A Estrela do Sábio

Artigo de Melissa Vasconcelos para a Academia Ubajarense de Letras e Artes

Por Melissa Vasconcelos O sábio não se vangloria por sua luz, nem se lastima ao se ofuscar, Pois sabes bem que nem tudo que reluz é ouro, E nem tudo que é ofuscado apresenta perda de valor. O sábio nunca se diz feito, Mas sempre se debruça aos dias Para se intensificar, mesmo perante o mal-feito. O sábio cai, mas não desiste. O sábio sabe que não é sábio: Pois a sabedoria plena é a virtude dos ignorantes. Toda estrela, para ser estrela, precisa de energia para brilhar. O sábio que estagna por se considerar sábio há, em sua grandeza, de cair. Contudo, aquele que, em sua pequenez, não se aprumar, Aquele que, em sua fraqueza, não se deixar morrer, Saberá da grandeza da estrela-aprendiz. Todo ignorante é um sábio, e nem todo sábio conhece a estima da ignorância. Mas todo ignorante conhece a estrela da sabedoria. A ignorância é a bússola do nascimento estelar: Para cada estrela, há o dia da junção e o dia do esgotamento. O tempo de vida de uma estrela depende de sua massa, E a extensão dessa massa ocorre com a liberação de luz e de calor. Como toda a luz, temos nossa energia visível. Ah! Expansiva e brilhante luz, que de longe se observa. Dos altos dos morros aos solos do sertão, A luz, quando brilha, nunca mais se faz esquecida. E, por não ser esquecida, nunca mais se faz só. Porém, assim como um filho precisa de sua mãe,A luz necessita de energia para que seja a luz Dos inícios, dos meios e dos fins. A luz é a estrela-guia da sabedoria. A sabedoria é o combustível do conhecimento. O conhecimento é a energia do sábio que desabrocha para brilhar. A estrela do sábio nunca morre: Incendeia em seu atrito com o ar.

A importância da pesquisa histórica

Pesquisa Histórica, artigo de Teresinha Moura para a revista da Academia Ubajarense de Letras e Artes

