Encontro Marcado

Melissa Vasconcelos tece comentários acerca do filme Encontro Marcado

Por Melissa Vasconcelos “Encontro Marcado” é um filme de 1998 que narra a história de como a morte se apaixonou pela vida. Similarmente às paixões humanas, a paixão que a morte sentiu pela vida começou pela vontade de conhecer. Então, com seu poder espiritual de levar as pessoas ao outro plano em sua devida hora, a morte tomou-se do corpo de um jovem adulto que morreu após conhecer o amor da sua vida, e resolveu experimentar a sensação de estar viva. Logicamente, o interesse da morte não era só por experimentar a vida, mas de continuar seu trabalho de subtrair outras vidas, cada uma em sua hora exata. Uma das vidas que chegas a sua hora de partida era o pai da mulher pelo qual a morte, no corpo do homem apaixonado, também se apaixonaria. Nesse sentido, o filme se envereda por caminhos tragicômicos, onde, ao mesmo tempo que a morte, pouco a pouco, se apaixona, em corpo de homem, por uma mulher, e desfruta dos prazeres do corpo, sejam sexuais ou os que despertam os sentidos, a exemplo do paladar, que é acendido na cena em que a morte experimenta, pela primeira vez, o gosto da pasta de amendoim estadunidense, também está no plano terrestre para cumprir a continuidade de seu trabalho: bater o último ponto da vida. Durante o filme, que tem duração de três deliciosas horas, a morte quase desiste de ser morte e se rende ao prazer da vida. A morte aprende a amar. A morte aprende sobre o cinismo de esconder as obscuridades do globo social, o que podemos ver nos instantes em que a morte oculta a verdadeira identidade de sua amada. A morte aprende a satisfação de experimentar dos cinco sentidos humanos. A morte aprende a ter compaixão, em suas visitas ao hospital para visitar a vida da médica que lhe encantou e ao enxergar o leito de vida de suas próximas vítimas. A propósito, uma das vítimas da morte a reconhece no primeiro instante, por sua ligação com religiões de matrizes africanas. “Egum, é você?” Questiona a paciente enferma ao ver a morte em corpo de homem, caído aos encantos da médica, mas ainda sendo quem ele é, a morte. E quando digo que a morte quase desiste de ser a morte, é porque, além da paixão, aprendeu a amar. Inclusive, amou o senhor a qual veio destinada a finalizar a jornada de vida terrestre, o pai da médica. Senhor esse que o ensinou muitas lições sobre a vida e sobre o que há de mais importante, sobre o principal sentido que motiva os dias, que é o amor, o amar e ser amado. O quase falecido viveu dias e dias com a morte debaixo de seu teto, por pouco, destruindo seu status profissional de empresário e presidente da empresa, sendo, a princípio, sarcástico e frívolo para com a vida do idoso, e, como se não bastasse agir como sangue-suga de toda a sua vida, estava “sarrando a sua filha”. O destino é irônico! Todo o cenário se revirou contra a morte, que de sarrando a filha do espírito que iria levar, evoluiu para amando a filha, amando o pai que iria matar, mando os sabores e libidos do corpo humano. Ao fim, a morte já não queria mais matar o pai da mulher por quem se apaixonou, arrependeu-se de ter levado a vida do homem a quem pertencia o corpo que se apossou, e, para alimentar seu espírito padronizado de egoísmo, pelo amor que sentia pela médica, convenceu-se de que o melhor a se fazer seria matá-la e transformá-la em espírito que pudesse viver a infinitude ao seu lado. Tolice! A médica tinha pai, por quem era muito amada. E esse pai não deixou que a morte assim o fizesse. O pai reconheceu que a morte, em sua oportunidade de vida, havia se tornado um bom homem, mas que estava confundindo os limites entre a paixão e o amor: a paixão sufoca, prende, e por essa razão, é fugaz e perde o jogo. O amor vem depois, mais amadurecido. Não prende, não sufoca e deixa ir, na certeza de que nada se tem, além do amor. Sentimentos e pessoas não são compráveis, não são coisas que se pode portar e levar no bolso. Assim, o pai da morte a fez refletir sobre o amor. E a morte, percebendo o quão boa era a vida e o tanto de tempo que sua amada ainda teria para ser feliz, abriu mão de amá-la sem vida, e devolveu a vida do rapaz que tinha subtraído ao outro plano precocemente. Um gesto de amor! Devolver a vida do amor da sua vida – apesar de não ter aberto mão de não levar o outro grande amor da vida da médica, que seria seu pai. Só que o pai da médica, diferentemente do seu companheiro, já tinha um encontro marcado com a morte, como todos nós temos os nossos e não sabemos quando será. Enquanto não soubermos o dia, e nem tivermos a visita da morte anunciando o nosso fim terreno, que cuidemos de construir, amar e não perdermos tempo. Até a morte quis sentir o gosto da vida. Não percamos tempo. Não percamos o tempo de amar. Não deixemos que o amor nos escape. Cuidemos das nossas.

