Literatura como ferramenta de prevenção à violência

Por Monique Gomes Durante décadas, perguntamos se Capitu traiu. Dissecamos seus olhos de ressaca. Julgamos seus silêncios. Transformamos uma suspeita masculina em quase sentença. Por trás da moral, há a construção lenta de uma acusação baseada em insegurança, imaginação e sentimento de posse. Bentinho não arrastou Capitu por mais de um quilômetro depois de atropelá-la, mas matou a reputação dela. Há algo perversamente atual em Dom Casmurro: o narrador é confiável apenas para si mesmo. Ele organiza os fatos para caberem na sua dor. Ele escolhe o que contar. Constrói a culpa da mulher que não tem voz. Hoje, os jornais estampam números que doem. Quatro feminicídios por dia. Mulheres assassinadas por companheiros, ex-companheiros, homens que dizem amar. Casos de violência vicária — quando o agressor atinge os filhos para ferir a mãe. Denúncias de abuso, pedofilia, silêncios forçados dentro de casa. Há uma verdadeira guerra de gêneros acontecendo agora – mas é só um lado que ataca. O termo ‘violência doméstica’ é curioso. O agressor é a casa ou o homem? Vamos corrigir: VIOLÊNCIA MASCULINA. Quem sobrevive não se cura. É uma ferida que se abre novamente sempre que acontece com outras mulheres. Quando lemos sobre vítimas de abuso dentro da própria casa, percebemos que o problema não é novo. Sempre houve um pacto de silêncio. Sempre houve alguém dizendo que era exagero. Em 1992, o cineasta Woody Allen foi acusado de abuso sexual pela filha adotiva, Dylan. Ninguém acreditava. O caso foi investigado, a criança concedeu nove entrevistas para relatar o ocorrido. Nove. Ela reviveu o abuso várias e várias vezes. Além de negar, Allen jogou a culpa em Mia Farrow, a mãe. Sua parceira na vida e no cinema há décadas. Ele a acusou de induzir a menina a mentir. Uma série documental foi produzida pela HBO Max em 2021, Allen Contra Farrow. Veja bem. Ele também abusou de outra filha adotiva mas, como ela se tornou adolescente, o vencedor de 4 Oscars construiu uma narrativa de que estava apaixonado e se casou com a garota para sustentar a farsa. Ocupe o lugar de Mia Farrow por alguns segundos. Ela descobre que o grande amor da vida dela é um pedófilo que se aproveita da inocência das próprias filhas. Mia perdeu o marido, ou a ilusão do marido ideal, ficou dilacerada pelas filhas e ainda teve que convencer as pessoas que o vilão era ele, não ela. Ocupe o lugar de Gisele Pelicot por alguns segundos. Imagine descobrir que o homem com quem você está casada há 50 anos não apenas traiu sua confiança — mas organizou, silenciosamente, sua violação? Não uma vez. Não por impulso.Mas de forma planejada: havia outros homens. Muitos. A violência contra a mulher não é apenas um desvio individual. É um fenômeno cultural. E o que isso tem a ver com LITERATURA? Quando identificamos um narrador manipulador, reconhecemos discursos que distorcem fatos. Quando debatemos consentimento em um romance, ensinamos limites na vida real. A literatura não impede a violência, mas forma pessoas mais conscientes.
Cuco, Kiwi e Bambu

Por Melissa Vasconcelos Gomes O provérbio do bambu chinês é uma sabedoria e um desafio. No período de inverno, a árvore se curva, porque se permanecesse ereta em meio às tempestades, quebraria. É comparável ao barco que rema contra a maré: a bússola perde a rota, o barco afunda, e nós nos ferimos ou morremos. E se o cotidiano for uma tempestade? Se, todos os dias, tiver de enfrentar a doença, a desordem, a solidão, a falta de cuidado, de amor? Nem todos os pássaros nasceram em ninhos prontos. O filhote de Cuco nasce empurrado para fora do ninho, sem depender de apoio e proteção parental. O Kiwi, sem asas, já nasce se locomovendo sozinho. O Beija-flor recebe comida no bico, sendo protegido em um ninho de ouro, com o completo apoio dos pais. O Cuco não tem casa, o Kiwi não tem asas. O Beija-flor, tendo tudo, não possui a força e a independência dos outros dois. Para vencer certas guerras, o combatente deve escolher suas batalhas. Aqueles que não morrem em campo, sobrevivem em corpo e paralisam por dentro, se não se envergam. Curvar é diferente de deitar. Quem se curva, resiste. Quem se deita, desiste. O bambu atravessa cinco anos sem apresentar resultados aparentes, cresce internamente. Porém, quando desponta e enraíza profundamente, levanta-se forte e aprende a lidar com o peso do gelo e as temperaturas baixas. Todo inverno anuncia a chegada de um grande verão. Ao chegar, o bambu se ergue, verde em uma tonalidade vibrante. O Kiwi não voa, e o Cuco não tem proteção familiar. Não desistem diante da falta de apoio e afeto, tornam-se as espécies mais fortes. Para sermos resistentes, devemos aceitar a beleza de nossos vazios, dificuldades e imperfeições.
