Academia promove debate no dia Internacional da Mulher

Por Monique Gomes O Hotel Fazenda Engenho Velho foi palco de um encontro promovido pela Academia Ubajarense de Letras e Artes no domingo, dia 8 de Março. Dessa vez, com a presença também de grandes personalidades de diversos segmentos da sociedade. O evento foi organizado por Nicollas Pereira, presidente; Ronildo Nascimento, secretário; Teresinha Moura, tesoureira. Após a declamação de poesias, a programação seguiu com a abordagem de um tema sério que partiu de uma conversa no grupo de WhatsApp da Academia. O Dia Internacional da Mulher é, essencialmente, uma data política. A alusão ao 8 de Março existe em memória das 146 mulheres que morreram queimadas, sufocadas ou ao pularem do nono andar de uma fábrica que pegou fogo. As portas estavam trancadas para evitar que as funcionárias saíssem antes do fim do expediente ou fizessem pausas. A partir desse episódio, cresceram as mobilizações por melhores condições de trabalho, segurança nas fábricas e direitos para as trabalhadoras. É impossível não relacionar o passado com o presente. Por mais que tenhamos conquistado muitos direitos, é difícil conviver com o medo de ser mulher. Todos os dias, mulheres são mortas, abusadas, ou violentadas. Uma pessoa é vítima de estupro a cada 6 minutos. Quatro são mortas diariamente. Detalhe importante: se você nunca praticou nenhum tipo de violência contra a mulher, que bom. Isso não é sobre você. Se o seu marido é exemplar, maravilha. Isso também não é sobre você. Estamos falando de um sistema machista e misógino que se transformou em máquina de matar meninas e mulheres. É impossível ser indiferente ao noticiário. Freira é estuprada dentro do convento; menina é violentada por quatro homens, mulher é arrastada no chão até ficar com as pernas amputadas e morrer logo depois; marido mata os filhos e tira a própria vida. De onde vêm tanto ódio às mulheres? Há uma crise na masculinidade? Questionei os homens. Sei que é desconfortável. Homens também morrem todos os dias – mas há uma enorme diferença aqui. Podemos discordar de muitas coisas, mas assassinato é totalmente diferente de feminicídio. Diferença entre assassinato e feminicídio Assassinato é o termo geral para a morte intencional de uma pessoa. Pode acontecer por vários motivos: disputa, vingança, crime organizado, brigas, assaltos, conflitos pessoais ou outras circunstâncias. Nesse caso, a vítima não é morta por causa do gênero, mas por razões variadas que poderiam envolver qualquer pessoa. Já o Feminicídio é um tipo específico de homicídio em que a mulher é morta por ser mulher. Ou seja, o crime está ligado a fatores como misoginia, controle, sentimento de posse, violência doméstica, ciúme, rejeição ou desprezo pela autonomia feminina. Muitas vezes é praticada por parceiros ou ex-parceiros. No Brasil, o feminicídio foi reconhecido juridicamente pela Lei do Feminicídio, que alterou o Código Penal Brasileiro para tratar esse crime como uma forma qualificada de homicídio, justamente para destacar que existe uma violência dirigida especificamente contra mulheres por razões de gênero. Essa distinção não significa que a morte de homens seja menos grave — toda vida perdida é uma tragédia. A diferença é que o conceito de feminicídio busca dar visibilidade a um padrão específico de violência que atinge mulheres justamente por causa de estruturas sociais de poder, desigualdade e desprezo pelo feminino. Entender essa diferença ajuda a discutir o problema com mais precisão, criar políticas de prevenção e reconhecer quando uma violência não é apenas um crime individual, mas parte de um fenômeno social mais amplo. Mulher no mercado de trabalho A entrada no mercado de trabalho aumenta o que economistas chamam de “poder de barganha” da mulher. Com renda própria, ela deixa de depender do agressor para comer ou sustentar os filhos, o que desestabiliza o controle que o agressor tenta exercer. De acordo com dados da Agência Brasil (2025) e do DataSenado, mulheres que não trabalham têm 3 vezes mais chances de sofrer violência doméstica. Casos de feminicídio costumam estar ligados a contextos onde a mulher apenas disse “não”, tentou se separar ou ganhar autonomia. Quem é responsável pela criança? A educação de uma criança é responsabilidade da família e da sociedade, não um fardo exclusivo da mulher. Por que a culpa recai sobre a mãe que trabalha e não sobre