos para domar os primeiros pensamentos científicos. A inteligência confunde derrubar com destruir: aquilo que se derruba em partes é remendado, como os pontos de uma cicatriz. Aquilo que se destrói é recomeçado do zero, do princípio da matéria ou da imaterialidade. Muitas vezes, somos derrubados para que consigamos enxergar, lá embaixo, o que não conseguimos enxergar quando estamos no topo de nossos juízos e juízes: a Fé. Deus não nos destroi, nós derrubamos os nossos edifícios, desde o início, ao construirmos suas bases sem Fé, esquecendo de nossas origens, como um filho que abandona e rejeita seus pais, como uma mãe que abandona sua família por cegueira mental. Então, não caia a chuva em todas as previsões de meu pai, por maior que fosse sua competência, pois nem tudo estava dentro de seu discernimento e controle, bem como não se chove todos os dias em que a previsão de tempo aponta chuva de segunda a sexta em Ubajara, nos tempos de solstício. Entreguemos nossos trabalhos, textos, dias, corações e mentes aos Céus, pois em nenhum ônibus São José serão transmitidas de volta à base de quem se perde na própria arrogância. Sendo castelo, escola de especialistas, academias de letras, tribunais de justiça ou hospitais, baseamos nossas estruturas em Deus, esperamos Nele, pois Dele, que mora no coração de cada um, procedem as fontes da vida. Qualquer São José 314 recai no meio do caminho sem fé; mas aquele

Carta do ubajarense José Maria Fernandes

Carta de José Maria Fernandes a Ubajara

Por José Maria Fernandes, 22 de janeiro de 2025 No momento em que recebo a grande distinção de ser homenageado pelos amigos da Academia Ubajarense de Letras e Artes de Ubajara, gostaria de fazer uma sucinta exposição de todas as escolas que funcionaram em Ubajara, a partir de 1910, ou seja, antes da conquista da autonomia do município, antes distrito de Ibiapina, que ocorreu a 24 de agosto de 1915, até 1960. ​A primeira escola pública da cidade foi construída em 1944, pelo governador-interventor Dr. Menezes Pimentel, e teve o título de Escolas Reunidas de Ubajara, cuja utilidade foi grande, inclusive para apresentações de teatro e cinema. Foi ali onde, o professor Edmundo Macedo encenou a peça “O Ébrio”, interpretada pelos irmãos Zequinha Souza e Maria Helena. ​Antes da modesta Escolas Reunidas, que virou residência, a escola particular mais famosa foi da professora Marocas Perdigão, a quem se deve a preparação de grandes intelectuais da cidade, a começar por Raimundo Magalhães Júnior, que chegou à Academia Brasileira de Letras. Ela preparou com total eficiência quase duas gerações de ubajarenses. ​É preciso fazer justiça a outro professor primário que prestou enormes benefícios à Educação, a uma cidade que apenas começava a se desenvolver. O respeitado e estimado professor Joaquim Furtado, que por mais de 30 anos manteve a sua inesquecível escola rural, iniciada no Sítio do Meio, e que resistiu até 1970, na localidade do Pitanga. Foi ele quem realizou o primeiro desfile cívico com seus alunos nas ruas de Ubajara, com cena de proclamação, Príncipe D. Pedro e tudo. ​Outra figura, “caída do Céu” dos Inhamuns foi o professor Francisco de Assis Feitosa, que foi definitivamente “adotado” pela cidade, sendo que da sua Escola Cesário Costa saíram incontáveis estudantes para escolas civis e militares da capital cearense e outras metrópoles. Foram 15 anos em que ele, com cultura e segurança, transformou alunos em oficiais das Forças Armadas, engenheiros, médicos, advogados e outras carreiras importantes. Outras Escolas foram criadas, antes que que pudéssemos contar com os cursos ginasial e de segundo grau. Em 1953, na tentativa de se criar um Ginásio, equiparado ao D. Pedro II – RJ, uniram-se jornalista Manuel Miranda, Padre Moacir, vigário da Paróquia, jornalista Ubatuba de Miranda, professor Hemetério e Eudes Menezes, criaram o Educandário Frederico Ozanam, que seria a semente do nascedouro do Colégio planejado. Mas, a ideia teve vida curta. Funcionou na Escolas Reunidas. Também Vale registar tentativa do Padre Moacir que, aproveitando a boa estrutura da Sede da Irmandade de São Vicente de Paula, tentou levar m frente uma pequena, mas, bem instalada Escola São Vicente que mesmo contando com a colaboração do professor Hemetério e a professora e artista Alaíde Holanda, não foi adiante, à falta de maior apoio e de recursos. ​Por ter sido testemunhe a partícipe de algumas escolas de Ubajara, decidi oferecer à Academia essa modesta contribuição, cujo objetivo maior e mais importante é o de ajudar a evitar que os esforços dos educadores do passado do passado de Ubajara no campo da Educação sejam atirados no rol do esquecimento. Muito tem sido feito recentemente, o que poderá ser melhor testemunhado por aqueles que vêm acompanhando de perto os notáveis avanços no campo da Educação e da Cultura na nossa terra, modesta, mas, motivo do nosso orgulho. ​Muita gratidão a todos os que lembram o meu nome como ubajarense homenageado, sempre disposto a mostrar todo o amor pela minha Ubajara.