Resenha crítico-pessoal de Saneamento Básico, o filme

Por Lorena Góis Saneamento Básico, O filme é um dos filmes brasileiros, que sempre apareciam como sugestão em minha página inicial do Youtube. Para minha surpresa, ele realmente estava completo na plataforma. Quem nem sempre teve assinaturas nas plataformas digitais, sabe que é difícil assistir de fato o filme que procura no Youtube, eu mesma só consegui assistir o que queria quando assinei um streamer. Indo direto ao ponto, o filme. Tentei assistir uma vez antes dessa, mas me estranhei com o enredo, estranhei porque o elenco era de peso, mas a história era boba demais (só mais tarde fui entender que isso era proposital). Fernanda Torres e Wagner Moura, quem está lendo isso em 2026 sabe bem o que esses dois representam para o cinema brasileiro, no filme eles são Marina e Joaquim, um casal que foi até a prefeitura de Linha Cristal, uma cidade fictícia que pertenceria ao Estado de Rio Grande do Sul, pedir a construção de um tratamento de esgoto em sua comunidade, uma fossa. Infelizmente, tiveram o pedido recusado, pois não havia verba para obras, mas havia uma oferta de investimento na produção de um filme de ficção para a prefeitura, vinda do governo federal, e caso um filme, estilo curta-metragem, fosse aprovado nesse concurso, a prefeitura ganharia o dinheiro, e talvez, investiria na obra da fossa. Esse era o conflito, por isso o chamei de bobo. Ainda sobre a história, o casal, Marina e Joaquim, resolveram entrar em um acordo de produzir um filme que falasse sobre a própria obra de tratamento de esgoto, para que o recurso de 10 mil reais fosse adquirido. Nesse ponto, foi até onde assisti a primeira vez, me questionei sobre o interesse na trama, mas fiquei curiosa para entender como funcionaria essas questões burocráticas de verbas públicas para fazer filmes. Outro dia, após Wagner Moura ser premiado com um Oscar e com o cinema brasileiro em evidência, decidi então que o filme não tinha como ser ruim, posicionei o celular e fui assistir. As cenas que seguiam traziam como coadjuvantes Camila Pitanga e Renato Garcia, interpretando Silene, irmã de Marina, e Fabrício, namorado de Silene. Por essa hora, já me convenci de que algo muito bom estava acontecendo em termos de produção cinematográfica. O filme saneamento básico, começava mostrar seu caráter metalinguístico, e sua qualidade em um filme que fala sobre filme. Partindo de minha estranheza, causada pela grosseira e irreverente forma como o filme era construído, fui ligeiramente me interessando pelo teor cômico da situação, que em brasileiro se descreve como, “o puro suco do Brasil”. No filme, o roteiro foi elaborado, e partia-se da história de uma moça que morava nas proximidades de um fosso, o acúmulo de sujidades transformou-se em um monstro, o vilão, que desperta e assassina Silene Seagal. O que acontece com a produção audiovisual é no mínimo caótica, não há planejamento refinado, somente um roteiro mal feito, com muitas ideias sem pensar em como serão aplicadas, uma câmera que tinha poucas fitas e não passaria por uma edição, só gravação sem cortes, e um elenco que não sabia atuar, feito completamente no improviso, o que resulta na entrega de um vídeo que fale de meio ambiente e tenha 10 minutos, apenas. Na trama, Zico, interpretado por Lázaro Ramos, salva o projeto, o personagem acaba sendo o diretor e editor, depois de ser contratado por Marina, que percebeu que sem cortes o vídeo estava ruim e contratou um editor. Zico melhora o roteiro e direciona os personagens em como fazer as cenas, capturar os ângulos e atuarem com mais emoção. Ele também é o responsável pela ideia que, para ele, faria a produção ganhar o prêmio, a cena final, uma completa causalidade, pois uma das fitas foi entregue para a edição com imagens de Silene às margens de um rio, rodeada de muitas árvores, posando para a câmera de biquíni. Tal fato se deu, pelo dono das fitas e da câmera, Fabricio, ser namorado de Silene que vez outra gostavam de fazer capturas mais íntimas, já que eram um casal. As cenas foram entregues a Zico, por descuido, e se tornou o encerramento perfeito da história. O editor decidiu que uma bela música e muitos efeitos de corte, mostrariam a beleza da natureza e por isso dariam uma ótima finalização ao filme que concorria a uma categoria de meio ambiente. A ideia, que seria controversa, foi aprovada pelos agentes do projeto e fez parte do produto que seria exibido a toda a cidade, mesmo sendo arriscada. O curta-metragem intitulado O monstro da fossa,, acabou agradando a todos da cidade, incluindo os patrocinadores e o prefeito. No final, o filme ganha o prêmio e faz da cidade de Linha Cristal um ponto turístico, onde pessoas de todos lugares visitam a belíssima cidade onde “O monstro do fosso” foi produzido, inclusive visitam o fosso, que nunca foi consertado. Saneamento básico, O filme de 2007, é dirigido e roteirizado por Jorge Furtado, e também conta com a atuação de outros grandes nomes do cinema brasileiro, como Paulo José, Tonico Pereira, Lúcio Mauro e Raphaella Sirena. De fato, uma comédia brasileira, que não surpreendentemente, fala sobre o que é fazer arte, e como é falar de questões reais usando a ficção, como é falar de cinema e de Brasil com uma linguagem cômica, desprendida da realidade, mas ainda tão fiel a ela. O investimento na cultura, a complexidade de gravar e produzir um filme, a banalização de problemáticas como a falta de saneamento básico e a indisposição Pública em intervir, o poder público que não tem interesse em investir no básico, mas o que lhe é de interesse, a habilidade brasileira de rir do que dói, a Arte como mostra a fuga do problema. Que experiência! Dessas singulares, que somente sendo uma espectadora brasileira, assistindo a um filme brasileiro, me traria.