Acadêmicas vão ao cinema para ver filme brasileiro

Acadêmicas vão ao cinema ver filme brasileiro

Por Monique Gomes As acadêmicas Teresinha Moura, Melissa Vasconcelos e Monique Gomes se reuniram no Cine Ibiapaba na noite de 26 de março para testemunhar mais um filme brasileiro de sucesso: Vitória, cuja protagonista é ninguém mais, ninguém menos, que Fernanda Montenegro. Com direção de Andrucha Waddington, Vitória conta a história de Dona Nina, personagem inspirada em Joana da Paz. Aos 95 anos, Fernanda Montenegro entrega uma atuação emocionante, dando vida à idosa que desafiou o crime organizado no Rio de Janeiro. O roteiro, assinado por Paula Fiúza, é baseado no livro Dona Vitória da Paz, de Fábio Gusmão, o mesmo jornalista que ajudou a tornar a história de Joana conhecida. O longa foi produzido pela Conspiração e teve suas filmagens iniciadas em 2022. O impacto da história de Joana foi tão grande que, em agosto de 2024, ela recebeu postumamente o Prêmio Construtor da Paz da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), um reconhecimento merecido por sua coragem e contribuição à sociedade. Quem é Joana da Paz, cujo pseudônimo é Vitória? Imagine uma senhora de 80 anos que mora sozinha em um apartamento no Rio de Janeiro, convivendo diariamente com a violência e o crime organizado acontecendo bem ali, diante de seus olhos. Mas, em vez de apenas observar e sentir medo, ela decide agir. Esse é o ponto de partida da história de Joana Zeferino da Paz, a mulher que inspirou o filme. Dona Joana morava na Ladeira dos Tabajaras, em Copacabana, e, inconformada com o aumento da violência em sua comunidade, começou a registrar tudo com uma câmera caseira. Traficantes, policiais corruptos, trocas de tiros… tudo foi documentado por ela. Mas, ao levar as provas para a polícia, sua história foi inicialmente ignorada. Isso mudou quando o policial Aurílio Nascimento percebeu a importância do material e a conectou ao jornalista Fábio Gusmão, que levou a história ao grande público. Com suas gravações, Joana ajudou a desmascarar uma quadrilha de traficantes e policiais corruptos, resultando na prisão de cerca de 30 pessoas. Mas seu ato de coragem teve um preço: ela precisou entrar no Programa de Proteção à Testemunha e mudar de identidade, passando a ser chamada de “Vitória”. Durante anos, o verdadeiro nome de dona Joana permaneceu em segredo, sendo revelado apenas em 2023, após seu falecimento. Sua luta foi reconhecida nacional e internacionalmente, tornando-a um símbolo de resistência e coragem cidadã. Vitória é um filme que vai além do entretenimento; é um tributo a uma mulher que, com uma simples câmera, enfrentou um sistema corrupto e fez história.

Academia Ubajarense planeja calendário de eventos

Academia Ubajarense planeja calendário de eventos

Por Monique Gomes No dia 15 de março de 2025, às 14 horas, membros da Academia Ubajarense de Letras e Artes reuniram-se no Hotel Fazenda Engenho Velho, em Ubajara, para discutir os rumos da instituição e celebrar conquistas recentes. Durante o encontro, os acadêmicos comemoraram o lançamento do livro Gruta do Ceará, um conto indígena assinado pelo acadêmico Henrique Moreira. A obra reforça o compromisso com a valorização da cultura e da literatura. Logo após, Ronildo Nascimento, secretário da Academia, procedeu com a leitura da última ata, permitindo que todos os presentes ficassem a par dos acontecimentos e decisões anteriores. Em seguida, a tesoureira Teresinha Moura apresentou uma proposta para o ajuste financeiro da Academia, que foi aprovada por unanimidade. Outro ponto de destaque foi a intervenção de Joaquim Aristides, doador do terreno onde será construída a sede da Academia. Ele ressaltou a importância de demarcar formalmente o imóvel, uma medida que, segundo ele, contribuirá para a consolidação e valorização do espaço destinado às atividades culturais. Além dessas pautas, o presidente da Academia, Nicolas Aguiar, apresentou o calendário de eventos para os próximos meses, reajustado conforme as demandas dos membros. Entre as iniciativas, estão: Por fim, o grupo também abordou estratégias para a aquisição de novos membros e o planejamento da nova cerimônia de posse, que acontecerá em agosto – mês de aniversário da cidade. Com esse movimento, a Academia incentiva a participação de novos talentos e o fortalecimento da cena cultural regional.

21 anos em um dia

Artigo de Melissa Vasconcelos para a revista da Academia Ubajarense de Letras e Artes