Diário de um velho

Artigo de Manoel Ferreira de Miranda, ubajarense ilustre

Por Manoel Ferreira de Miranda, 02 de Agosto de 1951. Artigo cedido por Marcelo Miranda. Hoje, 02 de agosto de 1951, quando completo 65 anos de idade, dou começo a este diário. Se nada poderia eu dizer do passado, menos ainda terei que dizer daqui por diante, que o tempo e a vida que me resta, sei-o é bastante pouco, e muitos são os afazeres que tenho sobre os ombros. Antes, porém, de dar início a estas páginas anotando as impressões que tiver, e que o farei com toda sinceridade, pois, que aqui falarei de mim para mim mesmo, quero fazer um retrospecto sobre a minha vida pregressa. Nasci em Granja, a 02 de agosto de 1886, em pleno regime monárquico. Fiquei órfão de mãe aos dois anos, não tendo, portanto, a menor lembrança de minha mãe. É esse desgosto íntimo que me acompanha na vida. Meu pai, Antônio Ferreira de Miranda, contraiu segundas núpcias com a Sra. Joana Carneiro de Aguiar, filha do Sr. Raimundo Antunes de Aguiar e de D. Maria Carneiro Aguiar, passando então a residir no lugar de Canto Grande, propriedade do sogro, do município de Granja, distante duas léguas de Almas, abundante praia esta, em peixes. Neste lugar passei a minha primeira infância despreocupado e feliz, quando contava os meus 12 para 13 anos de idade. Lembro-me ainda, com saudades, das caçadas que ali fazia, de machado às costas, acompanhada por uma cachorrinha danada por preás, aliás a minha caça predileta. Eu era exímio caçador de abelhas. Nas minhas diárias excursões venatórias, conduzia sempre uma cabaça de gargalho atada à cintura, colhida do oco das umburanas. Certa vez cheguei a descobrir uma colmeia, da qual tirei a vasilha pela boca, simplesmente observando o rumo que tomavam as operárias, quando os pezinhos cheios de barro, alavam-se das poças dos caminhos. Fui ainda um grande pescador. Quantas e quantas vezes não trazia para o lar, bonitas cambada de peixes fisgados pelo meu anzol mágico! Quando as marés enchiam, naquele rio, cujas as nascentes vinham das Cabeceiras”lá estava eu lépido, à beira d ́água contemplando os graciosos cavalos-marinhos que enfronhados, subiam na corrente. Certa vez escapei de morrer numa dessas minhas pescarias. Debruçado à borda do rio, de linha amarrada a um dos pés, estava, cochila não cochila, quando senti-me fortemente arrastado para o leito do rio que, profundo, de águas revoltas, ameaçava tragar qualquer vivente. Felizmente, a linha partiu-se, quando já me encontrava com água pela cintura. Algum feroz habitante daquelas profundezas engolira meu anzol, com isca e tudo, levando o pedaço de cordão que procurara trinar mais consistente com sumo de folhas verdes de mangue. Conhecia bem o métier da pesca, acompanhando os velhos pescadores, pela noite a dentro, na tapagem das cambôas, no estender das redes quando era hora do preamar. Outra cousa em que era perito era no arrancar dos caranguejos dos buracos em que viviam, à sombra das viridentes florestas aquáticas. Sem temos algum passava querosene