Oirta Gomes Miranda: Uma Vida de Fé, Dedicação e Visão à Frente de Seu Tempo
Por Marcelo Miranda Oirta Gomes Miranda foi uma figura notável, cujo legado é marcado por sua fé inabalável, dedicação incansável à família, um profundo senso de justiça social e uma visão singular que a colocava à frente de seu tempo. Ela é lembrada não apenas como uma mulher exemplar e um pilar para sua comunidade, mas como uma inspiração constante, cuja vida tocou profundamente a de muitos. Como exemplo e testemunho de sua profunda religiosidade, participou ativamente da construção da Capela Mãe Rainha, que, além de ser um marco de fé, tornou-se um ponto turístico em Ubajara. Primeiros Anos e Formação: Nascida e criada em um lar de princípios cristãos sólidos, Oirta desde cedo demonstrou uma forte ligação com a fé. Seus pais e avós lhe transmitiram valores como honestidade, trabalho duro e um amor profundo por Deus e pelo próximo, que se manifestaria intensamente em seu senso de justiça e em suas ações ao longo da vida. Essa base foi fundamental para moldar seu caráter e direcionar suas escolhas. Laços Familiares e Suporte Inestimável: Casada com Manoel Miranda, Oirta construiu uma família abençoada, dedicando-se incansavelmente ao bem-estar e à educação de seus filhos. Além de seu núcleo familiar, Oirta estendia seu suporte a outros membros da família. Quando Marlene Gonçalves Miranda, esposa de seu cunhado Florival Miranda (já falecido), mudou-se do Rio de Janeiro para Ubajara com sua família, Oirta foi um porto seguro. Ela não hesitou em oferecer um emprego a Marlene no FUNRURAL – órgão governamental que garantia a aposentadoria de agricultores do interior do estado –, demonstrando sua generosidade e seu compromisso em ajudar quem precisava. Seu senso de justiça e sua perspectiva positiva eram evidentes em suas interações. Uma anedota familiar ilustra seu apreço pela natureza e sua fé: certa vez, Marlene, recém-chegada do Rio de Janeiro e de outra cultura, ao ver o céu carregado de nuvens, exclamou: “O céu está feio!” Tia Oirta, com sua perspicácia característica, corrigiu-a imediatamente: “Bate na boca, Marlene, o CÉU ESTÁ LINDO PRA CHOVER!” Um Coração para Causas Sociais e Visão de Futuro: Oirta sempre esteve profundamente ligada às causas sociais. Seu senso de justiça, herdado de seus pais e avós, era uma virtude proeminente. Ela não apenas acreditava em um mundo melhor, mas agia para construí-lo. Sua visão abrangia desde o apoio individual, como no caso de Marlene, até projetos mais amplos para o desenvolvimento de sua região. Em uma conversa reveladora, seu irmão Gomes de Moura contou que, ao visitá-la, a encontrou debruçada sobre uma vasta quantidade de papéis, escrevendo intensamente. Ao perguntar o que fazia, Oirta respondeu: “Estou elaborando um projeto para uma faculdade em Ubajara!” Este projeto, embora não tenha sido adiante na época, mostrava sua profunda preocupação com o acesso à educação em um tempo em que o estudo era de difícil acesso na Serra da Ibiapaba, solidificando sua imagem como uma mulher genuinamente à frente de seu tempo. Preservadora da Memória e Inspiradora de Gerações: Além de sua busca por um futuro educacional para a região, Tia Oirta também demonstrou um firme propósito na preservação da história e da memória familiar. Ela dedicou-se a reunir, pesquisar e classificar os escritos de seu bisavô, Manoel Ferreira de Miranda, cujo trabalho ela publicou sob o pseudônimo de “EMMES”. Essa homenagem resultou na publicação do “Diário de um Velho”, um trabalho inspirador que deu continuidade à pesquisa sobre a família, assegurando que o legado de seu bisavô e o seu próprio vivessem. Testemunhos e Reconhecimento: As virtudes de Oirta Gomes Miranda são amplamente reconhecidas. Seu irmão, Gomes de Moura, exclamou todas as suas qualidades em textos dedicados à sua vida. Para aprofundar-se e validar esses escritos, o leitor pode consultar os seguintes links: Conclusão: A vida de Oirta Gomes Miranda foi uma tapeçaria rica, tecida com fios de fé, amor familiar, justiça social e um espírito inovador. Sua memória perdura não só nas palavras de seu irmão e na gratidão de sua família, mas também no impacto duradouro que ela teve naqueles que a conheceram. Ela foi, sem dúvida, uma mulher que viveu com propósito e abençoou a vida de muitos.
Perfeição
Por Melissa Vasconcelos Não gosto de me transformar em nada que eu não seja. Não gosto de me transformar em coisa nenhuma, pois nunca me mantenho em mim mesma. Sempre nos transformamos em nada do que pensamos, e tudo o que pensamos sobre nós, tripudia-nos como Judas tripudiou Jesus Cristo. Somos os Judas das nossas vidas, criando máscaras e filtros de definição, quando, na verdade, não sabemos quem somos. Os conceitos que já julguei sobre mim e outros foram trabalhos vãos, mudando como a água que nas cachoeiras. Em cada gole, descobrimos nuances inesperadas e desconhecidas das nossas profundidades ou superficialidades, não sendo bicho, nem fera: sendo humano. Significa assim dizer que não somos completos de modo algum, e que ainda que criemos conceitos ou fórmulas, a qualquer hora, nos auto decepcionaremos: somos frágeis, falhos e falsos. Frágeis por não haver consistência em nossos princípios, de modo que todos estão sujeitos ao erro. Falhos, porque, ainda que a casa esteja bem forjada e preparada, os erros são o constante ofício daquele que se arrisca a viver. Falsos, porque exigimos dos outros a perfeição e a fidelidade de ser que nem em nós mesmos se há a confiança de cumpri-lo. Assim, somos todos estúpidos: julgando uns aos outros até os dias das mortes e apontando dedos nos narizes alheios, sem enxergar os poros inflamados do nosso próprio nariz. O nunca só existe a quem não vive, e o sempre é a mentira daqueles que negam a morte. O mundo apodrece na própria carne. A carne morre na própria pena.