Por Teresinha Moura A História não é apenas uma disciplina do currículo escolar, não é apenas mais uma “matéria”, a História é a essência da matéria. Não se trata apenas de fatos ou acontecimento que devem ser recontados ou narrados de forma repetitiva. Faz-se necessário uma inovação a cada leitura realizada, os acontecimentos devem ser recontados de vários ângulos para privilegiar a sensações do leitor. De certa forma, podemos dizer que a História está sendo recontada de forma verdadeira, somente agora. Atualmente há uma metodologia nova voltada para uma análise mais complexa de dados históricos, com o intuito de descobrir quais foram os verdadeiros papéis e seus verdadeiros “atores”. A influência da sociedade dominante de cada civilização sempre foi o pilar da escrita histórica, trazendo sempre sua participação como principal e detentora da verdade. Infelizmente alguns fatos foram distorcidos e começaram a ser descobertos e reescritos dando ênfase às mudanças sociais ocorridas em virtude destes. E no Brasil não foi diferente, nossa história foi escrita seguindo os acontecimentos políticos e seguindo como história verdadeira, aquela de outras civilizações. Somente após o período colonial, com a Proclamação da República, os fatos começam a ser narrados um pouco mais dentro de nosso contexto e desde o século XIX, a função do ensino de história era preparar os nobres para exercer o poder e o direcionamento do comportamento social. Dotados de um conhecimento que apenas servia de suporte para a aparência, alguns nobres usavam este conhecimento para pregar ideais de democracia. O ideário da escola nova, na década de 1920, levantou algumas discussões sobre ensinar história criticando a seleção de conteúdos políticos, sua abordagem cronológica, a ênfase no ensino do passado e a relação entre o nacionalismo e militarismo. Todavia, não houve grande colaboração para mudanças, pois, as propostas recaíram “na memorização excessiva, na passividade do aluno na decoração, na periodização política, na abordagem factual, etc.” (NADAI 1993, p.153). As metodologias de organização dos conteúdos no livro didático de história sempre seguiram padrões ditados pela sociedade que vivia em sua respectiva época, refletindo assim, seus ideais e suas preferências. Sendo assim, o ensino tornou-se mecânico e repetitivo. O resultante dessa abordagem reproduzida há décadas nos programas de história foi à construção de algumas abstrações, cujo objetivo tem sido realçar, mais uma vez, um país irreal, mascarando as desigualdades sociais, a dominação oligárquica e a ausência da democracia social. (NADAI, 1993, p.150). A realidade do ensino de História é que esta foi moldada por camadas dominantes da sociedade. E com o apoio de seus governos a História teve seu curso alterado nos livros para favorecer o direcionamento do conhecimento, privilegiando apenas ideias que ressaltavam feitos e acontecimentos referentes a esta sociedade. Ainda é possível fazermos, atualmente um paralelo com o período colonial. Vivemos em um Brasil que ainda tem traços de uma cultura dominante que tenta trazer às camadas mais baixas da sociedade um conhecimento mecanizado tirando a oportunidade de acesso a materiais mais bem elaborados que valorizam a pesquisa e o debate. Atualmente é o que mais tem faltado para melhorar a qualidade do ensino de História; além de metodologias diferenciadas, a questão dos recursos também exerce uma influência muito grande nos resultados que devemos alcançar. Não é suficiente que os alunos assimilem os conteúdos históricos apenas para obter a chance de ir para outro ano de estudo, não é somente decorar trecho mais importantes de nossa História, mas interpretá-la de forma contextualizada para que os conhecimentos permaneçam para toda a vida com esses alunos. Infelizmente sabemos que a maioria de nossos alunos não dispõe e não terão muito em breve a sua disposição, recursos didáticos mais lúdicos. O preço por este acesso é altíssimo para algumas camadas sociais. Há pouco tempo apenas, o homem tomou consciência da importância da pesquisa histórica verdadeira. A humanidade percebeu que somente através da História podemos refletir sobre nossas ações e nos prepararmos para o futuro. Sobre isto, Rudimar, (2007), comenta que o professor de História quando planeja suas aulas aparecem subjacentes ao seu trabalho, teorias da historiografia. Essas teorias podem ser percebidas na ação docente que leva o professor a produzir uma aula de história centrada na narração de fatos, na crítica social ou na reflexão dos conflitos de classes. A partir desse reconhecimento, identificam-se modelos diferenciados que vão do positivismo à tendência da Nova História, que contemporaneamente acaba por combinar vários modelos de interpretação. Mesmo percebendo a discussão polêmica que cerca esse assunto, inclusive a utilização do próprio termo paradigma para o campo das ciências sociais, acreditamos que esses modelos existem, coexistem e influenciam de formas diferenciadas as práticas didático-pedagógicas no ensino de História. O ensino de História requer contextualização para obter resultados favoráveis a assimilação e compreensão dos conteúdos estudados. Para entender o processo de construção da História, o aluno precisa primeiramente entender os motivos da necessidade de estudá-la. Não é apenas uma reprodução dos conteúdos e uma imitação da cultura deixada por outras nações. De acordo com Bittencourt, podemos perceber que o ensino de História, embora seja alvo das preocupações de muitos daqueles envolvidos com sua prática nas escolas, ainda necessita do trabalho de aproximação com a realidade do aluno. É evidente que o professor precisa conhecer os conteúdos que tem por objetivo ensinar. Mas deve haver uma análise do espaço do aluno, para saber que conhecimentos ele detém e como ele entende a disciplina que será trabalhada. Para que os professores possam repassar os conteúdos e ensinar melhor os seus alunos é preciso ter consciência de que a apropriação dos conteúdos pelos alunos é um processo de criação e recriação. Acredita-se que cabe ao professor de História, buscar as alternativas para o trabalho com os alunos de forma que direcione os avanços na construção dos conhecimentos de História. Como cita Bittencourt, (1990): “É necessário, portanto que o ensino de História seja revalorizado e que os professores dessa disciplina conscientizem-se de sua responsabilidade social perante os alunos, preocupando-se em ajudá-los a compreender e melhorar o mundo em que vivem.” Elaborar e executar