Por Melissa Vasconcelos Na noite do dia 02 de março de 2025, a população brasileira abre o champanhe para receber o reconhecimento de milhares de degraus sobrepostos à construção da cultura brasileira. “Tem maçã, laranja e figo, banana, quem não comeu? Manga não, manga é o perigo, quem provou quase morreu”. Ora, Juca Chaves! Não haveria trilha sonora mais oportuna para discorrer acerca da premiação do Oscar da noite do domingo passado. Para assistir à premiação, preparei a receita do suflê de queijo do livro de receitas da Eunice Paiva, em meio ao clima chuvoso da serra e aos ânimos carnavalescos de Ubajara à flor da pele. Se bem que, na minha cútis, o espírito de bloco e avanços do carnaval não pulsou muito bem esse ano. Porém, para o dia do Oscar, fazendo sol ou chuva, estando eu doce ou agridoce, deleitei-me a me concentrar em meu bom humor, pois não é sempre que se vê uma múltipla premiação – Cinema, História, Literatura, Direito – em uma só estatueta para a Arte Brasileira. A receita do suflê de queijo foi retirada do próprio livro “Ainda Estou Aqui” , que originou o filme de igual nome. Logo pronto, servi-me com o suflê quentinho, para que não murchasse. A preparação do suflê foi um afago ao meu peito, como o restante do meu dia 02 de março assim esteve em suas horas anteriores – pela manhã, recebi uma bolsa que minha madrinha de batismo comprou de presente para meus trabalhos e estudos, e ganhei uma linda blusa verde de crochê de minha madrinha de crisma. Os presentes, sejam de coisas ou de pessoas, precisam ser postos à mesa ao saírem de seus fornos, tal qual ao suflê de queijo, para que não murche. Todo amor, se não servido quente, murcha. O amor é como um suflê de queijo, fogoso e saudoso, bem servido para um dia de chuva. A você que lê, quando ganhares um suflê de queijo, não se demore a degustá-lo, para que não perca a chance de sentir a maciez de uma deglutição sem atrasos, de um paladar sem jogos. Não oportunamente, a celebração do Oscar caiu no domingo de carnaval, o período do ano mais comemorado pelos brasileiros em suas diferentes facetas e formas de articulação. Dessa vez, estendeu-se às vantagens para festejar a Cultura Brasileira, a Literatura Brasileira, a formação política, a História, os Direitos do nosso torrão: Marcelo Rubens Paiva, filho da advogada de Direitos Humanos Eunice Paiva e do deputado federal Rubens Paiva, escreveu geniosamente a obra “Ainda Estou Aqui”, celebrada pelo prêmio Jabuti de Literatura em 2016, na âncora do mundo das Letras, e, agora, quase dez anos depois, adaptado para abrir luz aos olhos e música aos ouvidos – atentos e desatentos – da população brasileira e internacional, em sua adaptação cinematográfica dirigida por Walter Salles de mesmo nome “Ainda Estou Aqui”, com sua resplandecente premiação no Oscar. Entre os anos de 1964 a 1985, parava a sociedade brasileira e se amortecem os juízos e os letrados para o abate dos corpos, o derrame de sangue, as bocas silenciadas, as famílias destruídas e as vidas subtraídas em favor de um regime sanguessuga. Não se abatiam somente as vidas dos deputados federais, defensores, escritores, médicos, músicos: retiravam-se as vidas dos filhos, dos pais, dos irmãos, do alicerce de famílias inteiras. Quando Marcelo Rubens Paiva perdeu seu pai para a repressão ditatorial, tinha apenas 11 anos ao ver, em 1971, a vida de seu pai sendo reduzida como se subtrai de um número de uma conta de matemática, sem retorno de notícias, sem documentações; ao ver sua mãe em luta, tomando as rédeas de uma família de cinco filhos, perdendo o seu grande amor e companheiro em meio a enxurrada de sangue jorrado nos asfaltos da sociedade brasileira, à época. Com certeza, a raiz da veia literária de Marcelo Rubens Paiva nasce da sensibilidade em meio a brutalidade – a manifestação artística de Marcelo por meio da escrita assemelha-se à floração do Mandacaru, sobrevivendo às secas em virtude da capacidade de reter água. As palavras de Rubens Paiva nasceram de socos no estômago, como se resgata da literatura lispectoriana, e de tantos socos e ferros ornamentados ao percorrer da estrada, transborda-se a retenção de palavras em arte resistente, em livro. A sensibilidade provém das rudezas, e a brutalidade provém da ausência de sensibilidade. Por isso, toda a arte costuma desaguar das faltas, e toda a seca costuma advir dos excessos. A quem mais falta, mais nascem mais frutos, ainda que estes demorem a frutificar. Admiramos hoje punho de um escritor que denuncia, por meio de sua brutal sensibilidade e de sua sensibilidade brutal, o rasgo de inúmeras famílias destruídas, o grito sufocado de sua mãe, a dor de cinco filhos em desespero e desamparo. Celebramos a força do cinema e da autenticidade brasileira, e mais do que nunca, lembramos da nossa história como primeiro suplente do juízo. O Oscar de melhor filme internacional para “Ainda Estou Aqui” é de Marcelo Rubens, de Eunice Paiva, de Walter Salles, de Fernanda Montenegro, de Fernanda Torres, de Selton Mello, é Nosso; sobre as nossas lutas, os nossos Direitos, as nossas conquistas, a nossa história, o nosso jeito de escrever, o nosso jeito de atuar, a nossa cultura plural: é para nos lembrar que ainda estamos aqui – não aos prantos, mas sorrindo, como símbolo de força, embate e resistência. Fomos para a bancada de jurados do Oscar o que um suflê de queijo quentinho é para os cinco sentidos dos corpos e um amor sem jogos é para o coração.

Precisamos de mais padeiros espirituais

Padaria Espiritual, artigo de Monique Gomes para a revista da Academia Ubajarense de Letras e Artes