Quem foi João Benício de Sousa?
Por Magna Rodrigues, filha de João Benício. João Benício de Sousa nasceu em Viçosa do Ceará em 2 de Setembro de 1933, cidade onde residiu até um pouco mais de 2 anos e somente aos 3 anos seus pais Antônio Valentim de Sousa e Hermínia de Almeida Braga resolveram morar em Ubajara – até seus últimos dias de vida, passando assim a maior parte de sua infância. Sua família se totalizou em oito irmãos, ele sendo o quarto a nascer. Chegou a estudar em escola particular, no Centro Educandário, com os professores Antônio Canilinha e o tão conhecido professor Assis. Fez o curso de admissão, como era chamado na época, curso que hoje conhecemos como ensino médio. A sua tendência musical foi surgindo com o tempo e logo procurou se aproximar de seu primeiro maestro e professor de música, o Tenente Naninho, onde com muita dificuldade financeira prestava serviço em troca do seu aprendizado. Mas como todo jovem curioso e ainda não satisfeito, resolveu ir embora para São Paulo com 19 anos, em 1948. Assim seguiu para a grande Capital por intermédio de um amigo que lá morava em uma pensão situada na Rua Tapajós, no Bairro Ponte Pequena, próxima a Estação da Luz, com poucos dias de sua chegada a essa pensão, também chegou um outro conterrâneo de nome Agenor Soares, se tornando seu companheiro de quarto e seu primeiro aluno, em seguida passaram a estudar no mesmo conservatório chamado de Conservatório de Música Vila Lobos onde sua mensalidade era patrocinada pela família Cavalcante, de Ubajara, na pessoa do Sr. Zé Cavalcante. João Benício chegou a formar sua própria orquestra, que se chamava Orquestra Benício. O grupo tocava em vários clubes, como: O MARCONDES, ITARIRI e VINTE E OITO. Chegou a se apresentar no Rio de Janeiro, fez diversos programas na TV RECORD, sendo assim bastante requisitado. Ele também formou um quinteto onde fazia os programas na Rádio Nacional somente aos domingos no horário das seis às oito da manhã com sucesso em audiência, tornado-se o mais conhecido e respeitado na área musical. Os ritmos mais executados da época era Rumba, Mambo, tcha-tcha-tcha, Tango,Bolero e Samba canção. Em 1955 arrumou seu primeiro emprego de carteira assinada em 7 de janeiro na Empresa VITRUM S.A. e saiu em 30 de maio de 1957. Em seguida, trabalhou na Indústria de Ampolas Esperança LTDA em 1 de junho de 1957 e saiu em 20 de Agosto de 1958, onde trabalhava de Auxiliar de Maquinista. Seguiu para a Companhia Paulista de Aniagens em 14 de maio de 1959 até 31 de julho de 1959. E assim passaram-se onze anos. Foi quando recebeu o seu tão sonhado Diploma de músico profissional, habilitado pela sua extraordinária capacidade de ler e escrever partituras. Mesmo sendo apto à tocar todo e qualquer tipo de instrumento musical, o Maestro João Benício tinha uma preferência particular e paixão pelos instrumentos de sopro saxofone e clarinete. E logo após a sua diplomação, no final do referido ano, regressou à cidade natal Ubajara, com 26 anos de idade. Agora finalmente titulado maestro, chega a casa de seus pais, onde a noticia logo se espalhou e causou grande rebuliço na cidade: onde todos queriam ver e ouvir João Benício tocar o som de seu instrumento que suava alto aos ouvidos de quem passava por perto. Nos meados de 1960 começa o namoro com Francisca Rodrigues de Sousa (Nenca) e exatamente 10 anos depois se casam e dessa união geram um casal de filhos Magnus Benicio e Magna Rodrigues. No ano de 1972 recebe um convite do Comandante da Polícia Militar do Piauí, Coronel Canuto, para fazer parte da Banda de Música e responsável em transcrever partituras para os demais instrumentos, com o cargo de Cabo assemelhado, levando a família para morar em Teresina. Somente com a morte de seu filho, e tendo recebido transferência para a cidade de Picos (não só para trabalhar como músico, mais também para exercer a profissão de policial), resolveu desertar e regressar novamente para Ubajara. Ao chegar, participou de várias bandas e orquestras: Benício e seu conjunto, Orquestra Santa Cecília (padroeira dos músicos), Orquestra Ritmos Internacionais e o cantor Wanderley. Bem como outras na cidade de Sobral, como: Orquestra do Dr. Amauri Barbosa e Banda, Os Panteras Bossa que pertencia ao presidente do Pálace Clube da cidade e dono de uma fábrica de chapéu, e em Fortaleza, trabalhou com Ivanildo e seu Conjunto. Ainda em Ubajara, ele passou pela Banda Ases do Planalto, na direção do Sr. Zequinha e quando saiu formou sua própria banda BQ Som em sociedade com o advogado Queiroz Pessoa, onde o mesmo, por motivos pessoais, resolve com passar do tempo, sair da sociedade e entregar sua parte ao maestro João Benício, que por sua vez muda novamente o nome da banda para Banda Tropical. Ao longo do tempo, a Prefeitura Municipal de Ubajara, na gestão do prefeito Salustiano Lima de Aguiar, convida o maestro para formar uma Banda Municipal com jovens, onde ele passou a ensinar aos interessados em uma sala perto da prefeitura e muitas vezes em sua própria residência.Sua maior preocupação era deixar esses jovens tocando e lendo partituras e somente quando almejou seu objetivo foi que se fixou como maestro assinando sua carteira em 01 de Dezembro de 1979 tendo a duração de 5 anos e 4 meses no dia 30 de Abril de 1985. Já na gestão do Prefeito Eudes Soares Cunha pede sua demissão pelo motivo de ter sido convidado para trabalhar em outra prefeitura, dessa vez na cidade de Coreaú como maestro regente e formando músicos, ficando por lá cerca de dois anos. Em 1988, em um festejo na cidade de Ubauna,tocando e maestrando a Banda Municipal de Coreaú, o mesmo começou a sentir fortes dores de cabeça durante o evento que o fez voltar a Ubajara e deixar de trabalhar devido sua enfermidade. Exatamente na data de 18 de Novembro do mesmo ano, em Fortaleza, foi detectado através de uma tomografia computadorizada a causa