A Cegueira Humana

A cegueira humana, artigo de Manoel Miranda

Por Manoel Miranda O texto a seguir foi escrito em 1915 por Manoel Miranda e é apresentado em sua redação original, sem alterações em sua linguagem, estilo ou ortografia. Essa escolha visa preservar as tradições históricas e literárias da obra, refletindo o contexto e a forma de expressão da época. Paira agora sobre a humanidade uma como a maldição que a infelicita e endoidece. Parece que dos vastos páramos de ignoto se desencadeou nestes dias contra o terráqueo orbe um furacão violento e pestífero que o convulsiona e abala até os mais sólidos fundamentos. A sociedade que, segundo o mais espontâneio vate da raça latina, Guerra Junqueiro, parece sofrer de escruphulas, hoje nos paroxismos de uma agonia enorme, commete loucuras e insânias não vistas, emquanto ao de cima, do comoro verdejante da Idéa nova, o philosopho-a sciencia objectivada, estuda-a e analysa-a serenamente, inda que por vezes cruze os braços desalentado; constrangido pela impossibilidade de superar as desgraças tamanhas. Elle vê a humanidade na marcha acelerada para a ruína completa e conhece as causas essenciais das mazellas que afligem, mas infelizmente não acha meios de afastá-la do negro precipício. Sente-a submergir-se pouco a pouco no pavoroso inarnel do nirvana silencioso, e não póde estender-lhe a mão protetora que a impeça de cahir nem dar-lhe o apoio que a restituia ao coruscante sol do progresso e da paz mundial, ao sansara do trabalho que constitue a existência terrena. Evoca então reminiscências pagãs, quando não havia de artificial mais que a tosca pedra mal lavrada como auxiliar do homem rudimentário, mas reinava a harmonia geral e a concórdia não tinha soluções de continuidade naquelas boas e primitivas gentes pharaonicas. Remonta a esses dias obscuros do passado longinquo, quando a annosa arvore da civilização não chegara ainda a cobrir com a sua ramalhuda e farfalhante fronde magestosa as terras todas do Oriente e Ociente, e os homens lhe não buscavam a sombra deliciosamente confortável mas perigosamente intoxicadora. Vê, in mente, o seu desenvolvimento agigantado, acompanha-lhe o desdobramento do caule augusto, o renovamento das suas células vibratis, a coloração de sua folhagem imponentíssima, a opima frutificação de sua floração rescendente e multicor. Vê o cuidado do homem, no evoluir das idades, festejando-a e regando-o com carinhoso afecto, a cada fruto sazonado entoando hymnario apotheótico. E mais tarde doces pomos que abundaram e que eram as admiráveis combinações da dhímica, as invenções assombradoras, a aplicação da eletricidade, o telégrafo, a Imprensa, o phonografo, e mais o cinema e o balão e ainda mais o radio, e os homens a se vangloriarem e se embevecerem no saborear de tão doces maçãs, olvidando a família e olvidando o amor, esquecidos de Deus e do futuro… Porém, o institucionalismo de que se cercaram, necessários à índole impetuosa dos avoengos remotos, prende-os por fim ferreamente nos grilhões dos preconceitos fúteis, e mais os aperta na engranagem complicada que o oleo dos paragraphos lubrifica constante. Neste circulo atróz que os não deixa moverem-se e coareta-lhes toda a liberdade de agir e raciocinar, têm os homens até dificuldades de respirar o por um hausto refrigerante de oxygenio vital degladiam-se e esphacelam-se em pugilatos tremendos, de todos os dias e de todos os instantes, no recesso do lar e na vastidão da praça pública, na aldeia mais pacata e na capital mais populosa. Por um sopro deste ar que é o metal sonante que lhes proporciona ephemeros prazeres e mesquinhas honrarias, viu o pensador dividirem-se os homens em facções distintas e os viu abrirem a luta que não mais terminou. A arena onde se batem os gladiadores como feras na disputa da presa sangrenta, veiu de chamar-se política. De um lado e de outro, as hostes aguerridas e reciprocamente, mortalmente odiadas. A vasta família humana separada em dois partidos inimigos, entre os quais a barreira da diciplina se interpõe, se avoluma imensa, altiva parecendo dizer. Parae. Cada grupo reze com fervor o seu credo e a sua ladainha com muito mais fé do que se reza agora o Pater Noster do meigo Nazareno. A imprensa, que foi o factor máximo do progresso e da instrução dos povos, desvirtuada nos seus fions, prostituída, às vezes, é a trompa altisonante que apregoa as cirtudes e as sudidades de ambas as aglomerações contendoras na razão directa do quadrato dos interesses alimentários e na inversa do mal que se deseja fazer. Do alto da sua turris ebúrnea, onde se isolara com os raros reis adoradores da Arte, o pensador vê tudo isto com o coração contristado e lágrimas nos olhos. Chora por verificar o seu esforço perdido, nancia heroica e philantrophica de apaziguar os homens desvairados. Ante o estadio exauthematico agudo desta phase dolorosa de irritação extrema por que passa o organismo social entumecido da purulência das paixões descomedidas, utilisar-se não pôde o desgraçado asceta do linimento da Idéa. De lá vê elle o desfilar em baixo desse cortejo espetaculoso de tyranos e chefetes imbuídos das mesmas velleidades do mando e invulnerabilidade de Achilles. O tyrano, do seu solio aurilavrado acenando às turbas escravisadas; o chefete, ignorante e fátuo, de sobrecenho terrososo, no seu rossinante escanifrado, com um largo gesto de D. Quixote maluco, conduzindo o eleitorado inconsciente pelas veredas do crime e do deboche, ao toque mágico de varinha de Panurgio. Em sua imaginação exercitada de psycologo, como em chassi de fidelíssima Kodac, gravam-se indelevelmente todas as cenas das miserias humanas, e lá se ficam numa galeria obumbrada que ele contempla a todo instante entrestecido. Mas não desanima o visionário do Bem, o utopista da Paz, o doutrinador secular; a cada esforço perdido em prol da unificação das raças e do extermínio dos falsos, loucos, pueris preconceitos sociaes, mergulha os dedos descarnados nas mellenas grisalhas e aperta a fronte nas mãos murmurando consigo que nem tudo está perdido ainda. Elle sonha com um dia venturoso em que, da amalgama de philosophias que há semeado evanescente, uma só, forte eterna, verdadeira e pura, surgirá a grande doutrina do Porvir bendita. Sonha… E o propagador dessa doutrina