o pai que, muitas vezes, é ausente mesmo estando em casa ou não divide as tarefas de educar? Hoje, o ódio contra as mulheres não nasce na cozinha de casa, mas nas telas. Os jovens são bombardeados por influenciadores que pregam misoginia e a “retomada da dominância masculina”. Se um adolescente é misógino, geralmente está consumindo conteúdo que valida o machismo como forma de “autoafirmação”. O Estado, a escola e a internet têm papéis fundamentais na formação de valores de uma pessoa. Educação sexual não é ensinar sexo O encontro promovido pela Academia Ubajarense de Letras também abordou violência infantil. A criança vítima de estupro demora anos para descobrir que está sendo abusada. Por outro lado, a maioria dos pais se escandalizam ao ouvir o termo “educação sexual”. Quando crianças e adolescentes recebem informação adequada à idade, aprendem coisas básicas e fundamentais: que o corpo tem limites, que existem partes íntimas, que ninguém pode tocar nelas sem consentimento, e que qualquer situação estranha deve ser contada a um adulto de confiança. Esse tipo de educação não incentiva atividade sexual. Pelo contrário: ajuda a prevenir abusos. Falar de educação sexual é, antes de tudo, falar de proteção da infância. É dar às crianças palavras, informação e segurança para reconhecer situações perigosas e pedir ajuda.
Literatura como ferramenta de prevenção à violência

Por Monique Gomes Durante décadas, perguntamos se Capitu traiu. Dissecamos seus olhos de ressaca. Julgamos seus silêncios. Transformamos uma suspeita masculina em quase sentença. Por trás da moral, há a construção lenta de uma acusação baseada em insegurança, imaginação e sentimento de posse. Bentinho não arrastou Capitu por mais de um quilômetro depois de atropelá-la, mas matou a reputação dela. Há algo perversamente atual em Dom Casmurro: o narrador é confiável apenas para si mesmo. Ele organiza os fatos para caberem na sua dor. Ele escolhe o que contar. Constrói a culpa da mulher que não tem voz. Hoje, os jornais estampam números que doem. Quatro feminicídios por dia. Mulheres assassinadas por companheiros, ex-companheiros, homens que dizem amar. Casos de violência vicária — quando o agressor atinge os filhos para ferir a mãe. Denúncias de abuso, pedofilia, silêncios forçados dentro de casa. Há uma verdadeira guerra de gêneros acontecendo agora – mas é só um lado que ataca. O termo ‘violência doméstica’ é curioso. O agressor é a casa ou o homem? Vamos corrigir: VIOLÊNCIA MASCULINA. Quem sobrevive não se cura. É uma ferida que se abre novamente sempre que acontece com outras mulheres. Quando lemos sobre vítimas de abuso dentro da própria casa, percebemos que o problema não é novo. Sempre houve um pacto de silêncio. Sempre houve alguém dizendo que era exagero. Em 1992, o cineasta Woody Allen foi acusado de abuso sexual pela filha adotiva, Dylan. Ninguém acreditava. O caso foi investigado, a criança concedeu nove entrevistas para relatar o ocorrido. Nove. Ela reviveu o abuso várias e várias vezes. Além de negar, Allen jogou a culpa em Mia Farrow, a mãe. Sua parceira na vida e no cinema há décadas. Ele a acusou de induzir a menina a mentir. Uma série documental foi produzida pela HBO Max em 2021, Allen Contra Farrow. Veja bem. Ele também abusou de outra filha adotiva mas, como ela se tornou adolescente, o vencedor de 4 Oscars construiu uma narrativa de que estava apaixonado e se casou com a garota para sustentar a farsa. Ocupe o lugar de Mia Farrow por alguns segundos. Ela descobre que o grande amor da vida dela é um pedófilo que se aproveita da inocência das próprias filhas. Mia perdeu o marido, ou a ilusão do marido ideal, ficou dilacerada pelas filhas e ainda teve que convencer as pessoas que o vilão era ele, não ela. Ocupe o lugar de Gisele Pelicot por alguns segundos. Imagine descobrir que o homem com quem você está casada há 50 anos não apenas traiu sua confiança — mas organizou, silenciosamente, sua violação? Não uma vez. Não por impulso.Mas de forma planejada: havia outros homens. Muitos. A violência contra a mulher não é apenas um desvio individual. É um fenômeno cultural. E o que isso tem a ver com LITERATURA? Quando identificamos um narrador manipulador, reconhecemos discursos que distorcem fatos. Quando debatemos consentimento em um romance, ensinamos limites na vida real. A literatura não impede a violência, mas forma pessoas mais conscientes.