Por Monique Gomes No fim do século XIX, o mundo estava passando por grandes transformações. Van Gogh pintava “A Noite Estrelada”, o cinema no Brasil dava os primeiros passos e vivíamos os impactos da recente proclamação da República. Enquanto isso, um grupo de jovens inquietos de Fortaleza, Ceará, decidiu fazer sua própria revolução, só que no campo das artes e da literatura. Assim nasceu a Padaria Espiritual, uma agremiação cultural que marcou a história do Ceará e do Brasil. Tudo começou em 1892, no Caffé Java, localizado na histórica Praça do Ferreira. Ali, escritores, desenhistas, pintores e músicos se reuniam para trocar ideias, compartilhar críticas e, acima de tudo, fomentar o gosto pela literatura. Era um tempo em que a capital cearense vivia um certo marasmo cultural, e os jovens membros da Padaria queriam agitar essa realidade com ideias inovadoras. Entre os fundadores estavam nomes como Antônio Sales, que teve papel fundamental na estruturação do grupo. A proposta da Padaria Espiritual era, antes de tudo, bem-humorada. Os membros adotaram uma identidade inspirada no universo das padarias: o presidente era o “Padeiro-mor”, os secretários eram os “forneiros” e os sócios eram “amassadores”. As reuniões eram chamadas de “fornadas”, e a sede do grupo ficou conhecida como “forno”. Mas, por trás dessa leveza, havia um forte compromisso com a arte e a literatura. O que os padeiros faziam além de “pão”? Os membros da Padaria Espiritual tinham uma postura provocativa e irreverente. Eles criticavam tanto a burguesia, que vivia alheia às artes, quanto os intelectuais que viam o progresso apenas como industrialização e modernização econômica. Para os padeiros, o avanço de uma sociedade passava também pelo florescimento da cultura. No começo, os encontros eram marcados por debates regados a bebida, fumo e muita conversa engraçada. Mas, com o tempo, a agremiação tomou um rumo mais sério, passando a produzir conteúdo literário e a incentivar a publicação de livros. O movimento também se tornou um espaço de experimentação artística, onde os participantes podiam exercitar a criatividade sem as amarras das convenções tradicionais. Isso fez da Padaria Espiritual um marco na história cultural do Ceará, influenciando gerações futuras de escritores e artistas. “O Pão”: a voz da Padaria Espiritual Para levar as ideias ao público, os padeiros criaram um jornal chamado “O Pão”. Com esse nome sugestivo, o impresso buscava “alimentar” o povo com literatura e arte. O periódico era publicado aos domingos e se tornou um sucesso em Fortaleza. O jornal trazia seções diversas e publicava poesias, contos e crônicas. Ao todo, foram lançadas 36 edições, que circularam até mesmo em outras partes do Brasil e em Portugal. Cada membro da Padaria tinha a responsabilidade de enviar exemplares para diferentes capitais brasileiras. O legado da Padaria Espiritual Embora tenha durado apenas alguns anos, a Padaria Espiritual deixou uma marca indiscutível na história cultural do Ceará. Seu modelo de associação literária inspirou outros grupos e influenciou o modo como a literatura e as artes passaram a ser vistas na região. Hoje, a história da Padaria Espiritual segue viva, com sua memória preservada em arquivos históricos e pesquisas acadêmicas. Seu espírito irreverente e sua paixão pela arte continuam a inspirar novos escritores e artistas cearenses.

Zé Preto, o dançarino do mercado público

Zé Preto, artigo de Edmundo Macedo

Por Edmundo Macedo (in memoriam) Quase todos os dias, Zé Preto dava presença nas bodegas (mercearia) do Mercado Municipal de Ubajara. Homem simples, descontraído, olhos ligeiramente castanhos no rosto negro davam-lhe um charme raro. Contava e ouvia histórias valentes em defesa dos oprimidos. Reclinado nos balcões das bodegas, conversava sobre o inverno, a seca e questionava os preços do café, feijão, milho, farinha, rapadura, gado leiteiro e para corte, plantio e colheita do CAROÁ (planta de fibras têxteis) lá pras bandas do Carrasco. Entre um trago e outro de cachaça cajueiro do sítio dos Pereira, o assunto de maior atração, era o momento político. José Preto foi um fervoroso e fiel amigo, do Major Pergentino Costa, chefe político de liderança comprovada em toda a serra da Ibiapaba. Este simpático homem vestia-se à capricho. Porte elegantérrimo, exibia feliz, camisas, calças, paletó e gravatas no mais alto estilo da época. Nos dias frientos, ostentava um capote preto (casaco comprido que fazia parte do uniforme militar), não esquecendo o chapéu-côco sobre os cabelos meio grisalhos. Quando aparecia à rua 31 de Dezembro, rumo ao comércio local, seu andar firme parecia um príncipe indo ao encontro de uma princesa Muzunga de raça nobre. Gostava de jogar baralho com o seu grande amigo e protetor Major Pergentino Costa, sem dúvida um dos filhos de Ubajara merecedor de uma estátua na Avenida principal da cidade. Seu amor a Ubajara faz parte da história. O carismático Zé Preto teve como vício e feitiço maior, a dança. Bailava todos os ritmos numa sintonia de passos e movimentos. Não perdia um SAMBA (nome dado às festas nos sítios àquela época). Em salões enfeitada com papel crepom, bandeirolas e laços de fita, a festa não tinha hora certa para terminar. As latadas e terreiros de chão com barro batido ficavam apinhados de dançarinos. Das 8 da noite até madrugada Gonçalo Galvão, o “sanfoneiro” mandava som no baião, samba, forró, chote que rolavam soltos pelas quebradas da serra. G. Galvão e seus dois companheiros (um no pandeiro e outro no ganzã) não dispensavam a quente e saborosa Cajueiro. Haja fôlego para acompanhar os dedos ágeis e precisos nos botões niquelados da sanfona alaranjada do G. Galvão. Cadê o tira-gosto? – gritavam panderista e ganzarista. De repente, surge o maior festeiso e dançarino daquelas paróquias, Zé Preto, todo sorridente, felicidade nos olhos, trazendo nas mãos uma bacia de ágata tamanho médio. Dentro dela, pedacinhos de avoantes chumbadas na véspera, bem torradinhas misturadas na farinha da Serra Grande. Peça um chote, Zé Preto! – pedia Carolina do Pitanga. Num abrir e fechar dos olhos, o chote com G Galvão. Ninguém ficou sentado e nem de pé, todos no salão. A poeria subia rápida com cheiro de terra molhada. Os casais discretamente abraçados no vai-e-vem do chote, exclamavam à meia-voz: “É hoje, Manoel! É hoje, Antônia! Tá bom demais”. Ao término da quintura do chote, uma pausa. Palmas e vivas, formas de agradecer daquela gente humilde e bonita, espalhada na região de clima mais saudável do nosso Ceará. Convivi com este homem honrado e estimado. Em certa ocasião, falou-me: Deixe que eu leia sua mão direita, meu jovem! Ao esticá-la na posição certa, vi que estava amarelada. Rápido pensei e concluí: foi a manga doce que comera na bodega da minha Tia Lúcia. De imediato, apresentei-lhe de novo as linhas da minha mão. Zé Preto, bem calmo, revelou: Meu jovem Edmundo, irás viver um bocado. Nunca lute contra os indefesos; a luta será desigual. Fiquei em silêncio, baixei a cabeça, olhei o chão verde e senti emoção de viver mais um pouco. Os anos caminharam rápido, Um dia em São Paulo, soube que o romântico e simpático Zé Preto havia nos deixado apra sempre. Tenho absoluta certeza que ele está junto aos magos-advinhos em céu todo especial. Zé Preto! Antes que termine este “recordar”, escute este recado: “As dançarinas Pitanguenses, Pavunenses, Olindenses, Gameleirenses, Amazonenses e Itaperacimenses nascidas no município de Ubajara enviam-lhe de coração, eternas saudades. Até hoje sentem falta dos teus passos mágicos e estonteantes ao bailar o samba, o baião, o forró, a valsa e nosso puríssimo chote. Zé Preto! Estou pertinho dos 70 e uns anos. Vivi um bocado; quero mais, adoro a vida. Tuas luzes.