Grande Sertão Veredas vira filme

Grande Sertão Veredas, artigo de Monique Gomes para a revista da Academia Ubajarense de Letras e Artes

Por Monique Gomes Sabe quando você lê um livro tão bom que, depois de passar um marca-texto nas frases mais importantes, percebe que está pintando praticamente a folha toda de amarelo? Ou, no livro digital, fica selecionando quase o texto completo, de tão bom que ele é? O filme brasileiro Grande Sertão (2024), disponível no catálogo da GloboPlay, causa essa mesma sensação, embora a gente saiba que é inútil passar um marca-texto na tela da TV. Tudo porque a obra é uma adaptação de Guimarães Rosa. A história traz a complexidade da narrativa de 1956, transpondo a violência do sertão para a realidade de uma favela urbana. Essa releitura, ao mesmo tempo moderna e fiel ao espírito de Guimarães Rosa, torna o clássico acessível a novos públicos. Riobaldo (Caio Blat) é um professor de escola pública que está no meio de um conflito violento entre facções e a polícia. A guerra não é apenas física, mas também filosófica, pessoal e emocional, uma vez que ele se apaixona perdidamente por quem ele acredita que é um homem. O relacionamento entre Riobaldo e Diadorim (Luisa Arraes) é marcado por sentimentos contraditórios e uma lealdade inquebrantável que revela as complexidades das relações humanas, a busca pela identidade e a dificuldade de aceitar as próprias emoções. Diadorim, que se disfarça de homem para poder participar da guerra, representa o desafio da luta pela autenticidade em um mundo de imposições. O filme explora a tensão e o conflito psicológico entre os dois, trazendo questões existenciais que permeiam a obra de Rosa. Além disso, o filme também apresenta personagens como Joca Ramiro (Rodrigo Lombardi), líder de uma facção, e Zé Bebelo (Luís Miranda), que refletem diferentes aspectos da luta pelo poder. Hermogénes (Eduardo Sterblitch), por outro lado, personifica as forças malignas da história, oferecendo uma representação simbólica das trevas que rondam a vida no sertão e na periferia. É uma experiência cinematográfica única, que não só homenageia a obra de Guimarães Rosa, mas também a recontextualiza, fazendo-a falar sobre questões ainda muito presentes na sociedade brasileira. Se você busca um filme que desafie suas concepções sobre amor, lealdade e identidade, assista a Grande Sertão na GloboPlay.