Cuco, Kiwi e Bambu

Por Melissa Vasconcelos Gomes O provérbio do bambu chinês é uma sabedoria e um desafio. No período de inverno, a árvore se curva, porque se permanecesse ereta em meio às tempestades, quebraria. É comparável ao barco que rema contra a maré: a bússola perde a rota, o barco afunda, e nós nos ferimos ou morremos. E se o cotidiano for uma tempestade? Se, todos os dias, tiver de enfrentar a doença, a desordem, a solidão, a falta de cuidado, de amor? Nem todos os pássaros nasceram em ninhos prontos. O filhote de Cuco nasce empurrado para fora do ninho, sem depender de apoio e proteção parental. O Kiwi, sem asas, já nasce se locomovendo sozinho. O Beija-flor recebe comida no bico, sendo protegido em um ninho de ouro, com o completo apoio dos pais. O Cuco não tem casa, o Kiwi não tem asas. O Beija-flor, tendo tudo, não possui a força e a independência dos outros dois. Para vencer certas guerras, o combatente deve escolher suas batalhas. Aqueles que não morrem em campo, sobrevivem em corpo e paralisam por dentro, se não se envergam. Curvar é diferente de deitar. Quem se curva, resiste. Quem se deita, desiste. O bambu atravessa cinco anos sem apresentar resultados aparentes, cresce internamente. Porém, quando desponta e enraíza profundamente, levanta-se forte e aprende a lidar com o peso do gelo e as temperaturas baixas. Todo inverno anuncia a chegada de um grande verão. Ao chegar, o bambu se ergue, verde em uma tonalidade vibrante. O Kiwi não voa, e o Cuco não tem proteção familiar. Não desistem diante da falta de apoio e afeto, tornam-se as espécies mais fortes. Para sermos resistentes, devemos aceitar a beleza de nossos vazios, dificuldades e imperfeições.
Resenha crítico-pessoal de Saneamento Básico, o filme

Por Lorena Góis Saneamento Básico, O filme é um dos filmes brasileiros, que sempre apareciam como sugestão em minha página inicial do Youtube. Para minha surpresa, ele realmente estava completo na plataforma. Quem nem sempre teve assinaturas nas plataformas digitais, sabe que é difícil assistir de fato o filme que procura no Youtube, eu mesma só consegui assistir o que queria quando assinei um streamer. Indo direto ao ponto, o filme. Tentei assistir uma vez antes dessa, mas me estranhei com o enredo, estranhei porque o elenco era de peso, mas a história era boba demais (só mais tarde fui entender que isso era proposital). Fernanda Torres e Wagner Moura, quem está lendo isso em 2026 sabe bem o que esses dois representam para o cinema brasileiro, no filme eles são Marina e Joaquim, um casal que foi até a prefeitura de Linha Cristal, uma cidade fictícia que pertenceria ao Estado de Rio Grande do Sul, pedir a construção de um tratamento de esgoto em sua comunidade, uma fossa. Infelizmente, tiveram o pedido recusado, pois não havia verba para obras, mas havia uma oferta de investimento na produção de um filme de ficção para a prefeitura, vinda do governo federal, e caso um filme, estilo curta-metragem, fosse aprovado nesse concurso, a prefeitura ganharia o dinheiro, e talvez, investiria na obra da fossa. Esse era o conflito, por isso o chamei de bobo. Ainda sobre a história, o casal, Marina e Joaquim, resolveram entrar em um acordo de produzir um filme que falasse sobre a própria obra de tratamento de esgoto, para que o recurso de 10 mil reais fosse adquirido. Nesse ponto, foi até onde assisti a primeira vez, me questionei sobre o interesse na trama, mas fiquei curiosa para entender como funcionaria essas questões burocráticas de verbas públicas para fazer filmes. Outro dia, após Wagner Moura ser premiado com um Oscar e com o cinema brasileiro em evidência, decidi então que o filme não tinha como ser ruim, posicionei o celular e fui assistir. As cenas que seguiam traziam