21 anos em um dia
Por Melissa Vasconcelos Na noite do dia 02 de março de 2025, a população brasileira abre o champanhe para receber o reconhecimento de milhares de degraus sobrepostos à construção da cultura brasileira. “Tem maçã, laranja e figo, banana, quem não comeu? Manga não, manga é o perigo, quem provou quase morreu”. Ora, Juca Chaves! Não haveria trilha sonora mais oportuna para discorrer acerca da premiação do Oscar da noite do domingo passado. Para assistir à premiação, preparei a receita do suflê de queijo do livro de receitas da Eunice Paiva, em meio ao clima chuvoso da serra e aos ânimos carnavalescos de Ubajara à flor da pele. Se bem que, na minha cútis, o espírito de bloco e avanços do carnaval não pulsou muito bem esse ano. Porém, para o dia do Oscar, fazendo sol ou chuva, estando eu doce ou agridoce, deleitei-me a me concentrar em meu bom humor, pois não é sempre que se vê uma múltipla premiação – Cinema, História, Literatura, Direito – em uma só estatueta para a Arte Brasileira. A receita do suflê de queijo foi retirada do próprio livro “Ainda Estou Aqui” , que originou o filme de igual nome. Logo pronto, servi-me com o suflê quentinho, para que não murchasse. A preparação do suflê foi um afago ao meu peito, como o restante do meu dia 02 de março assim esteve em suas horas anteriores – pela manhã, recebi uma bolsa que minha madrinha de batismo comprou de presente para meus trabalhos e estudos, e ganhei uma linda blusa verde de crochê de minha madrinha de crisma. Os presentes, sejam de coisas ou de pessoas, precisam ser postos à mesa ao saírem de seus fornos, tal qual ao suflê de queijo, para que não murche. Todo amor, se não servido quente, murcha. O amor é como um suflê de queijo, fogoso e saudoso, bem servido para um dia de chuva. A você que lê, quando ganhares um suflê de queijo, não se demore a degustá-lo, para que não perca a chance de sentir a maciez de uma deglutição sem atrasos, de um paladar sem jogos. Não oportunamente, a celebração do Oscar caiu no domingo de carnaval, o período do ano mais comemorado pelos brasileiros em suas diferentes facetas e formas de articulação. Dessa vez, estendeu-se às vantagens para festejar a Cultura Brasileira, a Literatura Brasileira, a formação política, a História, os Direitos do nosso torrão: Marcelo Rubens Paiva, filho da advogada de Direitos Humanos Eunice Paiva e do deputado federal Rubens Paiva, escreveu geniosamente a obra “Ainda Estou Aqui”, celebrada pelo prêmio Jabuti de Literatura em 2016, na âncora do mundo das Letras, e, agora, quase dez anos depois, adaptado para abrir luz aos olhos e música aos ouvidos – atentos e desatentos – da população brasileira e internacional, em sua adaptação cinematográfica dirigida por Walter Salles de mesmo nome “Ainda Estou Aqui”, com sua resplandecente premiação no Oscar. Entre os anos de 1964 a 1985, parava a sociedade brasileira e se amortecem os juízos e os letrados para o abate dos corpos, o derrame de sangue, as bocas silenciadas, as famílias destruídas e as vidas subtraídas em favor de um regime sanguessuga. Não se abatiam somente as vidas dos deputados federais, defensores, escritores, médicos, músicos: retiravam-se as vidas dos filhos, dos pais, dos irmãos, do alicerce de famílias inteiras. Quando Marcelo Rubens Paiva perdeu seu pai para a repressão ditatorial, tinha apenas 11 anos ao ver, em 1971, a vida de seu pai sendo reduzida como se subtrai de um número de uma conta de matemática, sem retorno de notícias, sem documentações; ao ver sua mãe em luta, tomando as rédeas de uma família de cinco filhos, perdendo o seu grande amor e companheiro em meio a enxurrada de sangue jorrado nos asfaltos da sociedade brasileira, à época. Com certeza, a raiz da veia literária de Marcelo Rubens Paiva nasce da sensibilidade em meio a brutalidade – a manifestação artística de Marcelo por meio da escrita assemelha-se à floração do Mandacaru, sobrevivendo às secas em virtude da capacidade de reter água. As palavras de Rubens Paiva nasceram de socos no estômago, como se resgata da literatura lispectoriana, e de tantos socos e ferros ornamentados ao percorrer da estrada, transborda-se a retenção de palavras em arte resistente, em livro. A sensibilidade provém das rudezas, e a brutalidade provém da ausência de sensibilidade. Por isso, toda a arte costuma desaguar das faltas, e toda a seca costuma advir dos excessos. A quem mais falta, mais nascem mais frutos, ainda que estes demorem a frutificar. Admiramos hoje punho de um escritor que denuncia, por meio de sua brutal sensibilidade e de sua sensibilidade brutal, o rasgo de inúmeras famílias destruídas, o grito sufocado de sua mãe, a dor de cinco filhos em desespero e desamparo. Celebramos a força do cinema e da autenticidade brasileira, e mais do que nunca, lembramos da nossa história como primeiro suplente do juízo. O Oscar de melhor filme internacional para “Ainda Estou Aqui” é de Marcelo Rubens, de Eunice Paiva, de Walter Salles, de Fernanda Montenegro, de Fernanda Torres, de Selton Mello, é Nosso; sobre as nossas lutas, os nossos Direitos, as nossas conquistas, a nossa história, o nosso jeito de escrever, o nosso jeito de atuar, a nossa cultura plural: é para nos lembrar que ainda estamos aqui – não aos prantos, mas sorrindo, como símbolo de força, embate e resistência. Fomos para a bancada de jurados do Oscar o que um suflê de queijo quentinho é para os cinco sentidos dos corpos e um amor sem jogos é para o coração.