Academia organiza nova eleição

Acadêmicos se reúnem para organizar a nova eleição da Academia Ubajarense de Letras e Artes

Por Monique Gomes Membros da Academia Ubajarense de Letras e Artes se reuniram na tarde de domingo, 24 de Novembro de 2024, para a tradicional reunião mensal. O encontro foi oportuno para discutir as seguintes pautas: A eleição acontecerá no dia 16 de Dezembro de 2024, sendo que a apuração dos votos acontecerá no mesmo dia. Será considerado eleito o candidato que obtiver o maior número de votos do total dos sufrágios válidos e, em caso de empate, será eleito o mais idoso. De acordo com o edital de convocação, a posse dos acadêmicos eleitos acontecerá dentro de três meses, a contar da comunicação oficial da eleição em data acertada pela Academia – podendo ou não ser prorrogado por mais 30 dias. A nova diretoria tomará posse no dia 15 de Fevereiro de 2025. Ao final da reunião, todos os participantes foram pegos de surpresa com a declaração do empresário Joaquim Aristides que, tendo conhecimento que o grupo anseia por um espaço próprio, fez a doação de um terreno 10×30 para a construção da sede da Academia Ubajarense de Letras e Artes. Com os olhos lacrimejando de emoção e, ao mesmo tempo, com um ar brincalhão que lhe é peculiar, Joaquim decretou as condições ali mesmo: Cláusula primeira: Ele continua com o direito de levar uma cachacinha para as reuniões; Cláusula segunda: a construção da sede deve acontecer dentro de 2 anos, com prorrogação de mais dois, totalizando quatro anos. Cláusula terceira: No caso de a Academia ser extinta, o imóvel será doado para outra organização congênere. Diante da boa notícia, os membros da Academia ficaram extasiados, comemorando a nova conquista.

É muita saudade!

Saudade, artigo de Edmundo Macedo publicado na revista da Academia Ubajarense de Letras e Artes

Por Edmundo Macedo Festa das moças: noite de festa. No salão do prédio da Prefeitura, os aplausos acompanhados de foguetes empinados pelo fogueteiro, Manoel Felix, eram ouvidos, também, pelas estrelas do céu serrano. A orquestra faz a abertura do baile em grande estilo, tocando a Valsa dos Namorados, Murmúrios pelo salão para os dançarinos apoiados uns aos outros num comovido e íntimo galanteio. Pausa para chamar o garçom e pedir vinho, uísque, refrigerante e tira-gosto. Quem quisesse uma cachacinha, ia até a um mini bar atrás da orquestra e solicitava bem manhoso: “Bota uma talagada da amarelinha do cajueiro! Te pago amanhã!” Reinício da festa: um bolero com música romântica: “Que queres tu de mim?” Com este som e letra que parecia vir de outra galáxia, os cochichos nos ouvidos nos ouvidos das moças era o primeiro tempero do amor. O bolero continuava e os dançarinos criavam mil passo em uma cortesia invejável. Ali estavam jovens e rapazes dignos e sonhadores, entre eles: Domício Pereira, José Ubaldo, Rossini Cunha, José Furtado, Versiani Holanda, Hudson Vasconcelos, João Ribeiro Lima, Oscar, Nabuco, Manoel Miranda Filho, Manduca, Antônio Miranda, José Grijalva, Tico (Pavuna), Alcides, Zequinha, Zé Gilberto, José Augusto, Bolívar, Vitaliano, Afonso, Ivan, Modesto, Eurípedes, Raimundo Ferreira Costa, Gonzaga Cunha, Almir Salmito, Lincoln Vasconcelos, José Cunha, Humberto, Zé Gilberto, José Augusto, Djalma Lima, Quincas, Berilo Jordão, Vilani, Oneide, Iná Miranda, Isonete, Sulamita, Zeli, Francion, Expedita, Valderez, Ceci, Morenita, Maria Alair, Branca, Sensatinha, Margarida Holanda, Raimundinha Ferreira, Socorro Portela, Noemi, Elita Clemente, Vanda, Alice, Graziela, Lucivalda, Leda, Isa, Maria Anita, Glica, Laís, Zeli, Adelita Vasconcelos, Elizabeth, Maria de Lourdes Cunha, Íris, Maria Antonieta, Orquideia, Didi Gomes, Maria Helena, Erivalda, Éster, Fransquinha… e tantas outras criaturas que fizeram de Ubajara a mais emotiva cidade do planalto da Ibiapaba.

