Zé Preto, o dançarino do mercado público

Por Edmundo Macedo (in memoriam)

Quase todos os dias, Zé Preto dava presença nas bodegas (mercearia) do Mercado Municipal de Ubajara. Homem simples, descontraído, olhos ligeiramente castanhos no rosto negro davam-lhe um charme raro. Contava e ouvia histórias valentes em defesa dos oprimidos.

Reclinado nos balcões das bodegas, conversava sobre o inverno, a seca e questionava os preços do café, feijão, milho, farinha, rapadura, gado leiteiro e para corte, plantio e colheita do CAROÁ (planta de fibras têxteis) lá pras bandas do Carrasco.

Entre um trago e outro de cachaça cajueiro do sítio dos Pereira, o assunto de maior atração, era o momento político. José Preto foi um fervoroso e fiel amigo, do Major Pergentino Costa, chefe político de liderança comprovada em toda a serra da Ibiapaba.

Este simpático homem vestia-se à capricho. Porte elegantérrimo, exibia feliz, camisas, calças, paletó e gravatas no mais alto estilo da época. Nos dias frientos, ostentava um capote preto (casaco comprido que fazia parte do uniforme militar), não esquecendo o chapéu-côco sobre os cabelos meio grisalhos.

Quando aparecia à rua 31 de Dezembro, rumo ao comércio local, seu andar firme parecia um príncipe indo ao encontro de uma princesa Muzunga de raça nobre. Gostava de jogar baralho com o seu grande amigo e protetor Major Pergentino Costa, sem dúvida um dos filhos de Ubajara merecedor de uma estátua na Avenida principal da cidade. Seu amor a Ubajara faz parte da história.

O carismático Zé Preto teve como vício e feitiço maior, a dança. Bailava todos os ritmos numa sintonia de passos e movimentos. Não perdia um SAMBA (nome dado às festas nos sítios àquela época).

Em salões enfeitada com papel crepom, bandeirolas e laços de fita, a festa não tinha hora certa para terminar. As latadas e terreiros de chão com barro batido ficavam apinhados de dançarinos. Das 8 da noite até madrugada Gonçalo Galvão, o “sanfoneiro” mandava som no baião, samba, forró, chote que rolavam soltos pelas quebradas da serra. G. Galvão e seus dois companheiros (um no pandeiro e outro no ganzã) não dispensavam a quente e saborosa Cajueiro. Haja fôlego para acompanhar os dedos ágeis e precisos nos botões niquelados da sanfona alaranjada do G. Galvão.

Cadê o tira-gosto? – gritavam panderista e ganzarista. De repente, surge o maior festeiso e dançarino daquelas paróquias, Zé Preto, todo sorridente, felicidade nos olhos, trazendo nas mãos uma bacia de ágata tamanho médio. Dentro dela, pedacinhos de avoantes chumbadas na véspera, bem torradinhas misturadas na farinha da Serra Grande. Peça um chote, Zé Preto! – pedia Carolina do Pitanga.

Num abrir e fechar dos olhos, o chote com G Galvão. Ninguém ficou sentado e nem de pé, todos no salão. A poeria subia rápida com cheiro de terra molhada. Os casais discretamente abraçados no vai-e-vem do chote, exclamavam à meia-voz: “É hoje, Manoel! É hoje, Antônia! Tá bom demais”. Ao término da quintura do chote, uma pausa.

Palmas e vivas, formas de agradecer daquela gente humilde e bonita, espalhada na região de clima mais saudável do nosso Ceará.

Convivi com este homem honrado e estimado. Em certa ocasião, falou-me: Deixe que eu leia sua mão direita, meu jovem! Ao esticá-la na posição certa, vi que estava amarelada. Rápido pensei e concluí: foi a manga doce que comera na bodega da minha Tia Lúcia. De imediato, apresentei-lhe de novo as linhas da minha mão.

Zé Preto, bem calmo, revelou: Meu jovem Edmundo, irás viver um bocado. Nunca lute contra os indefesos; a luta será desigual. Fiquei em silêncio, baixei a cabeça, olhei o chão verde e senti emoção de viver mais um pouco. Os anos caminharam rápido, Um dia em São Paulo, soube que o romântico e simpático Zé Preto havia nos deixado apra sempre. Tenho absoluta certeza que ele está junto aos magos-advinhos em céu todo especial.

Zé Preto! Antes que termine este “recordar”, escute este recado: “As dançarinas Pitanguenses, Pavunenses, Olindenses, Gameleirenses, Amazonenses e Itaperacimenses nascidas no município de Ubajara enviam-lhe de coração, eternas saudades. Até hoje sentem falta dos teus passos mágicos e estonteantes ao bailar o samba, o baião, o forró, a valsa e nosso puríssimo chote.