como coadjuvantes Camila Pitanga e Renato Garcia, interpretando Silene, irmã de Marina, e Fabrício, namorado de Silene. Por essa hora, já me convenci de que algo muito bom estava acontecendo em termos de produção cinematográfica. O filme saneamento básico, começava mostrar seu caráter metalinguístico, e sua qualidade em um filme que fala sobre filme. Partindo de minha estranheza, causada pela grosseira e irreverente forma como o filme era construído, fui ligeiramente me interessando pelo teor cômico da situação, que em brasileiro se descreve como, “o puro suco do Brasil”. No filme, o roteiro foi elaborado, e partia-se da história de uma moça que morava nas proximidades de um fosso, o acúmulo de sujidades transformou-se em um monstro, o vilão, que desperta e assassina Silene Seagal. O que acontece com a produção audiovisual é no mínimo caótica, não há planejamento refinado, somente um roteiro mal feito, com muitas ideias sem pensar em como serão aplicadas, uma câmera que tinha poucas fitas e não passaria por uma edição, só gravação sem cortes, e um elenco que não sabia atuar, feito completamente no improviso, o que resulta na entrega de um vídeo que fale de meio ambiente e tenha 10 minutos, apenas. Na trama, Zico, interpretado por Lázaro Ramos, salva o projeto, o personagem acaba sendo o diretor e editor, depois de ser contratado por Marina, que percebeu que sem cortes o vídeo estava ruim e contratou um editor. Zico melhora o roteiro e direciona os personagens em como fazer as cenas, capturar os ângulos e atuarem com mais emoção. Ele também é o responsável pela ideia que, para ele, faria a produção ganhar o prêmio, a cena final, uma completa causalidade, pois uma das fitas foi entregue para a edição com imagens de Silene às margens de um rio, rodeada de muitas árvores, posando para a câmera de biquíni. Tal fato se deu, pelo dono das fitas e da câmera, Fabricio, ser namorado de Silene que vez outra gostavam de fazer capturas mais íntimas, já que eram um casal. As cenas foram entregues a Zico, por descuido, e se tornou o encerramento perfeito da história. O editor decidiu que uma bela música e muitos efeitos de corte, mostrariam a beleza da natureza e por isso dariam uma ótima finalização ao filme que concorria a uma categoria de meio ambiente. A ideia, que seria controversa, foi aprovada pelos agentes do projeto e fez parte do produto que seria exibido a toda a cidade, mesmo sendo arriscada. O curta-metragem intitulado O monstro da fossa,, acabou agradando a todos da cidade, incluindo os patrocinadores e o prefeito. No final, o filme ganha o prêmio e faz da cidade de Linha Cristal um ponto turístico, onde pessoas de todos lugares visitam a belíssima cidade onde “O monstro do fosso” foi produzido, inclusive visitam o fosso, que nunca foi consertado. Saneamento básico, O filme de 2007, é dirigido e roteirizado por Jorge Furtado, e também conta com a atuação de outros grandes nomes do cinema brasileiro, como Paulo José, Tonico Pereira, Lúcio Mauro e Raphaella Sirena. De fato, uma comédia brasileira, que não surpreendentemente, fala sobre o que é fazer arte, e como é falar de questões reais usando a ficção, como é falar de cinema e de Brasil com uma linguagem cômica, desprendida da realidade, mas ainda tão fiel a ela. O investimento na cultura, a complexidade de gravar e produzir um filme, a banalização de problemáticas como a falta de saneamento básico e a indisposição Pública em intervir, o poder público que não tem interesse em investir no básico, mas o que lhe é de interesse, a habilidade brasileira de rir do que dói, a Arte como mostra a fuga do problema. Que experiência! Dessas singulares, que somente sendo uma espectadora brasileira, assistindo a um filme brasileiro, me traria.
