
Por Monique Gomes
O Hotel Fazenda Engenho Velho foi palco de um encontro promovido pela Academia Ubajarense de Letras e Artes no domingo, dia 8 de Março. Dessa vez, com a presença também de grandes personalidades de diversos segmentos da sociedade.
O evento foi organizado por Nicollas Pereira, presidente; Ronildo Nascimento, secretário; Teresinha Moura, tesoureira. Após a declamação de poesias, a programação seguiu com a abordagem de um tema sério que partiu de uma conversa no grupo de WhatsApp da Academia.
O Dia Internacional da Mulher é, essencialmente, uma data política. A alusão ao 8 de Março existe em memória das 146 mulheres que morreram queimadas, sufocadas ou ao pularem do nono andar de uma fábrica que pegou fogo.
As portas estavam trancadas para evitar que as funcionárias saíssem antes do fim do expediente ou fizessem pausas. A partir desse episódio, cresceram as mobilizações por melhores condições de trabalho, segurança nas fábricas e direitos para as trabalhadoras.
É impossível não relacionar o passado com o presente. Por mais que tenhamos conquistado muitos direitos, é difícil conviver com o medo de ser mulher. Todos os dias, mulheres são mortas, abusadas, ou violentadas. Uma pessoa é vítima de estupro a cada 6 minutos. Quatro são mortas diariamente.
Detalhe importante: se você nunca praticou nenhum tipo de violência contra a mulher, que bom. Isso não é sobre você. Se o seu marido é exemplar, maravilha. Isso também não é sobre você. Estamos falando de um sistema machista e misógino que se transformou em máquina de matar meninas e mulheres.
É impossível ser indiferente ao noticiário. Freira é estuprada dentro do convento; menina é violentada por quatro homens, mulher é arrastada no chão até ficar com as pernas amputadas e morrer logo depois; marido mata os filhos e tira a própria vida.
De onde vêm tanto ódio às mulheres? Há uma crise na masculinidade? Questionei os homens. Sei que é desconfortável. Homens também morrem todos os dias – mas há uma enorme diferença aqui. Podemos discordar de muitas coisas, mas assassinato é totalmente diferente de feminicídio.
Diferença entre assassinato e feminicídio
Assassinato é o termo geral para a morte intencional de uma pessoa. Pode acontecer por vários motivos: disputa, vingança, crime organizado, brigas, assaltos, conflitos pessoais ou outras circunstâncias. Nesse caso, a vítima não é morta por causa do gênero, mas por razões variadas que poderiam envolver qualquer pessoa.
Já o Feminicídio é um tipo específico de homicídio em que a mulher é morta por ser mulher. Ou seja, o crime está ligado a fatores como misoginia, controle, sentimento de posse, violência doméstica, ciúme, rejeição ou desprezo pela autonomia feminina. Muitas vezes é praticada por parceiros ou ex-parceiros.
No Brasil, o feminicídio foi reconhecido juridicamente pela Lei do Feminicídio, que alterou o Código Penal Brasileiro para tratar esse crime como uma forma qualificada de homicídio, justamente para destacar que existe uma violência dirigida especificamente contra mulheres por razões de gênero.
Essa distinção não significa que a morte de homens seja menos grave — toda vida perdida é uma tragédia. A diferença é que o conceito de feminicídio busca dar visibilidade a um padrão específico de violência que atinge mulheres justamente por causa de estruturas sociais de poder, desigualdade e desprezo pelo feminino.
Entender essa diferença ajuda a discutir o problema com mais precisão, criar políticas de prevenção e reconhecer quando uma violência não é apenas um crime individual, mas parte de um fenômeno social mais amplo.
Mulher no mercado de trabalho
A entrada no mercado de trabalho aumenta o que economistas chamam de “poder de barganha” da mulher. Com renda própria, ela deixa de depender do agressor para comer ou sustentar os filhos, o que desestabiliza o controle que o agressor tenta exercer.
De acordo com dados da Agência Brasil (2025) e do DataSenado, mulheres que não trabalham têm 3 vezes mais chances de sofrer violência doméstica. Casos de feminicídio costumam estar ligados a contextos onde a mulher apenas disse “não”, tentou se separar ou ganhar autonomia.
Quem é responsável pela criança?
A educação de uma criança é responsabilidade da família e da sociedade, não um fardo exclusivo da mulher. Por que a culpa recai sobre a mãe que trabalha e não sobre o pai que, muitas vezes, é ausente mesmo estando em casa ou não divide as tarefas de educar?
Hoje, o ódio contra as mulheres não nasce na cozinha de casa, mas nas telas. Os jovens são bombardeados por influenciadores que pregam misoginia e a “retomada da dominância masculina”.
Se um adolescente é misógino, geralmente está consumindo conteúdo que valida o machismo como forma de “autoafirmação”. O Estado, a escola e a internet têm papéis fundamentais na formação de valores de uma pessoa.
Educação sexual não é ensinar a praticar sexo
O encontro promovido pela Academia Ubajarense de Letras também abordou violência infantil. A criança vítima de estupro demora anos para descobrir que está sendo abusada. Por outro lado, a maioria dos pais se escandalizam ao ouvir o termo “educação sexual”.
Quando crianças e adolescentes recebem informação adequada à idade, aprendem coisas básicas e fundamentais: que o corpo tem limites, que existem partes íntimas, que ninguém pode tocar nelas sem consentimento, e que qualquer situação estranha deve ser contada a um adulto de confiança.
Esse tipo de educação não incentiva atividade sexual. Pelo contrário: ajuda a prevenir abusos. Falar de educação sexual é, antes de tudo, falar de proteção da infância. É dar às crianças palavras, informação e segurança para reconhecer situações perigosas e pedir ajuda.