no rosto para evitar a picada dos mosquito, e, chapinhando na lama, atolando-se até os joelhos, lá se me botava por aquelas paragens inçadas de quaixinis, introduzindo aqui e ali o braço todo nos burados(sic) dos caranguejos, donde os arrastava, enormes, com as suas tesouras aguçadas, até encher o urú de palha de carnaúba. E os meus andares em busca das frutas silvestres? … No tempo dos cajús, longe de casa, nuns pés só de mim conhecidos, e que eram os que davam frutos mais doces e cheiroso(sic), que delícia! Na época dos muricis, cuidava bem de uns, colhendo-os, a fartar, por aquelas chapadas sem fim. Quando amadureciam as ubias e as maria-pretas, regalava-me bastante com elas. Não parava quase em casa. Minha vida era no mato fazendo fojos, procurando ovos de nambús. Meu pai que nesse tempo tinha negócios com José Firmo da Frota, de Granja, tipo de homem empreendedor e progressista, que, se não me engano, foi o primeiro a montar, naquela cidade, uma fábrica de descascador de algodão e fazer embarque de ossos para a França, comprou-me, certa vez, uma espingardinha passarinheira. Com esta arma abati muita avoante nos bebedouros, e muito periquito quando aos pares se beijavam nas moitas de mofumbo. Nunca me esqueço, porém, e ainda hoje sinto deste remorso, do momento em que imprensada e cruelmente descarreguei aquela arma sobre uma mimosa rolinha fógo pagou, que arrulhava ternamente junto ao filhote, num ninho construído com amor num galho de um marmeleiro, isto e o fato de quase ir matando um dia meu irmão Florentino, quando experimentava brincar o gatilho, fizera com que eu tomar tal aversão à lazánia, que nunca mais dela quis saber. Do Canto Grande onde passei os primeiros dias da adolescência, guardo saudosas lembranças. Não posso esquecer a velinha Maria Carneiro, sogra do meu pai. Tive nela a minha melhor amiga. Vi nela a imagem de uma verdadeira mãe. Era ela que me protegia, que reservava para mim os melhores quitutes. Ainda hoje, e já se vão 65 anos, tenho profunda saudade dessa santa criatura. Minhas correrias pelos amplos e planos salgados todas as tardes espantando os aratús que, céleres, metiam-se nos seus furos pela terra a dentro, são inesquecíveis! Ativo, gozando ótima saúde, respirando aqueles ares puros da floresta, banhado de sol, saturado de iodo pelas emanações de águas marinhas, embrenhava-me nas selvas escuras, armando fojes nas veredas dos preás, e as vezes, mergulhando na água quente dos poços, baldeando-a até embebedar as saúnas que ali haviam ficado na baixa das marés. Muitas vezes estendia-me no chão à sombra de uma árvore qualquer passando horas inteiras a contemplar as nuvens que, no alto, rápidas corriam. Tinha, então, um desejo doido de desvendar o mistério das cousas! Queria saber, conhecer algo. Foi quando se declarou a seca dos 900. A terrível catástrofe estalou, terrível, mas eu só tomei conhecipelo fato de ver a dificuldade com que se adquerida a própria água de beber. Tínhamos que ir busca-lá no lugar chamado Izidoro, distante de Canto Grande uma boa