De imortal para imortal
Por Augusto Eufrásio “As palavras faladas voam, as escritas permanecem” verba volant, scripta manent. Relembrando nesta data o imortal Monsenhor Tarcísio, busquei rever em meus arquivos os vínculos entre dois dos imortais patronos da Academia Ubajarense de Letras: …quinta-feira 12 de dezembro de 2013, ao rogar pela bênção ao reverendo e receber aquele afetuoso “tapinha”. Identifiquei-me como Augusto, neto do ex-vereador “Chico Augusto” e como esquecer do seu conselho, “escreva sobre a história da sua família, pois há muito o que se contar”, após isso convidou-me para ir a sua residência para me presentear com um livro do imortal de nossa Academia: Raimundo Eufrásio (figura 01). No entanto, ao chegar em casa e folhear o então livro, ao ler a dedicatória do livro a maior homenagem naquele dia era para o próprio Monsenhor Tarcísio, que assim recebeu do escritor Raimundo Eufrásio: “Ofereço com muito prazer este modesto livrinho de minha autoria ao nobre e virtuoso Monsenhor Tarcísio de Melo, digno e operoso Vigário de Ubajara, minha amada terra natal, encravada nos cimos da Ibiapaba, onde o céu é mais perto e a alma humana é mais pura, pelos exemplos de grandeza Cristã do autêntico apóstolo de Cristo que tanto tem honrado à Igreja e a Deus para a felicidade de todos os Ibiapabanos e suas piedosas famílias.” Fortaleza, 16 de fevereiro de 1993.- Raimundo Eufrásio de Oliveira
Academia Ubajarense participa do desfile de 7 de Setembro
Por Monique Gomes Dias após a cerimônia de posse dos novos membros, realizada em 27 de agosto na Câmara de Vereadores, a Academia Ubajarense de Letras e Artes (AULA) marcou presença no tradicional desfile cívico de 7 de Setembro, em Ubajara. O evento reuniu instituições, escolas e representantes da sociedade civil em uma manhã marcada por cores, emoção e sentimento de patriotismo. A participação da AULA reforçou o papel da cultura, da literatura e das artes como pilares fundamentais da identidade nacional e do desenvolvimento social. “Essa batida da marcha traz memórias felizes da adolescência”, disse Monique Gomes. O Dia da Independência do Brasil, celebrado em todo o país, é uma data que convida à reflexão sobre a soberania, a democracia e os valores que unem a população brasileira. Para os acadêmicos ubajarenses, estar presente no desfile foi também uma forma de reafirmar o compromisso da instituição com a preservação da memória cultural e com o fortalecimento dos laços comunitários.
Clube do Livro 2026

O novo Clube do Livro da Academia Ubajarense de Letras e Artes traz para você leituras organizadas em um cronograma leve, pensado para cerca de três páginas por dia. Um convite perfeito para quem busca constância, incentivo à leitura e a troca com uma comunidade de leitores interessados em ampliar a visão de mundo por meio de grandes obras. Um livro por mês, um encontro por mês. Confira a lista dos livros de 2026. Leitura de Janeiro 2026 O Conto da Ilha Desconhecida, por José Saramago 44 páginas Um homem vai ao rei e lhe pede um barco para viajar até uma ilha desconhecida. O rei lhe pergunta como pode saber que essa ilha existe, já que é desconhecida. O homem argumenta que assim são todas as ilhas até que alguém desembarque nelas. Este pequeno conto de José Saramago pode ser lido como uma parábola do sonho realizado, isto é, como um canto de otimismo em que a vontade ou a obstinação fazem a fantasia ancorar em porto seguro. Antes, entretanto, ela é submetida a uma série de embates com o status quo, com o estado consolidado das coisas, como se dá resistência às adversidades viesse o mérito e do mérito nascesse o direito à concretização. Entre desejar um barco e tê-lo pronto para partir, o viajante vai de certo modo alterando a ideia que faz de uma ilha desconhecida e de como alcançá-la, e essa flexibilidade com certeza o torna mais apto a obter o que sonhou. Leitura de Fevereiro 2026 INTRODUÇÃO À TRILOGIA OBSCENA DE HILDA A obscena senhora D, por Hilda Hist 80 páginas A obscena senhora D é uma novela sobre o luto com fartas doses de dramaturgia, filosofia e poesia. Aos sessenta anos, após a morte do marido, Hillé ― a senhora D ― percebe que está absolutamente sozinha. Em seu luto, a protagonista decide