Ubajara, símbolo da Ibiapaba

Ibiapaba: poema de Henrique Moreira para a revista da Academia Ubajarense de Letras e Artes

Por Henrique Moreira Ubajara, símbolo da Ibiapaba Gleba abençoada de beleza rara Fora outrora da intrépida nação Tabajara Urbe de remotas épocas Onde os índios faziam ocas. Torrão de selvagens belicosos Íncolas de atos majestosos Pois cuidavam bem da natureza E com fascínio exaltavam sua beleza. À flor d’alma com magnanimidade Ao berço de nossa nacionalidade És um solene botão dadivado Pelo sublime canto agraciado. À Pátria indígena onde as paixões Verte-se tão épica nos corações Dos seus primeiros filhos insignes Os fortes e briosos aborígenes. Egrégios morubixabas Senhores das tabas Temidos por sua denodez plana Dominavam a serra ibiapabana. Jurupariguaçu, o feroz diabo grande Chefe, cujo brio expande Mel Redondo, o indômito Irapuã Todos só temiam a Tupã. Os autóctones por suas tradições São perenes inspirações Há de frisar-se entre as tais As pinturas corporais. Os guerreiros com seus acangatares Feitos das plumas e pomares Eram reverenciados por varão Pois os adornos simbolizavam sua nação. A pocema que era grito de guerra Que pelos abruptos talhados da Serra Ecoava além dos vales e montanhas Resplandecia às lutas heroicas de sanhas. Foi na bela Gruta mil vezes já decantada Por sua esplêndida beleza abençoada Que vivera o indígena – Ubajara Filho da bélica nação Tabajara. Libérrimo ele vogava com galhardia Á flor d’água e à luz do dia Pelos rios de águas cristalinas e puras Onde a vida da natureza fulgura. Fora este cacique que amava sua terra Que dera origem à urbe da Serra Berço de paz e beleza rara Salve, oh belíssima cidade de Ubajara.

Versos dedicados a Maria Lira

Homenagem a Maria Lira para a revista da Academia Ubajarense de Letras e Artes

Por Ilma Oliveira Queria falar tão somente da graça que tive no tempo Em que convivi com uma amiga com tanto entendimento Explicava para mim o que era ser, em fim, um verdadeiro cristão Tudo tinha, então, sentido, porque eu a escutava com mente e coração. Não ensinava só com palavras, mas com exemplo também Dizia sempre que a vida era vida quando se fazia o bem Por isso ficava contente sempre que ia falar Suas palavras eram suaves e prazerosa de escutar. Abençoada a hora que conheci minha amiga Maria De fundamental importância foi a sua companhia Falar da minha amiga, estou sempre à vontade Nosso convívio sempre positivo pela grande qualidade. Na diferença da idade e conhecimentos adquiridos Era cheia de saberes todos por ela já vividos Complementavam-se os saberes pala diferença de idade Ela tinha a experiência, eu tinha a boa vontade. Com toda serenidade de uma vida bem-vivida Ela soube ser capaz de aceitar a sua lida Habilidade bastante pra lidar qual fosse a situação E sabia conduzir todas com uma sábia solução. Ela sempre me dizia: tudo na vida é passagem Para resolver seja o que for tenha sempre serenidade O melhor da nossa vida será sempre a tranquilidade A vida é tão rápida e parece uma miragem. Também deixou para todos o legado da alegria Característica de quem sempre está no coração de Maria Dedicada a igreja de corpo, alma e mente Era no servir a Deus que a fazia contente. Dizia-me com convicção: nosso dever é amar A Deus do céu de coração, sem Ele não podemos estar Em toda e qualquer idade Dele, só dele é a bondade Que o amor Dele nunca falta, é só fazer caridade. Quando quiser ser bom cristão, ame ao Senhor Jesus Na hora do seu tormento, que Ele sempre conduz Seguir a Ele é obrigação de todo e qualquer cristão Basta entender que sem Ele não haverá salvação. A salvação é difícil pra quem não acredita no amor Ele sabia o quanto seria da Nossa Mãe tanta dor Também do filho eterno que por nós morreu na cruz Há de vir do coração fé, amor, compaixão e luz. Grande conhecedora da verdadeira palavra de Deus Por isso viveu em harmonia e simplicidade com os seus Foi uma vida vivida dedicada a igreja e aos irmãos Queria servir ao Pai por servir e nunca dizer um não. Assim deixou para todos nós a riqueza de seu amor e fé Entendendo que o Senhor Deus não foi, não será, Ele é. Amar a Deus é o que importa tendo humildade de mente O que o faz ficar feliz o Pai é ver o filho contente. Resta a nós seguir em frente com zelo e esperança E procurar crescer na humildade como se fosse criança Que não sabe o que é maldade desse mundo de cruéis Absolvidos em bens da terra não sabem a Deus ser fieis. A plantação que fizermos da palavra do senhor Será de grande sabedoria regar com cuidado e amor O que iremos colher no futuro é o resultado da semente Daqueles que sabem guardar os bons conselhos na mente. Descanse em paz, minha amiga, que nós ainda aqui vivemos Nesse pedaço de chão apenas com a oração é que a Deus chegaremos Pedindo sempre ao Senhor para nos livrar da dor e a salvação buscar Obediente na oração e também na eucaristia para salvação ganhar.