Academia Ubajarense empossa nova diretoria

posse da nova diretoria da Academia Ubajarense de Letras e Artes

Por Monique Gomes Ubajara. A Academia Ubajarense de Letras e Artes (AULA) realizou, no último dia 22 de janeiro de 2025, a cerimônia de posse da nova diretoria no Auditório José Parente da Costa, na Câmara de Vereadores. O evento reuniu autoridades, acadêmicos e convidados em uma noite marcada por homenagens e reforço do compromisso da instituição com a valorização da cultura local. A AULA, fundada em 16 de dezembro de 2023, tem como missão preservar, incentivar e promover as letras e as artes, honrando os valores culturais e históricos do município. Sua criação representa a concretização de um sonho inicialmente idealizado por Monsenhor Francisco Tarcísio Melo (in memoriam), pioneiro na visão de uma instituição dedicada à cultura. Agradecimento do ex-presidente Francisco Jácome, ex-presidente da AULA, expressou sua gratidão pelo período à frente da instituição e destacou as conquistas alcançadas: “Sou grato por terem me aceitado como presidente e como membro da Academia. Grato por terem me ajudado a dar vida à AULA, por ela existir e estar dando seus pequenos passos. Grato por realizarmos um sonho de muitos que não conseguiram, por termos adquirido um terreno para a construção da nossa sede e criado um site próprio para divulgar nossos feitos.” Presença de autoridades e entrega de comendas A solenidade contou com a presença de diversas autoridades locais, incluindo o prefeito de Ubajara, Adécio Muniz; o vice-prefeito José Roberto; o presidente da Câmara de Vereadores, Emílio Silva; Maiza Araújo, assistente da juíza da comarca; Dr. Maxwel França, promotor de justiça; Frank Castro, representante da arte ubajarense; Jamile Góes, secretária de Cultura; Lione Silva, secretário de Educação; Padre Carlos Alberto; Pastor José William; Dr. Mário de Oliveira, diretor do IFCE; e Ulisses Pereira, representante da Maçonaria. Durante a cerimônia, o novo presidente da AULA, Nicollas Aguiar, realizou a entrega de comendas a personalidades que se destacaram por sua contribuição à cultura e ao desenvolvimento da Academia. Os homenageados foram: José Maria Fernandes – representado por Dr. Pedro Henrique; Dra. Maria Graciema Fernandes Siqueira, Francisco Jácome Sobrinho e Joaquim Aristides Neto. Discurso do novo presidente Em seu discurso de posse, Nicollas Aguiar prestou uma homenagem a Fernando Tadeu, figura importante da história de Ubajara, falecido recentemente. O presidente ressaltou a importância da preservação da memória histórica do município: “Quando um idoso falece, é uma biblioteca que se incendeia, como diz o ditado. Quantos idosos faleceram e quantas bibliotecas já foram incendiadas? Temos que fazer uma busca ativa. Será que os alunos sabem da importância do Pedro Ferreira de Assis ou do Padre Monsenhor Tarcísio? A história de um povo é muito importante.” Além disso, o acadêmico Ronildo destacou o lançamento do site oficial da AULA, um novo canal para divulgar as ações da instituição e manter viva a história de Ubajara. A posse da nova diretoria da Academia reafirma o compromisso do grupo com a cultura local e o fortalecimento das letras e das artes, garantindo que a tradição literária e artística de Ubajara continue a ser preservada e incentivada para as futuras gerações. Membros da nova diretoria Presidente: Nicollas PereiraVice-presidente: Luciano Jácome de Melo;Secretário: Ronildo Nascimento da Silva;Tesoureira: Teresinha Araújo Moura;Diretora de Publicações e Comunicações: Monique GomesConselho Fiscal: Joaquim Aristides Neto, Clara Lêda de Andrade e Werllem Fontenele.