Zé Preto, o dançarino do mercado público
Por Edmundo Macedo (in memoriam) Quase todos os dias, Zé Preto dava presença nas bodegas (mercearia) do Mercado Municipal de Ubajara. Homem simples, descontraído, olhos ligeiramente castanhos no rosto negro davam-lhe um charme raro. Contava e ouvia histórias valentes em defesa dos oprimidos. Reclinado nos balcões das bodegas, conversava sobre o inverno, a seca e questionava os preços do café, feijão, milho, farinha, rapadura, gado leiteiro e para corte, plantio e colheita do CAROÁ (planta de fibras têxteis) lá pras bandas do Carrasco. Entre um trago e outro de cachaça cajueiro do sítio dos Pereira, o assunto de maior atração, era o momento político. José Preto foi um fervoroso e fiel amigo, do Major Pergentino Costa, chefe político de liderança comprovada em toda a serra da Ibiapaba. Este simpático homem vestia-se à capricho. Porte elegantérrimo, exibia feliz, camisas, calças, paletó e gravatas no mais alto estilo da época. Nos dias frientos, ostentava um capote preto (casaco comprido que fazia parte do uniforme militar), não esquecendo o chapéu-côco sobre os cabelos meio grisalhos. Quando aparecia à rua 31 de Dezembro, rumo ao comércio local, seu andar firme parecia um príncipe indo ao encontro de uma princesa Muzunga de raça nobre. Gostava de jogar baralho com o seu grande amigo e protetor Major Pergentino Costa, sem dúvida um dos filhos de Ubajara merecedor de uma estátua na Avenida principal da cidade. Seu amor a Ubajara faz parte da história. O carismático Zé Preto teve como vício e feitiço maior, a dança. Bailava todos os ritmos numa sintonia de passos e movimentos. Não perdia um SAMBA (nome dado às festas nos sítios àquela época). Em salões enfeitada com papel crepom, bandeirolas e laços de fita, a festa não tinha hora certa para terminar. As latadas e terreiros de chão com barro batido ficavam apinhados de dançarinos. Das 8 da noite até madrugada Gonçalo Galvão, o “sanfoneiro” mandava som no baião, samba, forró, chote que rolavam soltos pelas quebradas da serra. G. Galvão e seus dois companheiros (um no pandeiro e outro no ganzã) não dispensavam a quente e saborosa Cajueiro. Haja fôlego para acompanhar os dedos ágeis e precisos nos botões niquelados da sanfona alaranjada do G. Galvão. Cadê o tira-gosto? – gritavam panderista e ganzarista. De repente, surge o maior festeiso e dançarino daquelas paróquias, Zé Preto, todo sorridente, felicidade nos olhos, trazendo nas mãos uma bacia de ágata tamanho médio. Dentro dela, pedacinhos de avoantes chumbadas na véspera, bem torradinhas misturadas na farinha da Serra Grande. Peça um chote, Zé Preto! – pedia Carolina do Pitanga. Num abrir e fechar dos olhos, o chote com G Galvão. Ninguém ficou sentado e nem de pé, todos no salão. A poeria subia rápida com cheiro de terra molhada. Os casais discretamente abraçados no vai-e-vem do chote, exclamavam à meia-voz: “É hoje, Manoel! É hoje, Antônia! Tá bom demais”. Ao término da quintura do chote, uma pausa. Palmas e vivas, formas de agradecer daquela gente humilde e bonita, espalhada na região de clima mais saudável do nosso Ceará. Convivi com este homem honrado e estimado. Em certa ocasião, falou-me: Deixe que eu leia sua mão direita, meu jovem! Ao esticá-la na posição certa, vi que estava amarelada. Rápido pensei e concluí: foi a manga doce que comera na bodega da minha Tia Lúcia. De imediato, apresentei-lhe de novo as linhas da minha mão. Zé Preto, bem calmo, revelou: Meu jovem Edmundo, irás viver um bocado. Nunca lute contra os indefesos; a luta será desigual. Fiquei em silêncio, baixei a cabeça, olhei o chão verde e senti emoção de viver mais um pouco. Os anos caminharam rápido, Um dia em São Paulo, soube que o romântico e simpático Zé Preto havia nos deixado apra sempre. Tenho absoluta certeza que ele está junto aos magos-advinhos em céu todo especial. Zé Preto! Antes que termine este “recordar”, escute este recado: “As dançarinas Pitanguenses, Pavunenses, Olindenses, Gameleirenses, Amazonenses e Itaperacimenses nascidas no município de Ubajara enviam-lhe de coração, eternas saudades. Até hoje sentem falta dos teus passos mágicos e estonteantes ao bailar o samba, o baião, o forró, a valsa e nosso puríssimo chote. Zé Preto! Estou pertinho dos 70 e uns anos. Vivi um bocado; quero mais, adoro a vida. Tuas luzes.