Conheça a história do sítio Matriz

Conheça a história do sítio Matriz, em Ubajara-Ceará

Por Teresinha Araújo Moura O atual Município de Ubajara era habitado primitivamente pelos índios tabajaras. A primeira penetração foi feita por volta de 1604, por Pero Coelho de Souza, que tentou conquistar as terras férteis da serra de Ibiapaba. Auxiliado pelos jesuítas Francisco Pinto e Luís Figueira, promoveu a pacificação dos índios e o desenvolvimento das aldeias que começavam a proliferar às margens do arroio Árabê. A obra dos jesuítas foi interrompida, no entanto, com o trucidamento do padre Francisco Pinto, pelos índios tocarijus, durante uma cerimônia religiosa, no dia 11 de janeiro de 1608, no local onde hoje se ergue a cidade de Ubajara. Em 1877, acossadas pela seca e pela falta de viveres, as famílias de Bartolomeu Fernandes do Rego, Manuel Luis Pereira, Manuel Soares e Silva e Francisco Soares e Silva emigraram das zonas atingidas, instalando-se nos sítios Buriti, Pitanga e Pavuna. Quando a grande seca as atingiu, deslocaram-se para o lado sul de uma lagoa, denominada lagoa do jacaré, ali organizando um arruado que se chamou Jacaré, primitivo nome do Município. O núcleo foi se desenvolvendo, até que, em 1884, um incêndio o destruiu, obrigando os moradores a passarem para terras do lado oposto da lagoa. Em poucos meses reconstruíram o povoado. Em 1886 foi erguida a capela em honra de São José, em terras doadas pelos beneméritos cidadãos José Rufino Pereira, José Lopes Freire e Joaquim Mulato, em 26 de Janeiro de 1883. A capela de São José foi sagrada no ano seguinte pelo primeiro vigário, Padre Manoel Lima de Araújo, da freguesia de São Pedro de Ibiapina, a cuja jurisdição pertenceu durante muitos anos. O distrito de paz foi criado em 1890, com a denominação de Vila de Jacaré. Em 1915, por força da Lei 1.279, de 24 de Agosto, da Assembleia Legislativa do Estado do Ceará, conseguiu o Município autonomia administrativa, passando a denominar – se Ubajara. Hoje, com a população em torno de 35 mil habitantes foi agraciada com uma Casa de Show de alto nível – Castelo Clube – que oferece estrutura para a execução dos mais diversos tipos de eventos, desde Feiras, Congressos, Workshops, Shows Culturais e Festas Sociais (Casamentos, Bodas, Debutantes, Aniversários, etc.). Equipamento privado que veio enriquecer a infraestrutura de apoio ao desenvolvimento do turismo local e regional e ampliar e fortalecer o nosso calendário de eventos. Ubajara, que trabalha para consolidar os seus eventos tradicionais regionais como FEPAI – Feira de Produtos Artesanais e Industriais da Ibiapaba; a Exposição Agropecuária da Ibiapaba; Grandes Carnavais; Tradicional Reveillon, Festejo Junino; Paixão de Cristo; e a Semana do Município, além dos eventos esportivos e ligados à natureza, agora quer investir nos eventos de Congressos e Workshops. História do Sítio Matriz Sítio Matriz, sediado em Ubajara-CE, perfazendo uma área de 93he, sendo 55he de mata nativa, resquícios de Mata Atlântica, pertencente a família Aristides – homens e mulheres que estiveram a frente do seu tempo, sob a matrícula Nº 1617 de 21.05.17 do Cartório de Imóveis de Ubajara-CE – Nº na Receita Federal 5.126.861-2 e Nº no INCRA 147.060.003.395-6. O casal Joaquim Aristides dos Santos e Maria Soares Santos tiveram 10 filhos, sendo 05 homens e 05 mulheres, conseguiu formar 02 deles, um em medicina e o outro em Engenharia Civil, os demais homens assumiram a gestão dos negócios da família – agropecuária, e as mulheres, como era peculiar à época, direcionaram-se para as atividades domésticas, apenas uma delas adentrou para a vida religiosa – Ir. Carlota atuando em Recife, mais precisamente no Hospital Português, onde coordenou o centro cirúrgico, daquele hospital, por vários anos. Destaca-se especialmente o filho Valdemar Aristides dos Santos – que geriu os sítios situados na Serra, mais precisamente em Ubajara-CE e Francisco Aristides dos Santos – que geriu as fazendas situadas em Cariré e Tamboril, localizadas no semiárido cearense. Família regida por princípios éticos sólidos, pautada por uma amizade fraternal sem igual, mantiveram os bens em condomínio e todos se apoiavam na gestão, e todos participavam da lucratividade. Registrou-se a participação especial do engenheiro/construtor Dr. Ariolino Aristides dos Santos e Dr. Pedro Osvaldo Aristides dos Santos – médico, como também de Raimundo Aristides dos Santos – o homem de frente dos serviços – o operacional. Um fato curioso desta prole de 10 filhos foi que apenas 03 casaram-se – Valdemar Aristides com a sobrinha Antônia Mourão Santos – Suraia, Dr. Ariolino Aristides dos Santos, com Suraia Caram, uma mineira com descendência árabe e Maria Santos Mourão com um agropecuarista político de Nova Russas Gonçalo de Aquino Mourão, os demais viveram na solteirice. Fato curioso é o que não faltam nesta família, três deles – Seu Chico, Anízia e Abigail viveram mais de um século. Registra-se na 3ª geração a participação especial de Mouranízia Santos Mourão (Cariré) – a nossa tia Mourinha, que se dedicou especial aos ternos cuidados aos tios, e a gestão das fazendas do sertão, inovando no comércio, com a ajuda do seu sobrinho Joaquim Aristides Neto com as Lojas Caiçaras, em Cariré e Pacujá e em Ubajara com a Movelaria Popular. Nos áureos tempos da década de 50, mais precisamente no apogeu das culturas da cana-de-açúcar e café havia no Sítio Matriz uma locomotiva ao vapor, que gerava energia para alimentar todo um complexo, constituído de engenho de rapadura, serraria e máquina de pilagem de café. No engenho, fabricava-se rapadura, a qual era comercializada para o sertão, através de comboieiros e caminhões via Crateús. Já na serraria, preparavam-se madeiras destinadas à construção, tanto as de produção própria, como também terceiros, de quase toda a Ibiapaba traziam suas matérias-primas – a madeira, para ser beneficiada no Sítio Matriz, inclusive o madeiramento dos Patronatos de Viçosa do Ceará e Ubajara foi oriundo de lá. Com a máquina de pilagem de café, não foi diferente, tanto beneficiava o café de sua própria produção, como também beneficiava o café de outrem. Desta forma o Sítio Matriz foi destaque em toda a região Ibiapabana. Conforme o Livro de anotações da Prefeitura Municipal de Ubajara, denominado – Exploração