Empresas são homenageadas por 50 anos de atuação

CDL Ibiapaba homenageia ubajarenses

Por Monique Gomes Na noite de 27 de dezembro de 2024, o Hotel Fazenda Engenho Velho, em Ubajara-CE, recebeu os associados da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) da Ibiapaba para uma confraternização. O evento celebrou a trajetória de duas empresas que completaram 50 anos de história e dedicação à região, homenageadas com a Moção de Aplauso, comenda concedida pelo sistema CNDL para reconhecer a relevância de serviços prestados à comunidade. Os agraciados da noite foram a Odonto Viana, representada pelo Dr. Antônio Viana Vasconcelos, e a empresa Irmãos Pereira e Cia Ltda. Durante a cerimônia, depoimentos e históricos das duas instituições emocionaram o público presente, reforçando a importância de suas contribuições para o desenvolvimento local. Dr. Antônio Viana Vasconcelos, natural de Sobral e filho de Moisés Cavalcante Vasconcelos e Francisca Giomar Vasconcelos, formou-se em Odontologia em 1974. Um dos pioneiros da área na Serra da Ibiapaba, construiu uma carreira marcada pelo comprometimento e pela qualidade no atendimento, consolidando um legado de excelência ao longo de cinco décadas. Já a Irmãos Pereira e Cia Ltda foi fundada em 23 de junho de 1973 por Domício Pereira, que iniciou a empresa com uma pequena criação de aves. Com o passar dos anos, a produção cresceu, acompanhando a demanda do mercado. Hoje, a empresa se destaca como a terceira maior do setor avícola no estado do Ceará, empregando cerca de 200 colaboradores diretos e 30 indiretos. Durante o evento, também foram lembrados nomes importantes na trajetória da empresa, como Fernando Sérgio Costa e Sávio Pereira de Sousa. A confraternização contou com a presença de representantes de diversas entidades parceiras, como Banco do Nordeste (BNB), Banco do Brasil (BB), Academia Ubajarense de Letras e Artes e Maçonaria. Durante a solenidade, foi destacado o trabalho da FCDL-CE e da CDL Ibiapaba por meio do programa Jornada da Integração, que visa facilitar o acesso ao crédito para o desenvolvimento das empresas da região. Ao final da noite, os organizadores reforçaram os votos de um ano novo próspero, repleto de saúde e paz para todos os presentes e para a comunidade da Ibiapaba.

A Estrela do Sábio

Artigo de Melissa Vasconcelos para a Academia Ubajarense de Letras e Artes

Por Melissa Vasconcelos O sábio não se vangloria por sua luz, nem se lastima ao se ofuscar, Pois sabes bem que nem tudo que reluz é ouro, E nem tudo que é ofuscado apresenta perda de valor. O sábio nunca se diz feito, Mas sempre se debruça aos dias Para se intensificar, mesmo perante o mal-feito. O sábio cai, mas não desiste. O sábio sabe que não é sábio: Pois a sabedoria plena é a virtude dos ignorantes. Toda estrela, para ser estrela, precisa de energia para brilhar. O sábio que estagna por se considerar sábio há, em sua grandeza, de cair. Contudo, aquele que, em sua pequenez, não se aprumar, Aquele que, em sua fraqueza, não se deixar morrer, Saberá da grandeza da estrela-aprendiz. Todo ignorante é um sábio, e nem todo sábio conhece a estima da ignorância. Mas todo ignorante conhece a estrela da sabedoria. A ignorância é a bússola do nascimento estelar: Para cada estrela, há o dia da junção e o dia do esgotamento. O tempo de vida de uma estrela depende de sua massa, E a extensão dessa massa ocorre com a liberação de luz e de calor. Como toda a luz, temos nossa energia visível. Ah! Expansiva e brilhante luz, que de longe se observa. Dos altos dos morros aos solos do sertão, A luz, quando brilha, nunca mais se faz esquecida. E, por não ser esquecida, nunca mais se faz só. Porém, assim como um filho precisa de sua mãe,A luz necessita de energia para que seja a luz Dos inícios, dos meios e dos fins. A luz é a estrela-guia da sabedoria. A sabedoria é o combustível do conhecimento. O conhecimento é a energia do sábio que desabrocha para brilhar. A estrela do sábio nunca morre: Incendeia em seu atrito com o ar.