História da Família Eufrásio

História da família de Raimundo Eufrásio para a revista da Academia Ubajarense de Letras e Artes

Raimundo Eufrásio Oliveira é cearense, nascido aos vinte e oito dias do mês de Setembro do ano de 1916. Seus genitores residentes na Serra do Rosário, em Sobral, sofreram as dores da seca que assolava constantemente as populações regionais. Mais ou menos por volta do ano 1888, os mesmos transferiram-se para a Serra da Ibiapaba, precisamente hoje no município de Ubajara, á época território pertencente a Jurisdição do Município de São Benedito. Era o início da tradição, bem como a história da família Eufrásio de Oliveira, em Ubajara. A cidade de Ubajara, sempre amada por Raimundo Eufrásio, não foi seu leito de morte, embora fosse indicado por ele como o lugar ideal para findar os seus dias: sua terra natal. Julgava inconcebível qualquer argumento contrário a essa questão de sua preferência. Ele nasceu e viveu até os dez anos de idade no sítio de propriedade dos pais que muito cedo partiram para o céu deixando-o órfão prematuramente. “Sob as sombras acolhedoras dos viçosos cafezais que envolviam a casa grande do Carpina, jardim edênico do Pitanga, eu vim ao mundo num dia alegre de setembro”[1]. “No belíssimo cenários verde-esperança dos fartos canaviais farfalhantes da encantadora região da Valentina, eu adorei a natureza majestosa; ali era a nascente do famoso Olho D’Água, de águas cristalinas e tépidas, tão puras, tão convidativas tão perenes como as bênçãos dos céus; as secas o afastaram por muitos anos seguidos, e logo que o meu pai adquiriu aquelas terras, ele retornou como um prodígio de Deus para beneficiar o solo onde eu nasci” [2] Foi ouvindo as dolentes cantigas das águas da velha cachoeira do rio Pitanga, que Raimundo Eufrásio sentiu as primeiras emoções que energizam a alma do jovem no contato inicial com as maravilhas da terra. “No deleite dos cantos maviosos das graúnas no alto azul das palmeiras seculares, eu aprendi as primorosas lições da psicologia dos pássaros que cantam, que amam, alegram, galvanizam, que lutam, sofrem, morrem, mais não choram, não suplicam, nem gemem; nisto os fortes, os santos e os mártires são semelhantes às aves canoras do céu” [3] “E nas tardes quentes de verão, dominadas pelo instinto milenar da despedida, as estridentes cigarras cantadeiras choravam a saudades do sol quando morria; e a natureza encobria a serra no negro cobertor da noite; eu aprendi, assistindo aquele drama, a esperar a felicidade do dia de amanhã e a chorar a saudade do dia que passou; nas madrugadas risonhas de verão, eu era despertado, feliz e embevecido, com a alvorada melodiosa dos bandos dos xexéus, sabiás, graúnas, campinas, canários e jesus-meu-deus, numa sinfonia enternecedora que só a natureza mestra sabe craniar; aí, eu compreendi que até os infelizes podem ser felizes por alguns momentos” [4] “Dos píncaros da colina, a gente avista a cidade; aquela cidade festiva das missas de domingo e das novenas de São José, e a sedutora menina fidalga ávida de amor e estuante de progresso: A PRINCESA DA SERRA, a jóia dourada da Ibiapaba; Nessa cidade eu aprendi na Escola da incomparável mestra Maroca Perdigão Pereira, a cantar o Hino Nacional, a rezar as orações da Primeira Comunhão, a declamar poesias do genial Castro Alves e do Padre Antonio Tomaz, e amar com orgulho a minha pátria; na minha cidade eu aprendi a ler – a glória do menino de engenho; foi a partir dessa época que comecei a me afastar das tarefas comuns de tratar dos bois e coletar os feixes de bagaço de cana para transportar às costas para o pátio da fábrica, etc; dir-se-ia