Casa Grande dos Salvinos: História, Herança e Resistência

Casa Grande dos Paus Altos

Por Jonathan Ferreira Gomes Localizada no Sítio Paus Altos dos Salvinos, a então conhecida casa grande é resistente aos anos e às mudanças climáticas. Construída pelo senhor Miguel Ferreira Gomes (1885 – 1969), conhecido por Miguel Salvino, estimadamente na segunda década do século XX quando se casou com Josefa Rodrigues da Silva. O imóvel fica no terreno de 18 hectares que comprou do Senhor Manuel Narciso de Brito numa quantia de 500 mil réis que foi deixada como herança para a sua filha Anísia Ferreira Gomes. Conta com nove cômodos que abrigava todos os filhos e noras do senhor Miguel. O piso ainda se encontra em estado original. Há um sótão de madeira característico das casas antigas das primeiras décadas do século passado que servia como depósito de alimentos. A casa grande já foi símbolo de prosperidade: ao seu redor havia extensos canaviais e cafezais, além de um engenho e uma casa de farinha, onde se produzia os alimentos da família. Todos trabalhavam e ajudavam-se mutuamente. Nesse contexto, a família do Senhor Miguel Salvino foi uma das maiores produtoras de café, de farinha e dos demais derivados da cana de açúcar do século XX da cidade de Ubajara. Muitos moradores antigos da localidade se lembram até hoje das aulas de catecismo ministradas na casa grande pelas filhas do Miguel: a Anísia e a Francisca. Ao longo do tempo, a casa sofreu alterações, tais como o acréscimo de dois cômodos extras para acomodar seu filho Vicente Ferreira Gomes e sua esposa, na ocasião do casamento dos mesmos. Passou por mudanças em suas paredes para a instalação de energia elétrica. Já mais tarde foi residência de sua neta Maria das Graças Silva com sua família, seu marido e seus sete filhos. Atualmente a casa pertence ao neto do senhor Miguel, o senhor Francisco Ferreira Cunha, que a comprou de sua tia-avó Anísia. A casa grande atualmente encontra-se desabitada e tomada por morcegos. Suas paredes e pisos ainda continuam perfeitos, tendo sido feitas algumas intervenções em sua constituição como a colocação de portas adicionais e janelas por parte da Senhora Maria das Graças Silva. Não há uma manutenção diária dos cômodos, mas algumas telhas são repostas de vez em quando devido caírem com o tempo por conta de ventanias e chuvas fortes. As paredes sofreram algumas alterações sendo colocadas emendas de metal para amenizar algumas rachaduras que apareceram com o decorrer do tempo. Não há ocorrência de atos de vandalismo, como pichações ou depredação. Nesse contexto, a casa grande é a única que sobreviveu ao tempo ficando de pé para relembrar o passado longínquo dos seus antigos donos. Ela não pode ser substituída ou perder-se no esquecimento. Ela é única na comunidade Paus Altos dos Salvinos, sendo admirada e respeitada por todos os moradores que conhecem a sua história. REFERÊNCIAS: Arquivo Público do Estado do Ceará. Processo de Demarcação de Terras: Villa de Ubajara – Sítio Paus Altos: 1923-1924. Fortaleza – CE. Acesso em março de 2017. Inventário de partilhas de bens, 1970. Miguel Ferreira Gomes. Fórum Municipal de Ubajara. Acesso em abril de 2017. Relatos Orais dos moradores do Sítio Paus Altos: Edgar Cunha Silva, in memoriam (1922 – 2022); Expedito Ferreira Gomes; Francisco das Chagas Ferreira; e Maria das Graças Silva. Jonathan Ferreira Gomes é licenciado em Física pela Universidade Estadual Vale do Acaraú (2011); especialista em Metodologia de Ensino da Física pela Faculdade Integrada da Grande Fortaleza (2013); e em Gestão Escolar pela Faculdade Futura (2021). É Mestre em Ensino de Física pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE) do Campus Sobral (2022). Atualmente é professor de Física das escolas EEM Professora Rosa Martins Camelo Melo e EEM Monsenhor Melo do município de Ibiapina.