A importância da pesquisa histórica

Pesquisa Histórica, artigo de Teresinha Moura para a revista da Academia Ubajarense de Letras e Artes

Por Teresinha Moura A História não é apenas uma disciplina do currículo escolar, não é apenas mais uma “matéria”, a História é a essência da matéria. Não se trata apenas de fatos ou acontecimento que devem ser recontados ou narrados de forma repetitiva. Faz-se necessário uma inovação a cada leitura realizada, os acontecimentos devem ser recontados de vários ângulos para privilegiar a sensações do leitor. De certa forma, podemos dizer que a História está sendo recontada de forma verdadeira, somente agora. Atualmente há uma metodologia nova voltada para uma análise mais complexa de dados históricos, com o intuito de descobrir quais foram os verdadeiros papéis e seus verdadeiros “atores”. A influência da sociedade dominante de cada civilização sempre foi o pilar da escrita histórica, trazendo sempre sua participação como principal e detentora da verdade. Infelizmente alguns fatos foram distorcidos e começaram a ser descobertos e reescritos dando ênfase às mudanças sociais ocorridas em virtude destes. E no Brasil não foi diferente, nossa história foi escrita seguindo os acontecimentos políticos e seguindo como história verdadeira, aquela de outras civilizações. Somente após o período colonial, com a Proclamação da República, os fatos começam a ser narrados um pouco mais dentro de nosso contexto e desde o século XIX, a função do ensino de história era preparar os nobres para exercer o poder e o direcionamento do comportamento social. Dotados de um conhecimento que apenas servia de suporte para a aparência, alguns nobres usavam este conhecimento para pregar ideais de democracia. O ideário da escola nova, na década de 1920, levantou algumas discussões sobre ensinar história criticando a seleção de conteúdos políticos, sua abordagem cronológica, a ênfase no ensino do passado e a relação entre o nacionalismo e militarismo. Todavia, não houve grande colaboração para mudanças, pois, as propostas recaíram “na memorização excessiva, na passividade do aluno na decoração, na periodização política, na abordagem factual, etc.” (NADAI 1993, p.153). As metodologias de organização dos conteúdos no livro didático de história sempre seguiram padrões ditados pela sociedade que vivia em sua respectiva época, refletindo assim, seus ideais e suas preferências. Sendo assim, o ensino tornou-se mecânico e repetitivo. O resultante dessa abordagem reproduzida há décadas nos programas de história foi à construção de algumas abstrações, cujo objetivo tem sido realçar, mais uma vez, um país irreal, mascarando as desigualdades sociais, a dominação oligárquica e a ausência da democracia social. (NADAI, 1993, p.150). A realidade do ensino de História é que esta foi moldada por camadas dominantes da sociedade. E com o apoio de seus governos a História teve seu curso alterado nos livros para favorecer o direcionamento do conhecimento, privilegiando apenas ideias que ressaltavam feitos e acontecimentos referentes a esta sociedade. Ainda é possível fazermos, atualmente um paralelo com o período colonial. Vivemos em um Brasil que ainda tem traços de uma cultura dominante que tenta trazer às camadas mais baixas da sociedade um conhecimento mecanizado tirando a oportunidade de acesso a materiais mais bem elaborados que valorizam a pesquisa e o debate. Atualmente é o que mais tem faltado para melhorar a qualidade do ensino de História; além de metodologias diferenciadas, a questão dos recursos também exerce uma influência muito grande nos resultados que devemos alcançar. Não é suficiente que os alunos assimilem os conteúdos históricos apenas para obter a chance de ir para outro ano de estudo, não é somente decorar trecho mais importantes de nossa História, mas interpretá-la de forma contextualizada para que os conhecimentos permaneçam para toda a vida com esses alunos. Infelizmente sabemos que a maioria de nossos alunos não dispõe e não terão muito em breve a sua disposição, recursos didáticos mais lúdicos. O preço por este acesso é altíssimo para algumas camadas sociais. Há pouco tempo apenas, o homem tomou consciência da importância da pesquisa histórica verdadeira. A humanidade percebeu que somente através da História podemos refletir sobre nossas ações e nos prepararmos para o futuro. Sobre isto, Rudimar, (2007), comenta que o professor de História quando planeja suas aulas aparecem subjacentes ao seu trabalho, teorias da historiografia. Essas teorias podem ser percebidas na ação docente que leva o professor a produzir uma aula de história centrada na narração de fatos, na crítica social ou na reflexão dos conflitos de classes. A partir desse reconhecimento, identificam-se modelos diferenciados que vão do positivismo à tendência da Nova História, que contemporaneamente acaba por combinar vários modelos de interpretação. Mesmo percebendo a discussão polêmica que cerca esse assunto, inclusive a utilização do próprio termo paradigma para o campo das ciências sociais, acreditamos que esses modelos existem, coexistem e influenciam de formas diferenciadas as práticas didático-pedagógicas no ensino de História. O ensino de História requer contextualização para obter resultados favoráveis a assimilação e compreensão dos conteúdos estudados. Para entender o processo de construção da História, o aluno precisa primeiramente entender os motivos da necessidade de estudá-la. Não é apenas uma reprodução dos conteúdos e uma imitação da cultura deixada por outras nações. De acordo com Bittencourt, podemos perceber que o ensino de História, embora seja alvo das preocupações de muitos daqueles envolvidos com sua prática nas escolas, ainda necessita do trabalho de aproximação com a realidade do aluno. É evidente que o professor precisa conhecer os conteúdos que tem por objetivo ensinar. Mas deve haver uma análise do espaço do aluno, para saber que conhecimentos ele detém e como ele entende a disciplina que será trabalhada. Para que os professores possam repassar os conteúdos e ensinar melhor os seus alunos é preciso ter consciência de que a apropriação dos conteúdos pelos alunos é um processo de criação e recriação. Acredita-se que cabe ao professor de História, buscar as alternativas para o trabalho com os alunos de forma que direcione os avanços na construção dos conhecimentos de História. Como cita Bittencourt, (1990): “É necessário, portanto que o ensino de História seja revalorizado e que os professores dessa disciplina conscientizem-se de sua responsabilidade social perante os alunos, preocupando-se em ajudá-los a compreender e melhorar o mundo em que vivem.” Elaborar e executar