viver no vão da escada de casa e experimentar o mais profundo isolamento. Num intenso fluxo de consciência, ela se vê às voltas com lembranças do passado ao mesmo tempo que se pergunta sobre o verdadeiro sentido da vida. Leitura de Março 2026 A Hora da Estrela, por Clarice Lispector 88 pág Pouco antes de morrer, em 1977, Clarice Lispector decide se afastar da inflexão intimista que caracteriza sua escrita para desafiar a realidade. O resultado desse salto na extroversão é A hora da estrela, o livro mais surpreendente que escreveu. Se desde Perto do coração selvagem, seu romance de estreia, Clarice estava de corpo inteiro, todo o tempo, no centro de seus relatos, agora a cena é ocupada por personagens que em nada se parecem com ela. A nordestina Macabéa, a protagonista de A hora da estrela, é uma mulher miserável, que mal tem consciência de existir. Depois de perder seu único elo com o mundo, uma velha tia, ela viaja para o Rio, onde aluga um quarto, se emprega como datilógrafa e gasta suas horas ouvindo a Rádio Relógio. Apaixona-se, então, por Olímpico de Jesus, um metalúrgico nordestino, que logo a trai com uma colega de trabalho. Desesperada, Macabéa consulta uma cartomante, que lhe prevê um futuro luminoso, bem diferente do que a espera. Leitura de Abril 2026 Carne de Mãe, por Mell Renault 92 Páginas Toda mulher nasceu para ser mãe? Em uma explosão de sinceridade, a personagem desenvolve uma linguagem coloquial que torna a narrativa fluida. Uma emocionante súplica pelo amor materno.Os bastidores de uma relação que sempre foi romantizada, em uma história forte e contemporânea. Os traumas que uma filha pode desenvolver devido a uma mãe tóxica, abusiva e desprovida de afeto materno. Leitura de Maio 2026 A morte e a morte de Quincas Berro Dágua, por Jorge Amado 95 páginas Escrita em 1959, essa pequena obra-prima de concisão narrativa e poética é tida por muitos como uma das mais extraordinárias novelas da nossa língua. Numa prosa inebriante, que tangencia o fantástico sem perder o olhar aguçado para as particularidades da sociedade baiana, Jorge Amado narra a história das várias mortes de Joaquim Soares da Cunha, vulgo Quincas Berro Dágua, cidadão exemplar que a certa altura da vida decide abandonar a família e a reputação ilibada para juntar-se à malandragem da cidade. Algum tempo depois, Quincas é encontrado sem vida em seu quarto imundo. Sua envergonhada família tenta restituir-lhe a compostura, vesti-lo e enterrá-lo com decência; mas, no velório, os amigos de copo e farra dão-lhe cachaça, despem-no dos trajes formais e fazem-no voltar a ser o bom e velho Quincas Berro Dágua. Levado ao Pelourinho, o finado Quincas joga capoeira, abraça meretrizes, canta, ri e segue a farra em direção à sua segunda e agora apoteótica morte. Leitura de Junho 2026 12321 – O Amor é um Palíndromo, por Marina Kon 92 páginas A autora Marina Kon explora o ciclo vicioso de agressões diversas, infidelidade, adestramento e triangulação praticadas por um homem que busca impor suas vontades. 12321 – O amor é um palíndromo é um romance de narrativa ordinária no mundo machista em que vivemos, mas Marina faz da trágica história uma literatura intensa, cruel e intrigante. Leitura de Julho 2026 Flor de Gume, por Monique Malcher 136 páginas Literatura como mergulhar as pernas nos rios do Pará e ouvir palavras que contam meninas presas em infâncias machucadas, mães e mulheres que crescem como plantas de verde profundo, apesar da realidade de violência, e avós que nutrem raízes, que aplicam ervas restauradoras no corpo ferido. Uma obra mística, que chama entidades e ancestralidades. Contos desenhados em cartas de tarô, estética literária que roda junto com as saias. Uma riqueza de referências. Experiência necessária para a literatura brasileira, que é presenteada com Flor de Gume, o intenso encontro com o Norte do país e o chamamento feito por Monique Malcher, que nos ajuda a furar a ignorância do mercado editorial e, com ela, direciona nossa atenção para além do sudeste. Leitura de Agosto 2026 Olhos Dágua, por Conceição Evaristo 109 pág O livro Olhos D’água é uma daquelas obras que nos cortam na carne,
Oirta Gomes Miranda: Uma Vida de Fé, Dedicação e Visão à Frente de Seu Tempo