que eu descobriria um mundo novo, mais convidativo, mais progressista e mais humano; eu sabia ler o QUARTO LIVRO de Felisberto de Carvalho, o que para muitos companheiros já representava um diploma de letras” [5] Raimundo Eufrásio viu e venerou os filhos heróicos da cidade, que lutaram pela independência do município e conquistaram a autonomia política de Ubajara. “conheci o líder do povo Grijalva Costa, jornalista Manuel Miranda, o chefe político Francisco Cavalcante de Paula, o intelectual José de Oliveira Vasconcelos, o comerciante Moisés Bispo de Lima, o abastado Pergentino Costa, o industrial Elpídio Luiz Pereira o poeta Antonio Pereira, o rico comerciante Francisco Bahé de Macêdo, o prefeito Luiz Lopes, o tabelião e professor Antônio Celso de Jordão, tenente Ângelo Fernandes de Sousa, Raimundo Oliveira de Vasconcelos, Francisco Pinto, Flávio Lima, poeta Hemetério Pereira, Lauremiro de Vasconcelos, Francisco Alfredo Cavalcante, José Luiz Pereira, o delegado Maneco, considerado o mais rico proprietário do Município, e muitos outros que engrandeceram o torrão onde nasci”.[6] Dentre tanto narrado por Raimundo Eufrásio consta pelo mesmo que leu com frenesi os primeiros números da “GAZETA DA SERRA” e de “UBAJARA”, dois semanários que acompanhavam o progresso intelectual da cordilheira, sempre orgulhosa de Clóvis – o pontífice da Jurisprudência no Brasil, e de Farias Brito, considerado até então o mais renomado filósofo brasileiro de todos os tempos, admirou os encantos, belezas e excentricidades da maravilha natural do Norte: a Gruta de Ubajara. “a milenar e portentosa GRUTA DE UBAJARA, com as suas estalactites que marcam o relógio da civilização todos os segundos de cada século, e as estalagmites que formam, pacientemente, as pilastras para a história das pesquisas científicas que ainda não chegaram até nós; e na visita que fiz à Gruta eu assisti um dos mais belos espetáculos que os meus olhos já presenciaram: a indescritível aurora que nos maravilha, quando saídos das trevas da caverna avistamos o raiar do sol esplendoroso e mil vezes mais lindo que nos recepciona lá fora; a Gruta é, na verdade, a maravilha do Norte do Brasil” [7] Segundo Raimundo Eufrásio a fertilidade do solo, a prodigalidade do clima, a excelência da água, a exuberância das frutas, a magnificência dos panoramas das alturas e a riqueza vegetal, a constância das chuvas, a salubridade do verão serrano, a potencialidade agroindustrial espelhada na cultura secular da cana de açúcar e do café, a perenidade das plantações verdejantes, tudo isso conjugado à hospitalidade do coração generoso do povo da sua terra, representa

Muralha de Aço

Poema de Clara Leda para a revista da Academia Ubajarense de Letras e Artes

Por Clara Leda Ibiapaba, Serra Grande, majestosa Lendo e conhecendo tua história Em idos dias e outroras Sinto um orgulho danado de ti. És uma muralha forte, Suporte em aço Sem início e sem fim A sustentar o horizonte. És um mar de terras férteis Que deslizam por tuas encostas, Espraiam-se aos teus pés, Manjedoura da fartura. Encravada na tua rocha Em cenário de garoa, Desabrochou, feito flor Minha Ubajara querida. Do alvorecer ao anoitecer A natureza toda canta. Canta no assobio do vento Na boca d’água dos rios Na chuva de prata do luar. Canta a cigarra, canta o sabiá, Canta o povo, louvores, Benditos de sua fé E crê: as bonanças da nossa terra São chuvas de bênçãos divinas. A euforia, em mim, transborda E um orgulho de teu tamanho Toma conta de mim. Celebro! meu grito é eco, Ressoa, revela: Sou ubajarense! Sou Ibiapabana! Por ti faço versos, Cidade amada, terra querida Meu orgulho, minha paixão.