A Cegueira Humana

A cegueira humana, artigo de Manoel Miranda

Por Manoel Miranda O texto a seguir foi escrito em 1915 por Manoel Miranda e é apresentado em sua redação original, sem alterações em sua linguagem, estilo ou ortografia. Essa escolha visa preservar as tradições históricas e literárias da obra, refletindo o contexto e a forma de expressão da época. Paira agora sobre a humanidade uma como a maldição que a infelicita e endoidece. Parece que dos vastos páramos de ignoto se desencadeou nestes dias contra o terráqueo orbe um furacão violento e pestífero que o convulsiona e abala até os mais sólidos fundamentos. A sociedade que, segundo o mais espontâneio vate da raça latina, Guerra Junqueiro, parece sofrer de escruphulas, hoje nos paroxismos de uma agonia enorme, commete loucuras e insânias não vistas, emquanto ao de cima, do comoro verdejante da Idéa nova, o philosopho-a sciencia objectivada, estuda-a e analysa-a serenamente, inda que por vezes cruze os braços desalentado; constrangido pela impossibilidade de superar as desgraças tamanhas. Elle vê a humanidade na marcha acelerada para a ruína completa e conhece as causas essenciais das mazellas que afligem, mas infelizmente não acha meios de afastá-la do negro precipício. Sente-a submergir-se pouco a pouco no pavoroso inarnel do nirvana silencioso, e não póde estender-lhe a mão protetora que a impeça de cahir nem dar-lhe o apoio que a restituia ao coruscante sol do progresso e da paz mundial, ao sansara do trabalho que constitue a existência terrena. Evoca então reminiscências pagãs, quando não havia de artificial mais que a tosca pedra mal lavrada como auxiliar do homem rudimentário, mas reinava a harmonia geral e a concórdia não tinha soluções de continuidade naquelas boas e primitivas gentes pharaonicas. Remonta a esses dias obscuros do passado longinquo, quando a annosa arvore da civilização não chegara ainda a cobrir com a sua ramalhuda e farfalhante fronde magestosa as terras todas do Oriente e Ociente, e os homens lhe não buscavam a sombra deliciosamente confortável mas perigosamente intoxicadora. Vê, in mente, o seu desenvolvimento agigantado, acompanha-lhe o desdobramento do caule augusto, o renovamento das suas células vibratis, a coloração de sua folhagem imponentíssima, a opima frutificação de sua floração rescendente e multicor. Vê o cuidado do homem, no evoluir das idades, festejando-a e regando-o com carinhoso afecto, a cada fruto sazonado entoando hymnario apotheótico. E mais tarde doces pomos que abundaram e que eram as admiráveis combinações da dhímica, as invenções assombradoras, a aplicação da eletricidade, o telégrafo, a Imprensa, o phonografo, e mais o cinema e o balão e ainda mais o radio, e os homens a se vangloriarem e se embevecerem no saborear de tão doces maçãs, olvidando a família e olvidando o amor, esquecidos de Deus e do futuro… Porém, o institucionalismo de que se cercaram, necessários à índole impetuosa dos avoengos remotos, prende-os por fim ferreamente nos grilhões dos preconceitos fúteis, e mais os aperta na engranagem complicada que o oleo dos paragraphos lubrifica constante. Neste