Conheça a história do sítio Matriz
Por Teresinha Araújo Moura O atual Município de Ubajara era habitado primitivamente pelos índios tabajaras. A primeira penetração foi feita por volta de 1604, por Pero Coelho de Souza, que tentou conquistar as terras férteis da serra de Ibiapaba. Auxiliado pelos jesuítas Francisco Pinto e Luís Figueira, promoveu a pacificação dos índios e o desenvolvimento das aldeias que começavam a proliferar às margens do arroio Árabê. A obra dos jesuítas foi interrompida, no entanto, com o trucidamento do padre Francisco Pinto, pelos índios tocarijus, durante uma cerimônia religiosa, no dia 11 de janeiro de 1608, no local onde hoje se ergue a cidade de Ubajara. Em 1877, acossadas pela seca e pela falta de viveres, as famílias de Bartolomeu Fernandes do Rego, Manuel Luis Pereira, Manuel Soares e Silva e Francisco Soares e Silva emigraram das zonas atingidas, instalando-se nos sítios Buriti, Pitanga e Pavuna. Quando a grande seca as atingiu, deslocaram-se para o lado sul de uma lagoa, denominada lagoa do jacaré, ali organizando um arruado que se chamou Jacaré, primitivo nome do Município. O núcleo foi se desenvolvendo, até que, em 1884, um incêndio o destruiu, obrigando os moradores a passarem para terras do lado oposto da lagoa. Em poucos meses reconstruíram o povoado. Em 1886 foi erguida a capela em honra de São José, em terras doadas pelos beneméritos cidadãos José Rufino Pereira, José Lopes Freire e Joaquim Mulato, em 26 de Janeiro de 1883. A capela de São José foi sagrada no ano seguinte pelo primeiro vigário, Padre Manoel Lima de Araújo, da freguesia de São Pedro de Ibiapina, a cuja jurisdição pertenceu durante muitos anos. O distrito de paz foi criado em 1890, com a denominação de Vila de Jacaré. Em 1915, por força da Lei 1.279, de 24 de Agosto, da Assembleia Legislativa do Estado do Ceará, conseguiu o Município autonomia administrativa, passando a denominar – se Ubajara. Hoje, com a população em torno de 35 mil habitantes foi agraciada com uma Casa de Show de alto nível – Castelo Clube – que oferece estrutura para a execução dos mais diversos tipos de eventos, desde Feiras, Congressos, Workshops, Shows Culturais e Festas Sociais (Casamentos, Bodas, Debutantes, Aniversários, etc.). Equipamento privado que veio enriquecer a infraestrutura de apoio ao desenvolvimento do turismo local e regional e ampliar e fortalecer o nosso calendário de eventos. Ubajara, que trabalha para consolidar os seus eventos tradicionais regionais como FEPAI – Feira de Produtos Artesanais e Industriais da Ibiapaba; a Exposição Agropecuária da Ibiapaba; Grandes Carnavais; Tradicional Reveillon, Festejo Junino; Paixão de Cristo; e a Semana do Município, além dos eventos esportivos e ligados à natureza, agora quer investir nos eventos de Congressos e Workshops. História do Sítio Matriz Sítio Matriz, sediado em Ubajara-CE, perfazendo uma área de 93he, sendo 55he de mata nativa, resquícios de Mata Atlântica, pertencente a família Aristides – homens e mulheres que estiveram a frente do seu tempo, sob a matrícula Nº 1617 de 21.05.17 do Cartório de Imóveis de Ubajara-CE – Nº na Receita Federal 5.126.861-2 e Nº no INCRA 147.060.003.395-6. O casal Joaquim Aristides dos Santos e Maria Soares Santos tiveram 10 filhos, sendo 05 homens e 05 mulheres, conseguiu formar 02 deles, um em medicina e o outro em Engenharia Civil, os demais homens assumiram a gestão dos negócios da família – agropecuária, e as mulheres, como era peculiar à época, direcionaram-se para as atividades domésticas, apenas uma delas adentrou para a vida religiosa – Ir. Carlota atuando em Recife, mais precisamente no Hospital Português, onde coordenou o centro cirúrgico, daquele hospital, por vários anos. Destaca-se especialmente o filho Valdemar Aristides dos Santos – que geriu os sítios situados na Serra, mais precisamente em Ubajara-CE e Francisco Aristides dos Santos – que geriu as fazendas situadas em Cariré e Tamboril, localizadas no semiárido cearense. Família regida por princípios éticos sólidos, pautada por uma amizade fraternal sem igual, mantiveram os bens em condomínio e todos se apoiavam na gestão, e todos participavam da lucratividade. Registrou-se a participação especial do engenheiro/construtor Dr. Ariolino Aristides dos Santos e Dr. Pedro Osvaldo Aristides dos Santos – médico, como também de Raimundo Aristides dos Santos – o homem de frente dos serviços – o operacional. Um fato curioso desta prole de 10 filhos foi que apenas 03 casaram-se – Valdemar Aristides com a sobrinha Antônia Mourão Santos – Suraia, Dr. Ariolino Aristides dos Santos, com Suraia Caram, uma mineira com descendência árabe e Maria Santos Mourão com um agropecuarista político de Nova Russas Gonçalo de Aquino Mourão, os demais viveram na solteirice. Fato curioso é o que não faltam nesta família, três deles – Seu Chico, Anízia e Abigail viveram mais de um século. Registra-se na 3ª geração a participação especial de Mouranízia Santos Mourão (Cariré) – a nossa tia Mourinha, que se dedicou especial aos ternos