Zé Preto! Estou pertinho dos 70 e uns anos. Vivi um bocado; quero mais, adoro a vida. Tuas luzes.

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Francisco Mendes da Rocha, filho de Raimundo Mendes da Rocha e Maria Iria da Conceição, nasceu em 25/05/1925 no Sítio Amazonas, em Ubajara. Ainda criança, foi se criar no Sítio Murici — também conhecido popularmente como "Top" —, onde viveu boa parte de sua infância ao lado da família. Desde muito novo dedicou-se ao trabalho rural, ajudando o pai até os 24 anos de idade e contribuindo também para a criação dos irmãos.Naquele sítio, Francisco foi companheiro do pai nas obrigações da casa e da lavoura. Assumiu, desde menino, responsabilidades próprias de um adulto — um garoto de zona rural que já carregava nos ombros o cuidado com os irmãos mais novos. Esse compromisso precoce chamava a atenção de todos ao seu redor e revelava, ainda na infância, o homem dedicado que ele seria: o mesmo zelo que dedicou aos irmãos, mais tarde dedicaria também à formação e à educação dos próprios filhos. Casou-se com Alfríza Tomaz de Oliveira, com quem constituiu uma família de 11 filhos: José Tomás da Rocha, Raimundo Tomaz da Rocha, Cosme Jucelino Tomaz da Rocha, Damião Jucelio Tomás da Rocha, Margarida Tomaz da Rocha, Mairla Mendes Tomaz, Manuel Mendes Tomaz, Ricardo Tomaz da Rocha, Marleide Tomas da Rocha, Humberto Tomaz da Rocha e Alexandre Tomaz da Rocha. Após o casamento, foi morar no Sítio Boa Vista, propriedade que era sua, onde constituiu e criou sua família. Foi um homem dedicado à criação dos filhos e ao trabalho árduo na agricultura, transmitindo a eles o mesmo empenho que marcou sua própria trajetória. Tornou-se precursor de inovações no cultivo da cana-de-açúcar, preservando e aprimorando a variedade conhecida como cana-roxa, muito apreciada pelos agricultores da época, pois a cana tradicional não apresentava o mesmo rendimento e teor de açúcar que a roxa. Tinha também grande habilidade no trato com os animais: amansava bois para puxar o engenho e transportar a cana, mantendo sempre viva a atividade canavieira de sua propriedade. Em sua casa de engenho eram produzidos diversos derivados da cana-de-açúcar — rapadura, batida e cachaça. Produzia ainda o famoso tijolo de mamão, comercializado por muito tempo nas feiras locais, e experimentou também o tijolo de jaca, aproveitando a fartura da fruta na serra. A propriedade contava ainda com uma casa de farinha, equipada com os instrumentos necessários à produção da época. Fazia de tudo um pouco na agricultura. Foi um dos primeiros da região a plantar tomate, além de se destacar no cultivo de mamão e outras frutas. Na pecuária, criava vacas leiteiras, garantindo o sustento da família e contribuindo para o abastecimento da comunidade. Francisco Mendes da Rocha — o Chico Mendes — representou todo aquele povo trabalhador e agricultor ubajarense que, geração após geração, encontrou nesta terra fértil seu sustento e sua alegria. Sua história foi a de todo trabalhador que enfrentava a lavoura cedo, inovava quando faltava o caminho pronto e se dedicava, acima de tudo, a dar aos filhos a chance de oportunidades. Tinha como meta de vida a dedicação à cultura da cana-de-açúcar, à qual se manteve fiel até o fim de seus dias, numa época em que a atividade canavieira, aos poucos, foi se afastando da região, dando lugar à migração para outras culturas. Ao inaugurarmos este Engenho, homenageamos não só sua memória, mas essa abnegação e esse amor pela cana-de-açúcar — e, com eles, todo o povo de Ubajara que, com o mesmo suor e a mesma fé, lutaram para criar seus filhos e manter viva a força desta cultura canavieira. Depois de uma vida inteira dedicada à terra, ao trabalho e à família, Francisco Mendes da Rocha partiu para a morada do Pai em 01/04/2002, deixando atrás de si um legado de esforço, inovação e amor que permanece vivo em cada filho, em cada neto e em toda esta serra que ele tanto cultivou. Autores: Mairla Mendes e Alexandre Tomaz Organização da Biografia: Rosemberg Tomás

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