circulo atróz que os não deixa moverem-se e coareta-lhes toda a liberdade de agir e raciocinar, têm os homens até dificuldades de respirar o por um hausto refrigerante de oxygenio vital degladiam-se e esphacelam-se em pugilatos tremendos, de todos os dias e de todos os instantes, no recesso do lar e na vastidão da praça pública, na aldeia mais pacata e na capital mais populosa. Por um sopro deste ar que é o metal sonante que lhes proporciona ephemeros prazeres e mesquinhas honrarias, viu o pensador dividirem-se os homens em facções distintas e os viu abrirem a luta que não mais terminou. A arena onde se batem os gladiadores como feras na disputa da presa sangrenta, veiu de chamar-se política. De um lado e de outro, as hostes aguerridas e reciprocamente, mortalmente odiadas. A vasta família humana separada em dois partidos inimigos, entre os quais a barreira da diciplina se interpõe, se avoluma imensa, altiva parecendo dizer. Parae. Cada grupo reze com fervor o seu credo e a sua ladainha com muito mais fé do que se reza agora o Pater Noster do meigo Nazareno. A imprensa, que foi o factor máximo do progresso e da instrução dos povos, desvirtuada nos seus fions, prostituída, às vezes, é a trompa altisonante que apregoa as cirtudes e as sudidades de ambas as aglomerações contendoras na razão directa do quadrato dos interesses alimentários e na inversa do mal que se deseja fazer. Do alto da sua turris ebúrnea, onde se isolara com os raros reis adoradores da Arte, o pensador vê tudo isto com o coração contristado e lágrimas nos olhos. Chora por verificar o seu esforço perdido, nancia heroica e philantrophica de apaziguar os homens desvairados. Ante o estadio exauthematico agudo desta phase dolorosa de irritação extrema por que passa o organismo social entumecido da purulência das paixões descomedidas, utilisar-se não pôde o desgraçado asceta do linimento da Idéa. De lá vê elle o desfilar em baixo desse cortejo espetaculoso de tyranos e chefetes imbuídos das mesmas velleidades do mando e invulnerabilidade de Achilles. O tyrano, do seu solio aurilavrado acenando às turbas escravisadas; o chefete, ignorante e fátuo, de sobrecenho terrososo, no seu rossinante escanifrado, com um largo gesto de D. Quixote maluco, conduzindo o eleitorado inconsciente pelas veredas do crime e do deboche, ao toque mágico de varinha de Panurgio. Em sua imaginação exercitada de psycologo, como em chassi de fidelíssima Kodac, gravam-se indelevelmente todas as cenas das miserias humanas, e lá se ficam numa galeria obumbrada que ele contempla a todo instante entrestecido. Mas não desanima o visionário do Bem, o utopista da Paz, o doutrinador secular; a cada esforço perdido em prol da unificação das raças e do extermínio dos falsos, loucos, pueris preconceitos sociaes, mergulha os dedos descarnados nas mellenas grisalhas e aperta a fronte nas mãos murmurando consigo que nem tudo está perdido ainda. Elle sonha com um dia venturoso em que, da amalgama de philosophias que há semeado evanescente, uma só, forte eterna, verdadeira e pura, surgirá a grande doutrina do Porvir bendita. Sonha… E o propagador dessa doutrina