cuidados aos tios, e a gestão das fazendas do sertão, inovando no comércio, com a ajuda do seu sobrinho Joaquim Aristides Neto com as Lojas Caiçaras, em Cariré e Pacujá e em Ubajara com a Movelaria Popular. Nos áureos tempos da década de 50, mais precisamente no apogeu das culturas da cana-de-açúcar e café havia no Sítio Matriz uma locomotiva ao vapor, que gerava energia para alimentar todo um complexo, constituído de engenho de rapadura, serraria e máquina de pilagem de café. No engenho, fabricava-se rapadura, a qual era comercializada para o sertão, através de comboieiros e caminhões via Crateús. Já na serraria, preparavam-se madeiras destinadas à construção, tanto as de produção própria, como também terceiros, de quase toda a Ibiapaba traziam suas matérias-primas – a madeira, para ser beneficiada no Sítio Matriz, inclusive o madeiramento dos Patronatos de Viçosa do Ceará e Ubajara foi oriundo de lá. Com a máquina de pilagem de café, não foi diferente, tanto beneficiava o café de sua própria produção, como também beneficiava o café de outrem. Desta forma o Sítio Matriz foi destaque em toda a região Ibiapabana. Conforme o Livro de anotações da Prefeitura Municipal de Ubajara, denominado – Exploração
Casa Grande dos Salvinos: História, Herança e Resistência
Por Jonathan Ferreira Gomes Localizada no Sítio Paus Altos dos Salvinos, a então conhecida casa grande é resistente aos anos e às mudanças climáticas. Construída pelo senhor Miguel Ferreira Gomes (1885 – 1969), conhecido por Miguel Salvino, estimadamente na segunda década do século XX quando se casou com Josefa Rodrigues da Silva. O imóvel fica no terreno de 18 hectares que comprou do Senhor Manuel Narciso de Brito numa quantia de 500 mil réis que foi deixada como herança para a sua filha Anísia Ferreira Gomes. Conta com nove cômodos que abrigava todos os filhos e noras do senhor Miguel. O piso ainda se encontra em estado original. Há um sótão de madeira característico das casas antigas das primeiras décadas do século passado que servia como depósito de alimentos. A casa grande já foi símbolo de prosperidade: ao seu redor havia extensos canaviais e cafezais, além de um engenho e uma casa de farinha, onde se produzia os alimentos da família. Todos trabalhavam e ajudavam-se mutuamente. Nesse contexto, a família do Senhor Miguel Salvino foi uma das maiores produtoras de café, de farinha e dos demais derivados da cana de açúcar do século XX da cidade de Ubajara. Muitos moradores antigos da localidade se lembram até hoje das aulas de catecismo ministradas na casa grande pelas filhas do Miguel: a Anísia e a Francisca. Ao longo do tempo, a casa sofreu alterações, tais como o acréscimo de dois cômodos extras para acomodar seu filho Vicente Ferreira Gomes e sua esposa, na ocasião do casamento dos mesmos. Passou por mudanças em suas paredes para a instalação de energia elétrica. Já mais tarde foi residência de sua neta Maria das Graças Silva com sua família, seu marido e seus sete filhos. Atualmente a casa pertence ao neto do senhor Miguel, o senhor Francisco Ferreira Cunha, que a comprou de sua tia-avó Anísia. A casa grande atualmente encontra-se desabitada e tomada por morcegos. Suas paredes e pisos ainda continuam perfeitos, tendo sido feitas algumas intervenções em sua constituição como a colocação de portas adicionais e janelas por parte da Senhora Maria das Graças Silva. Não há uma manutenção diária dos cômodos, mas algumas telhas são repostas de vez em quando devido caírem com o tempo por conta de ventanias e chuvas fortes. As paredes sofreram algumas alterações sendo colocadas emendas de metal para amenizar algumas rachaduras que apareceram com o decorrer do tempo. Não há ocorrência de atos de vandalismo, como pichações ou depredação. Nesse contexto, a casa grande é a única que sobreviveu ao tempo ficando de pé para relembrar o passado longínquo dos seus antigos donos. Ela não pode ser substituída ou perder-se no esquecimento. Ela é única na comunidade Paus Altos dos Salvinos, sendo admirada e respeitada por todos os moradores que conhecem a sua história. REFERÊNCIAS: Arquivo Público do Estado do Ceará. Processo de Demarcação de Terras: Villa de Ubajara – Sítio Paus Altos: 1923-1924. Fortaleza – CE. Acesso em março de 2017. Inventário de partilhas de bens, 1970. Miguel Ferreira Gomes. Fórum Municipal de Ubajara. Acesso em abril de 2017. Relatos Orais dos moradores do Sítio Paus Altos: Edgar Cunha Silva, in memoriam (1922 – 2022); Expedito Ferreira Gomes; Francisco das Chagas Ferreira; e Maria das Graças Silva. Jonathan Ferreira Gomes é licenciado em Física pela Universidade Estadual Vale do Acaraú (2011); especialista em Metodologia de Ensino da Física pela Faculdade Integrada da Grande Fortaleza (2013); e em Gestão Escolar pela Faculdade Futura (2021). É Mestre em Ensino de Física pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE) do Campus Sobral (2022). Atualmente é professor de Física das escolas EEM Professora Rosa Martins Camelo Melo e EEM Monsenhor Melo do município de Ibiapina.