A importância da história local

A importância da história local

Por Teresinha Araújo Moura, trecho da monografia apresentada à Coordenação do Curso de Licenciatura em História do Instituto de Teologia Aplicada – INTA. De acordo com Vieira, (1992, p. 122), a Serra de Ibiapaba, situada em meio a uma região de clima ao semi-árido nordestino e a noroeste do estado do Ceará, impressionam aos visitantes devido a sua beleza entre ambientes e lugares tão naturais. O tabuleiro da Ibiapaba ou conhecida mais popularmente como a Serra Grande é formada, geograficamente e politicamente, atualmente, se estende de um eixo montanhoso com início a 40 km do litoral e se avança 110 km em território cearense compreendendo as cidades de Carnaubal, Croatá, Guaraciaba do Norte, Ibiapina, São Benedito, Tianguá, Ubajara e Viçosa do Ceará. Foi nesse meio natural deslumbrante considerada como um paraíso arrodeada de caatingas que veio a se formar um dos resguardos missionários da Companhia de Jesus no Brasil, que era além das missões do Paraná-Uruguai. Segundo a carta anual de 1696, firmada pelo padre Miguel Antunes, havia na região Norte, mais precisamente no Estado do Maranhão cerca de 11.000 almas que eram gerenciadas pelos jesuítas; na capitania de Pernambuco existia cerca de 6.700 índios, sendo que 4.000 estavam presentes nas aldeias da Serra Grande. (SERAFIM, 1945, p. 321). De acordo com Studart (1960, p. 53), esses dados numéricos auxiliam de certa forma a entender o empenho com que os missionários portugueses que foram designados para o Maranhão assimilaram a região, domínio não explorado ainda dos portugueses, no início do século XVII, mas que já havia despertado o interesse dos franceses para a formação da França Equinocial. Por esse motivo que os investimentos catequéticos contassem com o apoio de várias autoridades colonialistas para anexar por terra caminhos e comunicação entre o Estado do Maranhão e Grão-Pará ao Estado do Brasil. Em torno de toda a metade do século XVII, a capitania do Ceará e, notavelmente as Serras da Ibiapaba, representavam, em documentos produzidos, a uma fronteira que deveria ser incorporada sem exceção ao império português. Assim, alega-se o uso da figuração Serras de Ibiapaba para se atribuir a essa região a noroeste da capitania do Ceará fosse compreendida como uma região colonial, espaço social de interação histórica, com participação de diferentes agentes coloniais. Se a região possui uma localização espacial, este espaço já não se distingue tanto por suas características naturais, e sim por ser um espaço socialmente construído, da mesma forma que, se ela possui uma localização meramente temporal, este tempo não se distingue por sua localização meramente cronológica, e sim por um determinado tempo histórico, o tempo da relação colonial. Deste modo, a delimitação espaço-temporal de uma região existe enquanto materialização de limites dados a partir das relações que se estabelecem entre os agentes, isto é, a partir das relações sociais·. (MATTOS, 1990, p.24). Assim, a região colonial era produto da influência de uma política colonialista com objetivo agregar a região das Serras de Ibiapaba, em um pensamento de ampliação territorial como uma conquista do Império português. Logo, essa região colonial era mais um que simples meio produtivo, mas sim um conjunto de elementos essenciais tendo como causa de sua integração essas referências. As diversas configurações de organização dos grupos indígenas, compostas pelas políticas indigenistas por meio da aldeia, um ambiente que se constituía restritamente cristão, representou, uma das precauções da Coroa como meio de conservação de suas possessões, até a mais remota região que fosse. Na época existiam inconstantes que moldavam duas variáveis históricas; a aldeia e a vila e que refletiam as práticas estabelecidas aos índios e que também participaram, estruturando métodos que possibilitassem, de alguma forma, afirmasse-se uma atmosfera de exercícios de sua identidade, ainda que houvesse a circunstância de dominação. O sistema de ação catequética da Companhia de Jesus era desvirtuado com as iniciativas da Coroa, ou seja, a atuação missionária dos missionários constituía-se como uma parte dos princípios a de dominação. Por volta do século XVII, ocorreram três empreendimentos sem sucessos de aldeamento com os índios nas Serras de Ibiapaba. Primeiramente, com os padres Francisco Pinto e Luiz Figueira nos anos de 1607-1608, que, foram mandados devidos a ordens da Companhia de Jesus no Brasil, tendo como representantes Fernão Cardim e do governador geral do Brasil, Diogo Botelho, formularam a campanha missionária em sentido ao Meio-Norte colonial. O missionário explorado na lida catequética com os índios do Rio Grande, o padre Pinto, é capturado na memória jesuítica como precursor e criador das missões no Maranhão e que estabeleceu um padrão mantido pelos jesuítas nas investidas missionárias ao sertão colonial. O desfecho dessa campanha missionário culminou na morte violenta do padre Francisco Pinto em 1608 que foi morto a pauladas pelos índios Tarairiú. (STUDART, 1903, p 47). Segundo os estudos de Monteiro (1994, p. 129), as investidas jesuítas não pararam. No período de 1656 a 1662 houve a segunda tentativa, em os missionários estiveram entre os índios através do comando do padre Antônio Vieira que o responsável e visitador das missões maranhenses. Quando enfim o resguardo cristão foi estruturado nas Serras da Ibiapaba por meio do Antônio Vieira, a campanha denominou-se de São Francisco Xavier, provável homenagem a um dos idealizadores da Companhia. Atenta-se que esse momento foi propicio a muitas disputas na região do Estado do Maranhão, entre os jesuítas e os colonos e representantes do poder local que mantinham concentrada a mão-de-obra indígena. Assim, é possível se dizer que o fracasso dessa investida estava relacionado a todo um conjunto de conflitos que firmaram a presença jesuítica. A investida final dos inacianos de fixação de um reduto propagador cristão junto aos nativos deu-se em 1691, com o do padre Manuel Pedroso e seu companheiro, padre Ascenso Gago. No dia 15 de agosto de 1700, devido a uma consequência de uma reunião entre grupos indígenas e representantes importantes, foi instituída a Aldeia de Nossa Senhora da Assunção nas Serras da Ibiapaba, que ficou sob o comando dos missionários jesuítas até 1759, quando foram expulsos de todo o mando dos portugueses. Com comando laico