Por Marcelo Miranda Oirta Gomes Miranda foi uma figura notável, cujo legado é marcado por sua fé inabalável, dedicação incansável à família, um profundo senso de justiça social e uma visão singular que a colocava à frente de seu tempo. Ela é lembrada não apenas como uma mulher exemplar e um pilar para sua comunidade, mas como uma inspiração constante, cuja vida tocou profundamente a de muitos. Como exemplo e testemunho de sua profunda religiosidade, participou ativamente da construção da Capela Mãe Rainha, que, além de ser um marco de fé, tornou-se um ponto turístico em Ubajara. Primeiros Anos e Formação: Nascida e criada em um lar de princípios cristãos sólidos, Oirta desde cedo demonstrou uma forte ligação com a fé. Seus pais e avós lhe transmitiram valores como honestidade, trabalho duro e um amor profundo por Deus e pelo próximo, que se manifestaria intensamente em seu senso de justiça e em suas ações ao longo da vida. Essa base foi fundamental para moldar seu caráter e direcionar suas escolhas. Laços Familiares e Suporte Inestimável: Casada com Manoel Miranda, Oirta construiu uma família abençoada, dedicando-se incansavelmente ao bem-estar e à educação de seus filhos. Além de seu núcleo familiar, Oirta estendia seu suporte a outros membros da família. Quando Marlene Gonçalves Miranda, esposa de seu cunhado Florival Miranda (já falecido), mudou-se do Rio de Janeiro para Ubajara com sua família, Oirta foi um porto seguro. Ela não hesitou em oferecer um emprego a Marlene no FUNRURAL – órgão governamental que garantia a aposentadoria de agricultores do interior do estado –, demonstrando sua generosidade e seu compromisso em ajudar quem precisava. Seu senso de justiça e sua perspectiva positiva eram evidentes em suas interações. Uma anedota familiar ilustra seu apreço pela natureza e sua fé: certa vez, Marlene, recém-chegada do Rio de Janeiro e de outra cultura, ao ver o céu carregado de nuvens, exclamou: “O céu está feio!” Tia Oirta, com sua perspicácia característica, corrigiu-a imediatamente: “Bate na boca, Marlene, o CÉU ESTÁ LINDO PRA CHOVER!” Um Coração para Causas Sociais e Visão de Futuro: Oirta sempre esteve profundamente ligada às causas sociais. Seu senso de justiça, herdado de seus pais e avós, era uma virtude proeminente. Ela não apenas acreditava em um mundo melhor, mas agia para construí-lo. Sua visão abrangia desde o apoio individual, como no caso de Marlene, até projetos mais amplos para o desenvolvimento de sua região. Em uma conversa reveladora, seu irmão Gomes de Moura contou que, ao visitá-la, a encontrou debruçada sobre uma vasta quantidade de papéis, escrevendo intensamente. Ao perguntar o que fazia, Oirta respondeu: “Estou elaborando um projeto para uma faculdade em Ubajara!” Este projeto, embora não tenha sido adiante na época, mostrava sua profunda preocupação com o acesso à educação em um tempo em que o estudo era de difícil acesso na Serra da Ibiapaba, solidificando sua imagem como uma mulher genuinamente à frente de seu tempo. Preservadora da Memória e Inspiradora de Gerações: Além de sua busca por um futuro educacional para a região, Tia Oirta também demonstrou um firme propósito na preservação da história e da memória familiar. Ela dedicou-se a reunir, pesquisar e classificar os escritos de seu bisavô, Manoel Ferreira de Miranda, cujo trabalho ela publicou sob o pseudônimo de “EMMES”. Essa homenagem resultou na publicação do “Diário de um Velho”, um trabalho inspirador que deu continuidade à pesquisa sobre a família, assegurando que o legado de seu bisavô e o seu próprio vivessem. Testemunhos e Reconhecimento: As virtudes de Oirta Gomes Miranda são amplamente reconhecidas. Seu irmão, Gomes de Moura, exclamou todas as suas qualidades em textos dedicados à sua vida. Para aprofundar-se e validar esses escritos, o leitor pode consultar os seguintes links: Conclusão: A vida de Oirta Gomes Miranda foi uma tapeçaria rica, tecida com fios de fé, amor familiar, justiça social e um espírito inovador. Sua memória perdura não só nas palavras de seu irmão e na gratidão de sua família, mas também no impacto duradouro que ela teve naqueles que a conheceram. Ela foi, sem dúvida, uma mulher que viveu com propósito e abençoou a vida de muitos.
