Resenha crítico-pessoal de Saneamento Básico, o filme

Por Lorena Góis

Saneamento Básico, O filme é um dos filmes brasileiros, que sempre apareciam como sugestão em minha página inicial do Youtube. Para minha surpresa, ele realmente estava completo na plataforma. Quem nem sempre teve assinaturas nas plataformas digitais, sabe que é difícil assistir de fato o filme que procura no Youtube, eu mesma só consegui assistir o que queria quando assinei um streamer.

filme brasileiro

Indo direto ao ponto, o filme. Tentei assistir uma vez antes dessa, mas me estranhei com o enredo, estranhei porque o elenco era de peso, mas a história era boba demais (só mais tarde fui entender que isso era proposital). Fernanda Torres e Wagner Moura, quem está lendo isso em 2026 sabe bem o que esses dois representam para o cinema brasileiro, no filme eles são Marina e Joaquim, um casal que foi até a prefeitura de Linha Cristal, uma cidade fictícia que pertenceria ao Estado de Rio Grande do Sul,  pedir a construção de um tratamento de esgoto em sua comunidade, uma fossa. Infelizmente, tiveram o pedido recusado, pois não havia verba para obras, mas havia uma oferta de investimento na produção de um filme de ficção para a prefeitura, vinda do governo federal, e caso um filme, estilo curta-metragem, fosse aprovado nesse concurso, a prefeitura ganharia o dinheiro, e talvez, investiria  na obra da fossa. Esse era o conflito, por isso o chamei de bobo. 

Ainda sobre a história, o casal, Marina e Joaquim,  resolveram entrar em um acordo de produzir um filme que falasse sobre a própria obra de tratamento de esgoto, para que o recurso de 10 mil reais fosse adquirido. Nesse ponto, foi até onde assisti a primeira vez, me questionei sobre o interesse na trama, mas fiquei curiosa para entender como funcionaria essas questões burocráticas de verbas públicas para fazer filmes. 

Outro dia, após Wagner Moura ser premiado com um Oscar e com o cinema brasileiro em evidência, decidi então que o filme não tinha como ser ruim, posicionei o celular e fui assistir. As cenas que seguiam traziam como coadjuvantes Camila Pitanga e Renato Garcia, interpretando Silene, irmã de Marina, e Fabrício, namorado de Silene. Por essa hora, já me convenci de que algo muito bom estava acontecendo em termos de produção cinematográfica. O filme saneamento básico, começava mostrar seu caráter metalinguístico, e sua qualidade em um filme que fala sobre filme. 

  Partindo de minha estranheza, causada pela grosseira e irreverente forma como o filme era construído, fui ligeiramente me interessando pelo teor cômico da situação, que em brasileiro se descreve como,  “o puro suco do Brasil”. No filme, o roteiro foi elaborado, e partia-se da história de uma moça que morava nas proximidades de um fosso, o acúmulo de sujidades transformou-se em um monstro, o vilão, que desperta e assassina Silene Seagal. O que acontece com a produção audiovisual é no mínimo caótica, não há planejamento refinado, somente um roteiro mal feito, com muitas ideias sem pensar em como serão aplicadas, uma câmera que tinha poucas fitas e não passaria por uma edição, só gravação sem cortes, e um elenco que não sabia atuar, feito completamente no improviso, o que resulta na entrega de  um vídeo que fale de meio ambiente e tenha 10 minutos, apenas. 

Na trama, Zico, interpretado por Lázaro Ramos, salva o projeto, o personagem acaba sendo o diretor e editor, depois de ser contratado por Marina, que percebeu que sem cortes o vídeo estava ruim e contratou um editor. Zico melhora o roteiro e direciona os personagens em como fazer as cenas, capturar os ângulos e atuarem com mais emoção. Ele também é o responsável pela ideia que, para ele, faria a produção ganhar o prêmio, a cena final, uma completa causalidade, pois uma das fitas foi entregue para a edição com imagens de Silene às margens de um rio, rodeada de muitas árvores, posando para a câmera de biquíni. Tal fato se deu, pelo dono das fitas e da câmera, Fabricio,  ser namorado de Silene que vez outra gostavam de fazer capturas mais íntimas, já que eram um casal. As cenas foram entregues a Zico, por descuido, e se tornou o encerramento perfeito da história. 

O editor decidiu que uma bela música e muitos efeitos de corte, mostrariam a beleza da natureza e por isso dariam uma ótima finalização ao filme que concorria a uma categoria de meio ambiente. A ideia, que seria controversa, foi aprovada pelos agentes do projeto e fez parte do produto que seria exibido a toda a cidade, mesmo sendo arriscada. 

O curta-metragem intitulado O monstro da fossa,, acabou agradando a todos da cidade, incluindo os patrocinadores e o prefeito. No final, o filme ganha o prêmio e faz da cidade de Linha Cristal um ponto turístico, onde pessoas de todos lugares visitam a belíssima cidade onde “O monstro do fosso” foi produzido, inclusive visitam o fosso, que nunca foi consertado.

Saneamento básico, O filme de 2007, é dirigido e roteirizado por Jorge Furtado, e também conta com a atuação de outros grandes nomes do cinema brasileiro, como Paulo José, Tonico Pereira, Lúcio Mauro e Raphaella Sirena. 

De fato, uma comédia brasileira, que não surpreendentemente, fala sobre o que é fazer arte, e como é falar de questões reais usando a ficção, como é falar de cinema e de Brasil com uma linguagem cômica, desprendida da realidade, mas ainda tão fiel a ela. O investimento na cultura, a complexidade de gravar e produzir um filme, a banalização de problemáticas como a falta de saneamento básico e a indisposição Pública em intervir, o poder público que não tem interesse em investir no básico, mas o que lhe é de interesse, a habilidade brasileira de rir do que dói, a Arte como mostra a fuga do problema. Que experiência! Dessas singulares, que somente sendo uma espectadora brasileira, assistindo a um filme brasileiro, me traria.  

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