Pássaros e Plantas: Reflexões sobre Relacionamentos

Pássaros e Plantas, artigo de Marcelo Miranda para a revista da Academia Ubajarense de Letras e Artes

Por Marcelo Miranda Os relacionamentos, assim como as interações entre pássaros e plantas, exigem um equilíbrio delicado entre liberdade, escolhas e cuidados. Esses elementos, quando bem administrados, criam um ambiente onde tanto as pessoas quanto as relações podem florescer. A Liberdade dos Pássaros Os pássaros representam a liberdade, com sua capacidade de voar e explorar o mundo. Eles são livres para buscar novos horizontes, mas sempre retornam aos lugares onde encontram segurança e conforto. Cuido do ambiente para que os pássaros, livres, tenham o desejo de voltar. Assim, vejo os relacionamentos como um espaço onde a liberdade deve ser valorizada. Em um relacionamento saudável, cada pessoa deve se sentir livre para ser quem é, sabendo que há um lugar seguro ao qual sempre pode retornar. A liberdade, nesse contexto, não é o oposto do compromisso, mas sim a confiança mútua que permite que ambos os parceiros cresçam e se desenvolvam. Tal como os pássaros que escolhem voltar a um lugar onde se sentem bem, as pessoas em um relacionamento retornam à conexão quando sabem que ela é nutrida pelo respeito e pela confiança. As Escolhas que Nutrem As plantas, com suas raízes profundas, representam as escolhas que fazemos diariamente. Cada decisão de nutrir e cuidar delas resulta em crescimento e florescimento. Regar as plantas, cada uma com sua necessidade diferente de quantidade de água, me lembra que tenho que regar o relacionamento diariamente. Assim como cada planta exige um cuidado único, cada relacionamento também precisa de uma atenção particular. É importante reconhecer que não existe uma fórmula única para todos os relacionamentos; cada um tem suas próprias necessidades e desafios. As escolhas que fazemos para apoiar, entender e cuidar do outro são os nutrientes que mantêm uma relação saudável e forte. O Cuidado Contínuo O cuidado é o que mantém a vida presente, tanto nas plantas quanto nos relacionamentos. Um jardim bem cuidado prospera e se torna um lugar de beleza e refúgio. Da mesma forma, um relacionamento bem cuidado floresce, trazendo alegria e realização para ambos os parceiros. Regar as plantas me lembra que, da mesma forma, precisamos regar nossos relacionamentos com atenção e dedicação. Cada gesto de carinho, cada conversa sincera e cada momento de apoio é uma gota d’água que ajuda a manter a conexão viva e forte. Pássaros e plantas nos ensinam muito sobre o equilíbrio necessário em um relacionamento. A liberdade de ser, as escolhas conscientes e o cuidado contínuo são essenciais para criar um vínculo forte e duradouro. Quando cuidamos do ambiente de nosso relacionamento, assim como cuidamos de um jardim, criamos um espaço onde o amor pode crescer e prosperar, e onde sempre haverá o desejo de voltar, como os pássaros que encontram segurança em um lugar familiar. Tento fazer disso um exercício diário!