Perfeição
Por Melissa Vasconcelos Não gosto de me transformar em nada que eu não seja. Não gosto de me transformar em coisa nenhuma, pois nunca me mantenho em mim mesma. Sempre nos transformamos em nada do que pensamos, e tudo o que pensamos sobre nós, tripudia-nos como Judas tripudiou Jesus Cristo. Somos os Judas das nossas vidas, criando máscaras e filtros de definição, quando, na verdade, não sabemos quem somos. Os conceitos que já julguei sobre mim e outros foram trabalhos vãos, mudando como a água que nas cachoeiras. Em cada gole, descobrimos nuances inesperadas e desconhecidas das nossas profundidades ou superficialidades, não sendo bicho, nem fera: sendo humano. Significa assim dizer que não somos completos de modo algum, e que ainda que criemos conceitos ou fórmulas, a qualquer hora, nos auto decepcionaremos: somos frágeis, falhos e falsos. Frágeis por não haver consistência em nossos princípios, de modo que todos estão sujeitos ao erro. Falhos, porque, ainda que a casa esteja bem forjada e preparada, os erros são o constante ofício daquele que se arrisca a viver. Falsos, porque exigimos dos outros a perfeição e a fidelidade de ser que nem em nós mesmos se há a confiança de cumpri-lo. Assim, somos todos estúpidos: julgando uns aos outros até os dias das mortes e apontando dedos nos narizes alheios, sem enxergar os poros inflamados do nosso próprio nariz. O nunca só existe a quem não vive, e o sempre é a mentira daqueles que negam a morte. O mundo apodrece na própria carne. A carne morre na própria pena.
Ubajara celebra o lançamento do livro “Crescendo Entre as Rosas”
Por Monique Gomes Na última sexta-feira, 3 de outubro de 2025, o município de Ubajara, conhecido como um dos grandes berços culturais da Serra da Ibiapaba, foi palco de mais um marco literário: o lançamento do livro “Crescendo Entre as Rosas”, escrito pela empresária Lucivanda Fernandes. O evento reuniu familiares, amigos e admiradores da autora em uma tarde de celebração, emoção e inspiração. A cerimônia aconteceu no Espaço Aromas e Flores, empreendimento idealizado pela própria Lucivanda, localizado no bairro Monte Castelo. O local, que oferece experiências multissensoriais por meio de serviços de spa, massagem, perfumaria e cafeteria, foi o cenário perfeito para um encontro que uniu arte, empreendedorismo e sensibilidade. Lucivanda, que é CEO da Fazenda Santo Expedito e diretora da Rota Turística Mirantes da Ibiapaba, apresentou sua obra em formato intimista, cercada por mulheres que fazem parte de sua trajetória. O livro narra em primeira pessoa as vivências de uma mulher que transformou desafios em aprendizados e construiu um legado de fé, coragem e liderança no agronegócio, no turismo de experiência e na perfumaria artesanal. Em entrevista à Camile Mendes, a autora emocionou o público ao falar sobre o significado da obra: “Aqui tem relatos e histórias de quem cresceu estudando, teve muitas experiências, recomeços e espero que inspirem mulheres a recomeçar com o que já têm”, declarou Lucivanda. Com uma narrativa envolvente e inspiradora, “Crescendo Entre as Rosas” convida o leitor a refletir sobre o poder do propósito, a força dos recomeços e o florescer de cada mulher diante dos desafios da vida. “Foi uma noite marcada por emoção, cercada de mulheres incríveis que, em algum momento, cruzaram o meu caminho e deixaram sua marca. Muitas delas me inspiram até hoje… e é para elas e para todas as mulheres que escrevi estas páginas”, completou a autora. Ubajara, terra de grandes escritores e artistas, reafirma assim sua vocação cultural ao celebrar o talento e a sensibilidade de mais uma filha ilustre da cidade. Lucivanda Fernandes, com sua obra de estreia, faz um tributo à força feminina e ao espírito empreendedor da mulher ibiapabana.